Tempo de trabalho: fonte de prazer e realização ou de sofrimento, adoecimento e mortes
Ana Claudia Moreira Cardoso
Resumo: O presente artigo analisa como o tempo de trabalho, considerando as dimensões da sua duração, distribuição e intensidade, determina o processo saúde-doença. Afinal, se a atividade do trabalho pode gerar satisfação, realização e prazer, ela também pode resultar em sofrimento, mal-estar, doenças e acidentes. O fato da balança pender mais para um lado ou outro dependerá de como o trabalho é organizado e gerido, sendo que o tempo de trabalho ocupa um lugar central neste processo. Desta forma, mostra-se necessária uma melhor compreensão a respeito de como tais dimensões do tempo de trabalho impactam a saúde de quem trabalha para que tal conhecimento sirva de subsídio para a ação dos atores sociais.
Sumário: Introdução | Os tempos de trabalho e o processo Saúde-Doença | Duração do tempo de trabalho | Distribuição, pausas e flexibilidade | Intensidade | Considerações finais
Introdução
Tendo em conta que o tempo de trabalho é uma dimensão extremamente relevante do “como” as tarefas são prescritas e a atividade do trabalho é realizada, o presente artigo analisa “como” as dimensões da sua duração, distribuição e intensidade determinam o processo saúde-doença. Para tal, as questões que orientam esta investigação dizem respeito ao desgaste (Laurell e Noriega, 1989) gerado pelos tempos de trabalho, bem como a possibilidade e os momentos de sua recuperação se apenas decorrentes das demandas das empresas ou também em função das necessidades daqueles que trabalham. O trabalho, por sua vez, é tomado como determinante na construção social tanto da saúde como da doença, sendo estas entendidas não como “estados”, mas resultantes de um processo social, laboral, econômico e político (Daubas-Letourneux e Thébaud-Mony, 2002). Também nos apoiamos na noção de Riscos Psicossociais no Trabalho – RPS definida como “uma nova categoria de riscos associados aos fenômenos de transformação do trabalho ligados à intensificação, à precarização, às novas formas de organização das empresas e à introdução de novas tecnologias” (Lerouge, 2009, p. 9).
De acordo com Neffa (2019), esses fatores de risco são determinados pela forma como o capital organiza o conteúdo e o processo de trabalho, assim como pelo papel exercido pela legislação, bem como pelo contexto macroeconômico e político. Por sua vez, os indicadores utilizados para analisar os RPS, conforme Gollac e Bodier (2011) – exigências físicas, emocionais e psíquicas; autonomia; relações sociais de trabalho e conflitos de valores e segurança na situação de trabalho/emprego evidenciam que a saúde laboral deve ser buscada no trabalho, rompendo com a narrativa que individualiza o processo de adoecimento, culpabiliza quem trabalha e foca no gerenciamento do sofrimento dos trabalhadores.
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Ana Claudia Moreira Cardoso é doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo – USP e Universidade Paris 8. Realizou pós-doutorado pela Universidade de Brasília – Unb e no Centre de Recherches Sociologiques e Politiques de Paris. Atualmente é consultora e formadora sindical.
