Uberização: a era do trabalhador just-in-time?

Fotografia: Anadolu Agency/Getty Images

A uberização refere-se à materialização de décadas de transformações políticas do mundo do trabalho, apresentando-se como tendência que permeia generalizadamente o mundo do trabalho, possibilitando-nos pensar em termos de consolidação do trabalhador como trabalhador just-in-time.

Ludmila Costhek Abílio

Fonte: Esquerda.net
Data original da publicação: 30/05/2021

No início de 2019, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), 3,8 milhões de brasileiros tinham no trabalho por aplicativo a sua principal fonte de rendimento. Já a investigação do Instituto de Locomotiva demonstrou que aproximadamente 17 milhões de pessoas obtêm regularmente algum rendimento por via do trabalho por aplicativo no Brasil (Estadão, 2019). Na Europa, investigações evidenciam uma participação pequena, mas em rápido crescimento, da chamada gig economy na economia (Huws et al., 2018). Os estudos do trabalho veem-se desafiados a estabelecer novas categorias de análise, tais como o crowdwork e o trabalho on-demand (De Stefano, 2016), o platform labour (Van Doorn, 2017), a plataformização do trabalho (Grohemann, 2020) – termos que procuram categorizar por diferentes perspectivas as relações de trabalho que hoje são mediadas pelas plataformas digitais. A tese central deste artigo é que estamos a acompanhar ao vivo uma nova forma de controlo, gestão e organização do trabalho, que está amplamente relacionada ao trabalho mediado por plataformas digitais mas não se restringe a ele; trata-se de uma tendência global, aqui compreendida como  uberização.

Essa refere-se à materialização de décadas de transformações políticas do mundo do trabalho, apresentando-se como tendência que permeia generalizadamente o mundo do trabalho, possibilitando-nos pensar em termos de consolidação do trabalhador como trabalhador just-in-time.

Nas metrópoles, o fenômeno ganhou visibilidade com a multidão de motoristas e a empresa Uber, que simplesmente vem reconfigurando a questão da mobilidade urbana no mundo; com os estafetas em moto – que já existiam, mas têm agora o seu trabalho transformado. Também com os jovens negros periféricos que se tornam bike boys no espaço urbano, que, por vezes, pedalam mais de 50 km por dia, sete dias por semana, cerca de 10 horas por dia, para ter um rendimento médio de aproximadamente um salário mínimo (Aliança Bike, 2019), num trânsito que não oferece condições mínimas de segurança para o ciclista. Mas, na realidade, a uberização abarca diversas ocupações, atravessando o mercado de trabalho de alto a baixo, seja no presente seja desenhando-se como um futuro próximo e possível.

A discussão aqui apresentada é orientada por resultados de aproximadamente dez anos de investigação empírica com revendedoras de cosméticos e estafetas motociclistas, os chamados motoboys, ou, após a recente regulamentação da profissão, motofretistas[1].

Com as revendedoras, reconhecemos elementos tais como o trabalho amador, o crowdsourcing, a sobreposição do trabalho no consumo, a transferência de riscos e custos numa relação de trabalho que precede as plataformas digitais (Abílio, 2014). Naquela ocupação tipicamente feminina, socialmente invisível, num trabalho que mal é reconhecido como tal, já era possível identificar elementos centrais que tecem a reprodução social das mulheres, que se espraiam com a flexibilização do trabalho e hoje se atualizam na uberização. As indistinções entre o que é e não é tempo de trabalho, a nebulosidade entre o que é e não é trabalho, as sobreposições do espaço doméstico no espaço de trabalho são alguns dos elementos que compõem a flexibilização do trabalho e hoje se aprofundam sob uma nova forma de gestão e controlo.

Com os motofretistas, acompanhamos as transformações de um trabalho que passa a estar organizado e integrado sob novas formas, que alteram os seus modos de remuneração, a determinação do tempo de trabalho, as motivações subjetivas, a formação da identidade profissional, a saúde do trabalhador, entre outros elementos. Num movimento de ampliação e redução das nossas escalas de análise (Revel, 1998), conceituamos a uberização trazendo para o centro da reflexão a experiência e a perspetiva dos trabalhadores.

A complexidade da uberização

A uberização do trabalho define uma tendência em curso que pode ser generalizável pelas relações de trabalho, que abarca diferentes setores da economia, tipos de ocupação, níveis de qualificação e rendimento, condições de trabalho, num âmbito global. Derivado do fenómeno social que tomou visibilidade com a entrada da empresa Uber no mercado, na realidade, o termo uberização refere-se a processos que não se restringem a essa empresa nem se iniciam com ela, e que culminam numa nova forma de controlo, gestão e organização do trabalho.

É possível também conceituá-la como um amplo processo de informalização do trabalho, processo que traz mudanças qualitativas para a própria definição de trabalho informal. Mostra-se complexa e poderosa na redefinição das relações de trabalho, podendo ser compreendida como mais um passo no processo de flexibilização do trabalho, ao mesmo tempo que concorre com as terceirizações na forma como as conhecemos nas últimas décadas. Opera também com um novo meio de monopolização de atividades económicas (Slee, 2017) e de centralização do controlo sobre o trabalho.

A uberização refere-se às regulações estatais e ao papel ativo do Estado na eliminação de direitos, de mediações e controlos publicamente constituídos; resulta da flexibilização do trabalho, aqui compreendida como essa eliminação de travões legais à exploração do trabalho, que envolve a legitimação, legalização e banalização da transferência de custos e riscos ao trabalhador. Por essa perspetiva, ela relaciona-se ao direito como um campo em movimento, de disputas permanentes em torno das regulações que materializam os conflitos, as assimetrias e desigualdades, e as vitoriosas legitimidades que os envolvem. Ainda, na relação entre inovação tecnológica e papel do Estado, a uberização também se refere aos desafios nacionais ante os espaços transnacionais que se formam no ciberespaço do mundo do trabalho, dando uma nova dimensão ao que David Harvey (1992) denominou organização na dispersão.

Envolta na produção discursiva do empreendedorismo, a uberização remete também aos modos de subjetivação relacionados às formas contemporâneas de gestão do trabalho e ao neoliberalismo (Laval; Dardot, 2016; Dejours, 1999), que nos exigem uma compreensão do envolvimento, responsabilização e gestão da própria sobrevivência, praticados e experenciados pelos trabalhadores e trabalhadoras uberizados.

Além disso, a uberização evidencia o presente e as tendências da gestão e subordinação do trabalho, que operam na indistinção entre vigilância, controlo e gestão do trabalho. Envolve a possibilidade de extração, processamento e gestão de dados em dimensões gigantescas e ao mesmo tempo centralizadas, contando com as possibilidades contemporâneas de mapeamento integral do processo produtivo. Esse mapeamento e gestão hoje incorporam, de novas maneiras ainda pouco conhecidas, a vida quotidiana de trabalhadores, utilizadores, consumidores (Zuboff, 2018, 2019).

Entretanto, é preciso compreender toda essa novidade não só como atualização e mudanças qualitativas de processos em curso há décadas, mas também como espraiamento e visibilização de elementos historicamente associados aos mercados de trabalho periféricos. Está em jogo a tendência de uma generalização a nível global de características persistentemente invisibilizadas e fortemente associadas à marginalidade, ao trabalho informal e, mais genericamente, ao mundo do trabalho da periferia (Abílio, 2018). Portanto, e é essa a perspectiva que percorre toda a presente análise, a uberização não pode ser entendida apenas como uma espécie de ponta do iceberg do neoliberalismo e da flexibilização do trabalho, muito menos como mero resultado da inovação tecnológica. É preciso compreender que ela dá visibilidade, numa perspectiva global, a elementos que são insistentemente invisibilizados e diretamente associados à constituição da periferia na sua especificidade no desenvolvimento capitalista. Assim, este artigo procura escapar das armadilhas epistemológicas (quase inescapáveis) das dualidades estruturantes entre modernização e atraso, entre desenvolvimento e subdesenvolvimento, entre integrados e não integráveis, entre centro e margem, para compreender a uberização como uma nova forma de gestão, controlo e organização do trabalho, que, ao mesmo tempo que nos exige pensar em termos de capitalismo de plataforma (Srnicek, 2016) em capitalismo de vigilância (Zuboff, 2018, 2019), também requer que em toda essa novidade lancemos luz numa generalização de características estruturantes da exploração do trabalho na periferia, que foram comumente obscurecidas e tratadas como marginais e agora revelam mais claramente a sua centralidade no modo de produção capitalista.

Sinteticamente, a análise neste artigo é organizada por quatro elementos-chave que envolvem a definição de uberização: 1) Trata-se de uma tendência global de transformação do trabalhador em trabalhador autónomo, permanentemente disponível ao trabalho, reduzido a um autogerente subordinado (Abílio, 2019), ao mesmo tempo que está desprovido de qualquer direito ou proteção associados ao trabalho, assim como de qualquer garantia sobre a sua própria remuneração e limites sobre o seu tempo de trabalho. Podemos defini-la como redução do trabalhador a um trabalhador just-in-time (Oliveira, 2000; Abílio, 2017, 2019; De Stefano, 2016); 2) As empresas designam a sua atividade principal como mediadoras que detêm essencialmente meios tecnológicos para a promoção e organização do encontro entre oferta e procura de diferentes atividades económicas, e, na realidade, operam aí novas formas de subordinação e controlo do trabalho. Essas hoje desafiam e mobilizam os estudos do trabalho, as políticas públicas, as regulações do trabalho no que concerne ao seu reconhecimento, categorização, legalização. Para a sua compreensão, utilizaremos a definição de gestão algorítmica do trabalho; 3) De um contingente predefinido passamos a lidar com a figura da multidão de trabalhadores disponíveis: controlo e subordinação operam de forma racionalizada com a indeterminação quanto ao número de trabalhadores, o seu perfil profissional, o seu tempo de trabalho, a sua remuneração. Na mesma lógica, o papel de instituir e executar normas de certificação e fiscalização do trabalho é transferido do Estado para as empresas-aplicativo (Abílio, 2017), que o terceirizam para a multidão indeterminada de consumidores. É transferida para os consumidores parte da gestão e controlo sobre o trabalho, também ele um controlo subordinado pelas empresas-aplicativo. A indeterminação controlada da multidão será aqui compreendida através da definição de crowdsourcing (Howe, 2008); 4) Todos esses elementos envolvem também o deslizamento da identidade profissional do trabalho para a de trabalho amador, componente poderoso desse novo tipo de informalização do trabalho.

O trabalhador just-in-time: auto-gestor disponível e subordinado

As reconfigurações do mundo do trabalho nas últimas décadas deixaram evidente que é possível dispersar o trabalho sem perder o controlo sobre ele. Tal dispersão fez-se acompanhada de uma crescente transferência de riscos e custos das empresas soberanas (Bernardo, 2004) para as empresas e os trabalhadores a elas subordinados. Como já demonstraram David Harvey (1992) com a definição de organização na dispersão e João Bernardo (2004), a expansão em nível global dos nós das cadeias produtivas significou uma enorme transferência de riscos, custos e ónus da gestão pelas redes hierarquizadas que as formam e ao mesmo tempo uma enorme centralização de capitais e do controlo sobre todo o processo de trabalho e formas ferrenhas de subordinação. O toyotismo, compreendido mais ampla e profundamente do que apenas uma nova forma de organização da linha de produção (Antunes, 2018), tem como aspecto central a transferência para o próprio trabalhador de parte da gestão da produção. Essa gestão permanece subordinada e controlada, engendrando novas formas de envolvimento e disciplinarização que estão assentes na participação e na contribuição ativa do trabalhador para o aumento da sua própria produtividade[2]. Para além das fábricas, pode-se percebê-lo emblematicamente na figura do trabalhador home office, que, liberto do relógio de ponto, da baia de um escritório, da figura do gerente, tem o seu tempo de trabalho e a sua produtividade altamente controlados por novos mecanismos, como os das metas e entregas por produto. Assim, parte da gestão do trabalho é transferida para o próprio trabalhador, ao mesmo tempo que os custos são eliminados ou também transferidos. A suposta liberdade na definição do local de trabalho (e a dispersão da gestão que vem com essa transferência), na duração da jornada, nos dias trabalhados, não significou, portanto, perda de produtividade do trabalhador ou mesmo redução do tempo de trabalho; pelo contrário. O que vemos é a crescente eliminação de proteções ao trabalhador, especialmente com relação às determinações e proteções sobre os limites da jornada de trabalho, sobre a remuneração, sobre os riscos e custos. São, portanto, centrais nessas décadas de flexibilização do trabalho as crescentes indistinções entre o que é e o que não é tempo de trabalho, a perda de regulações públicas sobre o próprio espaço de trabalho, as novas formas de remuneração – que passam pelo banco de horas, a remuneração por metas e produtos, as bonificações, a participação nos lucros e resultados – que se traduzem ao mesmo tempo em controlo sobre a produtividade e eliminação de direitos e proteções para o trabalhador. Em resumo, nessas décadas de desenvolvimento das tecnologias da informação; de mundialização das cadeias produtivas; de centralização de capitais por gigantes enxutas que se desvencilham dos pesos, custos e responsabilidades ao mesmo tempo que controlam todas as etapas das suas cadeias; das novas formas de gestão e gestão do trabalho que têm em seu cerne a auto-gestão e a participação do trabalhador na administração eficaz da sua própria produtividade, estabeleceram-se formas de subordinação e controlo do trabalho que deixaram evidente que é possível terceirizar – até para o próprio trabalhador – parte da gestão do trabalho, transferir riscos e custos, eliminar meios rígidos e publicamente estabelecidos de remuneração do trabalho, de controlo do tempo de trabalho, de execução do trabalho, sem que isso signifique perda de produtividade ou de controlo sobre o trabalhador. Na uberização, a dispersão opera em novas dimensões e lógicas. Agora é preciso olhar para a figura plenamente consolidada do trabalhador como autogestor de si mesmo, responsável pela sua própria sobrevivência e permanência num trabalho onde nada parece estar garantido. O trabalhador uberizado inicia a sua jornada sem ter qualquer garantia sobre qual será a sua carga de trabalho, a sua remuneração e o tempo de trabalho necessário para obtê-la. As estratégias pessoais para a gestão da própria sobrevivência passam a estar no cerne da reprodução social dos trabalhadores, ao mesmo tempo que são incorporadas e geridas no processo de trabalho.

Grande parte das decisões legais que negam o vínculo laboral de trabalhadores uberizados com as empresas-aplicativo apoia-se na possibilidade de o trabalhador determinar a sua própria jornada de trabalho e na ausência de exclusividade, que permite a adesão a mais de uma empresa-aplicativo. Podemos olhar para essa suposta autonomia por uma perspetiva inversa: a ausência de qualquer garantia ou obrigação por parte das empresas quanto à remuneração e à carga de trabalho oferecida obriga o trabalhador a exercer jornadas extensas, a abolir dias de descanso, além de ter de aderir a mais de uma empresa-aplicativo para poder garantir a sua remuneração – ao passo que o poder de definir o valor da remuneração, a distribuição do trabalho, as regras e critérios de distribuição e remuneração é de total propriedade das empresas.

O trabalhador passa a ter o seu trabalho utilizado e remunerado na exata medida da procura. Aquele hoje denominado empreendedor é na realidade o trabalhador solitariamente encarregue da sua própria reprodução social. Sozinho enquanto gestor de si próprio, ao mesmo tempo que continua subordinado às empresas. O trabalhador uberizado motofretista, por exemplo, assume o exercício/a necessidade permanente de estabelecer estratégias para garantir a sua maior remuneração – o que envolve definir o melhor horário de trabalho, por outras palavras, o período em que lhe são oferecidas mais e melhores entregas; envolve decidir ir para casa à noite ou estender a sua jornada à procura do bónus que poderá ou não conseguir ganhar; envolve correr maiores riscos em dias de chuva, quando o valor da corrida é aumentado; envolve escolher o local de trabalho na cidade, ou seja, a área onde há maior procura por motofretistas, os caminhos que exijem menos tempo para a entrega, o que poderá garantir um melhor ranking e consequentemente melhores entregas posteriores. Mas todas essas estratégias estão subordinadas às regras do jogo permanentemente mutáveis praticadas pelas empresas, que detêm o poder de definir – para além da vontade dele ou do seu poder de decisão – qual será o trabalho disponível para ele e a que preço/custo/ganho.

No centro de São Paulo, jovens bikeboys dormem nas praças à espera da próxima entrega (Machado, 2019); centenas de motoristas da Uber enfileiram-se num terreno próximo ao aeroporto de Guarulhos aguardando às vezes por mais de 12 horas a corrida que lhes será disponibilizada pela empresa – e que pode ou não compensar a sua espera (Machado, 2017). Para esses trabalhadores, permanecer na rua, disponível para a empresa, durante 18 horas por dia não significa ser remunerado por 18 horas de trabalho. A condição do trabalhador just-in-time é estar disponível para ser imediatamente utilizado, mas ser remunerado unicamente pelo que produz.

A eterna batalha do capital para a redução dos postos do trabalho é finalmente resolvida. Note-se que já não se trata de conseguir utilizar a força de trabalho integralmente ao longo de uma jornada de trabalho definida: trata-se de ter a força de trabalho permanentemente disponível e só fazer uso dela quando necessário, remunerando-a estritamente pelo que for produzido.

É preciso ainda destacar que a transformação do trabalhador em trabalhador just-in-time também está relacionada ao poder de monopolização que as empresas que encabeçam a uberização têm vindo a ter (Slee, 2017). Há menos de dez anos, o setor de entregas por motocicletas em São Paulo, por exemplo, contava como uma gigantesca oferta de empresas terceirizadas de diferentes portes, desde escritórios improvisados que mantinham menos de dez empregados até empresas que ganhavam as licitações de serviços públicos, cartórios, hospitais. Não há dados precisos, mas hoje poucas empresas conseguem manter-se ante a atuação de empresas-aplicativo como a Loggi, atuante em São Paulo desde 2013, atualmente avaliada em mil milhões de dólares[3]. Noutras palavras, agora dezenas de milhares de motofretistas só conseguem sobreviver com as entregas se aderirem às três ou quatro empresas-aplicativo que dominam o setor na cidade de São Paulo.

Mauro[4], 39 anos, motoboy há 15, entrevistado em 2018, sintetiza a condição do just-in-time e a relação desta com a monopolização:

“Vai até achar estranho eu falar só da Loggi, hoje eles conquistaram o mercado, tanto que você tem que trabalhar até à meia-noite, a carga horária aumentou… antigamente você tinha uma meta, eu particularmente e vários amigos meus tínhamos uma meta de R$300 por dia… ‘Eu vou fazer, tipo, até às 6h, no máximo até 7h’… você conseguia… hoje não. É o que a gente fala, o cara quando não tem família, é solteiro, é diferente, ele trabalha até a hora que ele quiser, então hoje a Loggi está praticamente a obrigar você a ficar até meia noite, 11 horas na rua.
Antes tínhamos muitas entregas, não existia tanto stress, não era tão nervoso, hoje em dia você cansa-se mais a andar de moto, gastando, sem ganhar nada, do que a trabalhar. Por isso eu digo, nesse último ano agora, pelo amor de Deus, o stress, nervoso, cansaço, as dores físicas nas costas, mental, pioraram, porque você está a andar mais de moto do que a fazer serviços, porque você tem que ficar a rodar”.

A narrativa de Mauro evidencia um elemento recorrente nas investigações com trabalhadores just-in-time. Como Kalil (2019), Castro (2019) e Moda (2019) demonstram nas suas investigações com motoristas da Uber, a definição da duração da jornada de trabalho não está mais relacionada com limites determinados sobre o tempo de trabalho, mas com o rendimento necessário a ser obtido por dia. Como vemos, o que fundamenta as longas jornadas nada mais é do que a gestão da própria sobrevivência. Trabalhadores uberizados, com as suas metas definidas informalmente e por eles mesmos, na realidade estão a trabalhar o tempo que for preciso para obter o valor que estabelecem para si como o rendimento necessário.

Empresas “mediadoras”, trabalhador “parceiro” e a  gestão algorítmica

Para trabalhadores uberizados não há despedimento, pois não há contratação. Não há vagas formalmente limitadas, não há processos seletivos, não há entrevistas ou envio de currículo. O motorista, o motofretista, o camionista, a empregada doméstica, o advogado, a manicure, o motoboy, o professor, o fisioterapeuta, entre tantos outros uberizados, não passarão por processos seletivos formais para trabalhar para/com as empresas-aplicativo: para ser, como elas propagam, um parceiro, basta aderir. A adesão implica preencher um formulário, aceitar os “termos de adesão” de um contrato que não é um contrato de trabalho e cumprir requisitos mínimos.

Assim, ao invés de uma empresa com um contingente limitado e definido, a empresa-aplicativo conta com milhares, milhões de trabalhadores informais cadastrados, disponíveis, que são utilizados na exata medida da procura. O termo “exata” não é exagero no que se refere ao trabalhador just-in-time: numa metrópole como São Paulo, a empresa Uber processa, organiza e gere integralmente e em tempo real a atividade – agora transformada em dados – da multidão de consumidores-utilizadores e o exército de motoristas informais.

Em 2011, analisando o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos da empresa Natura, afirmávamos que a “informalidade se traduz em informação” (Abílio, 2014). Mulheres dos mais variados perfis socioeconómicos, com diferentes relações com as revendas, aderem a um trabalho que mal é reconhecido como tal, que se confunde com o consumo, que formalmente não exige da revendedora qualquer tipo de dedicação ou exclusividade. Assim como os trabalhadores uberizados, as mulheres simplesmente aderem à atividade, tornando-se mais um número num formulário; assim como eles, aparentemente elas trabalham quando querem, da forma que quiserem. Entretanto, uma série de mecanismos informais amarram a atividade estimulando o envolvimento, o investimento em produtos que poderão ou não ser vendidos, a formação de stocks, a disseminação da marca, além das estratégias para sobreviver face a uma concorrência gigantesca.

A fábrica opera no modo de produção just-in-time, produzindo no tempo da venda das consultoras. Para o lado de dentro da fábrica, é possível transformar a atividade desse exército de um milhão de pessoas na informação que pauta a produção. O cerne do argumento é que a ausência de formas pré-estabelecidas do trabalho ou de requisitos das trabalhadoras é incorporada na gestão da produção, numa dispersão gigantesca e ao mesmo tempo controlada do trabalho. Naquele caso, as características do trabalho tipicamente feminino fundamentam as indistinções entre o que é e não é tempo de trabalho, a sobreposição do trabalho no consumo, a confusão entre espaços domésticos e de trabalho, entre trabalho e lazer. Atualmente, como já indicávamos naquela análise, podemos pensar em termos de uma generalização destas características do trabalho tipicamente feminino, que passam também a ganhar maior visibilidade.

Atualmente, a gestão algorítmica eleva a novos patamares a possibilidade de incorporar como elemento central da gestão a ausência de regras formalmente definidas do trabalho; a informalização é cada vez mais profundamente administrável. Ao mesmo tempo que se apresenta legalmente como uma mediadora, a empresa detém o poder de estabelecer as regras do jogo da distribuição do trabalho e determinação do seu valor. A gestão também assenta na intensificação e extensão do tempo de trabalho, regulando soberanamente oferta e procura, através de regras permanentemente mutáveis que se retro-alimentam da atividade da multidão. Seguindo com Mauro:

“[…] se o tempo estiver chuvoso, igual a hoje de manhã, eles mandam mensagem às 9horas: ‘das 10h até as 13h, fazendo 8 pedidos delivery você ganha mais R$50’. Se você não fizer você não ganha o bónus.”

O trabalhador não tem clareza sobre as regras que operam na definição de metas e bonificações; está evidente apenas que se trata de um estímulo ao seu envolvimento em determinados períodos, sendo-lhe transferido o cálculo entre arriscar a sua própria integridade e ganhar mais. Há um encontro entre a gestão da empresa e a auto-gestão subordinada do trabalhador: a empresa organiza a distribuição da oferta pelo espaço, ao mesmo tempo que tem de contar com as decisões do próprio trabalhador sobre o seu deslocamento e empenhamento nas tarefas oferecidas. O trabalhador vive disponível para o trabalho, sem saber como opera o seu próprio recrutamento. Batalhando num contexto de total incerteza, considera que é parte da programação a oferta de uma bonificação que não será possível alcançar:

“Eu, você e outro motoboy estamos a trabalhar lá, são 8 pedidos, eu e você fizemos 7, o outro motoboy fez 4. A quem eles vão atribuir a entrega? Ao outro motoboy”.

A gestão algorítmica conta com a possibilidade de cruzar e administrar uma ampla gama de dados em tempo real, pautar a atividade dos trabalhadores e ao mesmo tempo extrair das decisões e estratégias individuais novas definições e procedimentos. Dia de chuva, variação do valor da entrega, distribuição no tempo e no espaço, período do dia, oferta de trabalhadores, nível da procura, tarefas cumpridas por cada trabalhador, são todos conjun-tamente passíveis de ser mapeados, processados, cruzados e geridos como dados – uma gestão que, ao mesmo tempo que mapeia, também produz ações e comportamentos que serão novamente mapeados e geridos (aqui seguimos com a perspectiva inaugurada por Zuboff (2018, 2019), ao tratar do capitalismo de vigilância). Cada vez mais o termo gamificação (Scholz, 2013) parece fazer sentido, num processo de trabalho que assume características de um jogo, cujas regras, porém, não estão claras e são extremamente flexíveis. Fica evidente que a autogestão do trabalhador just-in-time – as suas decisões pessoais sobre o nível de envolvimento no trabalho – é subordinado às determinações da empresa; ela detém os meios de controlo sobre o trabalho, ou, noutros termos, de determinação das próprias regras do jogo. Um caminho para o reconhecimento da subordinação hoje é investigar onde está/quem detêm o poder de defini-las.

Crowdsourcing e a multidão vigilante

Em 2008, o jornalista Jeff Howe (2008) cunhou o termo crowdsourcing, hoje já bem difundido. O outsourcing teria chegado a seu novo estágio, tendo a crowd como a nova fonte das terceirizações. Navegando na celebração da economia compartilhada, o autor na realidade desvendava a enorme transferência de trabalho das empresas para os utilizadores de plataformas digitais, transformados numa multidão indeterminada de trabalhadores. Hoje o crowdsourcing atravessa de ponta a ponta o mundo do trabalho, abarcando diferentes ocupações, qualificações, níveis de remuneração. Não se restringe às tarefas de baixa qualificação, como as executadas pelos trabalhadores da Amazon Mechanical Turk ou os motoristas da Uber: transnacionais hoje contam com milhares de cientistas uberizados; plataformas do setor educacional oferecem os serviços de milhares de professores online (Gomes, 2019), entre outros. A plataforma Innocentive, por exemplo, liga cientistas uberizados à NASA e a multinacionais como Procter & Gamble e Johnson’s & Johnson’s, que estendem os seus departamentos de investigação e desenvolvimento aos laboratórios improvisados dos utilizadores-investigadores. As empresas lançam os seus “desafios” no site, os utilizadores encarregam-se de solucioná-los – estabelecendo eles próprios meios e estratégias para tal, arcando com os custos e com o risco. As soluções propostas pelos utilizadores são selecionadas pela empresa e podem ser patenteadas por ela; a contrapartida para o utilizador selecionado são os prémios em dinheiro.

No início dos anos 2000, a NASA criou o projeto Clickworkers e com ele descobriu que não precisava de ter trabalhadores contratados para identificar elementos tais como crateras nas fotos de Marte: após testar a multidão de navegadores emvolvidos, comprovou que essa era tão eficiente (e muito mais rápida) no cumprimento da tarefa quanto o contingente de geólogos contratados, realizando-a gratuitamente como forma de “colaboração para o futuro”. Como definir o trabalho dos utilizadores? Lazer? Trabalho não pago? O crowdsourcing está relacionado com uma informalização do trabalho que literalmente passa a significar uma perda de formas do trabalho. Somos então desafiados a uma nova compreensão sobre o trabalho informal. A forma trabalho pode ser mais ou menos reconhecível, levando-nos para  a sobreposição entre consumo e trabalho, para as indistinções entre o que é e o que não é tempo de trabalho, para a sobreposição entre trabalho e lazer, ou ainda para uma perda progressiva de formas do trabalho, especialmente no que se refere à ordem prescrita do trabalho (Dejours, 1999).

A base do crowdsourcing, portanto, é a multidão de trabalhadores disponíveis e empenhados, que não são contratados ou pré-selecionados. Aderem às atividades disponíveis, arcam com os riscos e custos, dedicam o seu tempo de trabalho a tarefas pelas quais podem ou não ser remunerados, em atividades que podem ou não ser reconhecidas como trabalho. Para compreender como a forma de controlo do crowdsourcing opera é preciso ainda olhar para a participação de uma terceira parte, para qual também é terceirizada uma parcela da gestão do trabalho. Trata-se da multidão de consumidores vigilantes.

A empresa determina o formato das avaliações sobre o trabalhador e como essas serão utilizadas no controlo, produtividade e gestão do trabalho. Entretanto, não é ela que executará essa tarefa de supervisão: terceiriza-a gratuitamente para o consumidor-utilzador. Estabelece-se informalmente um padrão de qualidade que é definido através da cooperação dessa multidão de utilizadores dispostos – e também por vezes obrigados (para que possam continuar a utilizar o serviço) – a definir o que é afinal o trabalho de qualidade. Há uma simbiose entre o trabalho uberizado, a empresa fetichizada como marca e o consumo que se realiza como supervisão do trabalho. Trabalhadores e consumidores proporcionam o fortalecimento e consequentemente a própria valorização da marca, o que é também o forjamento da confiança. Trabalho e consumo promovem e estabelecem os padrões de qualidade, ao mesmo tempo que divulgam e fortalecem a marca. As certificações do trabalho podem já não se fazer pela mediação do papel regulatório do Estado, mas pelo exercício vigilante da multidão de utilizadores-consumidores ligados.

A avaliação pelos consumidores, determinada e administrada pela empresa, será utilizada simultaneamente como meio fundamental de vigilância e estímulo à produtividade do trabalhador. O ranking que dela resulta dá visibilidade ao mesmo tempo que estimula a concorrência entre os trabalhadores. Para o trabalhador, o ranking e a avaliação positiva não se restringem apenas a um reconhecimento do seu trabalho – aspecto central para a subjetividade do trabalhador (Dejours, 1999); são também fonte fundamental para os critérios de distribuição e remuneração do trabalho.

O trabalho amador e a generalização das características tipicamente femininas do trabalho

Crowdsourcing e uberização concretizam uma crescente adesão a um trabalho que vai perdendo as formas socialmente reguladas e estabelecidas que lhe conferem a concretude de ser trabalho. A categoria de trabalho amador (Duja-rier, 2009; Abílio, 2014, 2017) refere-se a um trabalho que é trabalho, mas que não confere identidade profissional, que não tem alguns dos elementos socialmente estabelecidos que envolvem as regulações do Estado e estruturam a identidade do trabalhador enquanto tal. O taxista e o motorista da Uber realizam o mesmo trabalho, mas o taxista é um motorista profissional e o da Uber um trabalhador amador. Quanto aos motofretistas, estamos a acompanhar a mutação da sua identidade profissional com a uberização do seu trabalho. Como bem resume um motofretista no filme Gig – uberização do trabalho: “Estão a transformar a nossa profissão num frete”.

O trabalho amador apresenta-se como provisório, mesmo que seja permanente. Remete a uma perda de mediações publicamente estabelecidas que conferem a identidade profissional, uma perda de regulações estatais. Traz consigo uma maleabilidade que possibilita a sua capilaridade com diferentes modos de vida e trajetórias ocupacionais. Essa maleabilidade também se traduz na ausência de medidas e limites em relação ao tempo de trabalho, às condições de trabalho, à saúde e segurança do trabalhador. Significa ainda uma nebulosidade quanto à remuneração do trabalho, no qual, por sua perda de formas, se confundem ganhos, investimentos e custos.

Essa perda de formas do trabalho confere uma maleabilidade, uma flexibilidade, uma potencialidade de adaptação a outros trabalhos e outras esferas da vida. A indistinção entre o que é e o que não é tempo de trabalho, a fusão entre esfera profissional e esfera privada e a impossibilidade de mediações publicamente instituídas na regulação do trabalho, a indefinição quanto ao que é e o que não é trabalho são alguns dos elementos que compõem a vida quotidiana das mulheres e as chamadas ocupações tipicamente femininas. No mais precário trabalho da costureira ao domicilio, da empregada doméstica, da revendedora, da dona de casa podemos encontrar elementos que hoje estão no cerne da flexibilização do trabalho[5]. Com as revendedoras já podíamos observar como um trabalho que não tem a forma profissional do trabalho, que se apresenta entre o lazer, a sociabilidade entre mulheres, um meio para o consumo, adquire o caráter de trabalho amador. Essa ausência de formas está a espraiar-se para diversas ocupações, num processo de informalização que traz consigo novas formas de precarização do trabalho.

Vale a pena destacar que, para a grande maioria da classe trabalhadora brasileira, a auto-gestão de uma sobrevivência onde muito pouco está garantido, de uma provisoriedade permanente, é elemento estruturante de um modo de vida que precede políticas neoliberais e flexibilização do trabalho dos últimos quarenta anos (o que não quer dizer que essa auto-gestão também não se tenha atualizado em novas formas e lógicas). Entretanto, a grande novidade é que esse modo de vida passa a ser integrado de forma controlada, racionalizada e monopolizada. A figura dos ciclistas negros e periféricos a carregar nas costas as mochilas das empresas-aplicativo de entrega deixa evidente que um modo de vida sempre precário, arriscado, desprotegido, explorado está agora organizadamente integrado e controlado por algumas empresas que se tornam gigantes do mercado.

Ainda, a compreensão da uberização como uma tendência refere-se ao potencial de generalização que ela traz. Aqui a noção de generalização expressa que características permanentemente associadas ao atraso, às margens, ao trabalho improdutivo, ao subdesenvolvimento agora ganham visibilidade na medida em que se normalizam e podem espraiar-se para além do viver de trabalhadores e trabalhadoras periféricos.

Referências

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Notas

  1. A investigação sobre as revendedoras foi sediada no Programa de Doutorado em Ciências Sociais, IFCH-Unicamp, entre 2007 e 2011, com financiamento do CNPq. Com base no estudo de trajetórias de vida, foram realizadas 25 entrevistas em profundidade com revendedoras de diferentes perfis socioeconómicos, em São Paulo. Foram feitas também entrevistas abertas com funcionários e ex-funcionários da empresa, acompanhamento das reuniões promovidas por ela com as revendedoras, visita à fábrica, além de visita à empresa e entrevista com uma consultora em Paris e com uma revendedora em Londres. A investigação resultou no livro Sem maquiagem: o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos (Abílio, 2014). A investigação com os motoboys tem três fases. A primeira foi sediada na Faculdade de Economia da USP, como parte de investigação de pós-doutorado financiada pela Fapesp entre 2012 e 2015. Nessa apliquei 50 questionários semiestruturados com motofretistas, realizei entrevistas em profundidade baseadas no estudo de trajetória de vida com cinco destes trabalhadores em São Paulo, além de entrevista aberta com fundadores da empresa Loggi. Em 2018 realizei duas entrevistas em profundidade com motofretistas, uma em São Paulo e outra em Campinas. Essas integram a atual investigação de pós-doutoramento sediada no Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) – Unicamp, financiada pela Capes; contei também com auxílio da Fundação Perseu Abramo como parte da investigação nacional sobre trabalho informal no Brasil por mim coordenada entre 2018 e 2019.
  2. Para uma abordagem teórica marxista sobre a subsunção do trabalho no toyotismo ver Paulani (2001). Para uma perspectiva que merece muita atenção nas análises da “passagem” do fordismo para o toyotismo, ver Dejours (1999): baseado em anos de investigação com trabalhadores em fábricas, hospitais, entre outros, o autor evidencia que a racionalidade taylorista também conta ativamente com a participação e o conhecimento do trabalhador. Trata-se da distância entre a organização prescrita e a organização real do trabalho, a qual conta permanentemente com o saber e o envolvimento do trabalhador. Entretanto, as novas formas de gestão incorporam na própria organização prescrita a utilização do saber e do conhecimento dos trabalhadores “colaboradores”. Esse é um debate que se desdobra em vários outros da subsunção do trabalho e atravessa a própria compreensão sobre a relação entre capital e trabalho na contemporaneidade.
  3. Recentemente, a empresa apresentou este ano o plano ambicioso de realizar qualquer entrega em qualquer local do país em um dia (Uol, 2019). Como descreve outra reportagem, a “estratégia de expansão agressiva da empresa” inclui “explorar desde o transporte a pé até entregas feitas por barcos”. Loggi fazer entrega em qualquer lugar (Revista ÉpocaeNegócios, 2019).
  4. O nome do entrevistado foi trocado para preservação da sua identidade.
  5. Ver Abílio (2018) e também as seções “O flex é feminino” e “O sistema de vendas diretas e a exploração do trabalho tipicamente feminino”em Abílio (2014).

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