“The future is female”: vozes de um amanhã

Fotografia: Observador

As histórias contadas são as de mulheres famosas. Mulheres “comuns” resistem e reexistem.

Viviane Vidigal

Fonte: Direito do Trabalho Crítico
Data original da publicação: 16/03/2022

Antes de começar a ler este texto, proponho a você leitora que pense em três grandes mulheres. Quais os nomes te passaram pela cabeça? Anote-os.

Passado.

Presente.

Futuro.

Uma ordem de um tempo que parece contínuo.

Desloco-te agora para um outro lugar e tempo, em um vai e vem, abrindo o arquivo ubíquo da História. A História que como nos conta a francesa Michelle Perrot1, “por muito tempo, “esqueceu” as mulheres, como se, por serem destinadas à obscuridade da reprodução, inenarrável, elas estivessem fora do tempo, ou ao menos fora do acontecimento”.

Em um movimento preciso, vamos do tempo linear ao tempo social. A forma de desenvolvimento capitalista produziu historicamente uma vida cotidiana em que o tempo social que conta, ou seja, o tempo de trabalho que tem valor, é aquele empregado na produção de mercadoria, gerador de mais-valia. O trabalho produtivo das mulheres ainda se manifesta como um prolongamento de atividades do trabalho reprodutivo, sendo subjugado sob a perspectiva da proteção jurídica laboral e do binômio tempo-valor2.

Já nos alertava Kergoat e Hirata que “sempre que se tenta fazer um balanço da divisão sexual do trabalho3 em nossas sociedades, chega-se à mesma constatação em forma de paradoxo: nessa matéria, tudo muda, mas nada muda”4. Ainda com as mudanças na configuração da classe trabalhadora – impulsionadas pelas transformações tecnológicas e das formas de organização dos processos de trabalho- alguns aspectos do trabalho das mulheres permanecem idênticos ao longo do tempo, como as diferenças salariais, a significativa concentração em setores e ocupações com estereótipos de gênero, a inserção em formas de trabalho mais precárias e flexíveis, e o grande volume de horas dedicadas ao trabalho de cuidados e afazeres domésticos, em adição às jornadas de trabalho fora de casa5.

O trabalho doméstico e de cuidados segue como uma atribuição eminentemente feminina. Há uma construção social que produz e reproduz, a partir de valores ou dispositivos de poder a associação entre mulheres e cuidado, ao mesmo tempo que desassocia dos homens estas mesmas habilidades e há, outrossim, a construção de que mulheres negras ou racializadas são “naturalmente” propensas aos trabalhos mais subalternos e precários. A relevância do trabalho doméstico e de cuidados exercidos de forma remunerada evidencia, no caso brasileiro, a intersecção das heranças escravocratas e da formação enquanto uma sociedade tradicionalmente patriarcal e racista6.

De repente, rompeu-se a ligação entre os tempos.

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Demos um salto à uma nova realidade virótica. Uma matéria da Folha de São Paulo7 intitulada “Crianças ganham mais tempo com as mães na quarentena”, de maio de 2020, é interessante para observarmos como o contexto atual está sendo documentado e retratado pelas narrativas dominantes.

Trata-se de um texto sobre home office, as mulheres e a privatização do cuidado.

Em algum momento, me identifiquei na reportagem, me desdobrando com a máquina de pipoca e algodão doce. Ao Nicholas, 06 anos, foi contado que lá fora existe um vírus do mal, mas “Os Vingadores” o estão caçando para exterminá-lo. Apelamos ao lúdico para proteger a criança do que se passa além do portão. Uma invenção para que meu filho não perceba a realidade e o horror. Seiscentos mil mortos caem lá fora.

Esse texto poderia ter sido escrito pelo meu filho: “Das maravilhas de ficar em casa”, pela perspectiva das crianças. Em outra perspectiva, mães nesse home office compulsório, com sérios riscos para o sustento de sua família estão trabalhando remotamente, sendo cobradas normalmente por produtividade e tendo que manter até uma jornada tripla, que pode ser realizada em poucos metros quadrados, sem privacidade, sem separação entre sua vida pública e sua vida privada. Com nossos algodões doces e nossa pipoca, a matéria não faz perguntas fundamentais sobre a situação das mulheres que trabalham.

Não é lindo e romântico e nem é amor que toda carga de cuidados com as crianças seja das mulheres. Toda essa romantização da quarentena como um sonho realizado para mães e crianças, é a realização do patriarcado: as mulheres confinadas de volta ao lar, ao seu lugar de origem, a domesticidade e a maternidade como a mais nobre, importante e mais que isso, única função que a mulher deve cumprir na sociedade8.

Confinadas, ainda procurando as chaves para abrir esta porta, provavelmente a maioria das mulheres gostaria de uma jornada menos exaustiva e um equilíbrio saudável entre a vida pessoal e o trabalho. Mas os homens, na maioria dos casos, não dividem as tarefas domésticas, as empresas, na maioria dos casos, não têm nenhum benefício ou programa que proporcione esse equilíbrio necessário.

Nessa equação, ainda existe a figura do meu vizinho que, como eu e meu filho, ama pipoca. Mas ele não faz em casa. Ele pede delivery. A entrega da pipoca é feita por uma mãe, como eu. Ao contrário de mim, ela não pode ficar em casa. Essa mãe não faz parte desta reportagem. Só é reportada em outra, como um número, uma em 600 mil.

Para fora do portão, pode-se ver que o abismo entre o trabalho de mulheres e homens e o trabalho de mulheres pobres e negras daquelas burguesas, durante a pandemia, se agrava e se intensifica. Segundo dados de pesquisa do primeiro trimestre de 2020, com indicadores da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para além do crescimento do desemprego, podemos observar um crescimento da precarização do trabalho, especialmente para os grupos que já eram historicamente vulneráveis.  Diante deste cenário, mulheres, a maioria negra, buscam inserção ao mercado, por bicos, “empreendedorismo de sobrevivência”, trabalhos nas plataformas, como alternativa ao desemprego9.

Portanto, enquanto parte da população pode trabalhar remotamente de sua casa, outra parte está exposta às condições mortíferas. O conceito de necropolítica10 destrincha sua conexão com o neoliberalismo oferecendo um potencial epistemológico para analisar os desdobramentos e as relações de poder e de morte envolvidas na pandemia de COVID-19. A necropolítica aparece justamente no fato de que o vírus não afeta a todos de maneira igual. Isto é, para Mbembe, embora, na teoria, o coronavírus possa matar qualquer um, dentro da lógica neoliberal há uma escala em como os riscos são distribuídos hoje; assim, as trabalhadoras plataformizadas despontam como aquelas em maior risco, desprotegidas e expostas a condições mortíferas. Comunica-se para as classes mais elevadas e populares, a ideia de que é melhor essas trabalhadoras continuem trabalhando e ganhando do que morrerem de fome. O argumento que privilegia o funcionamento da economia em detrimento das medidas de isolamento social ficou evidenciado e escancara a ideia de ter vidas matáveis e descartáveis11.

O Estado neoliberal necropolítico retira paulatinamente direitos das trabalhadoras, contribuindo para que sejam empurradas para as margens do sistema, tendo menos acesso a direitos fundamentais e passando a viver em condições cada vez mais precárias. Para as que trabalham e que não tem a possibilidade de trabalhar em casa, aquelas que precisam trabalhar nas ruas, o Estado brasileiro aniquila cada vez mais leis trabalhistas que poderiam lhes dar alguma garantia.

No Brasil, as margens do sistema não são inauguradas pela pandemia. Antes de ter um vírus circulando, circulava pelas ruas para catar papel Carolina, cujas palavras próprias ganharam publicidade em seus livros, mas não as livraram de ser retratada por narrativas miserabilistas nos jornais. Carolina, que é ao mesmo tempo de Clarice. Ao mesmo tempo, de outra classe e de outra raça, nos marcadores socais de diferença As autoras, hoje, tem suas histórias expostas em São Paulo, no IMS Paulista. Carolina ocupa o nono e oitavo andar, descendo as escadas para Clarice, sétimo e sexto andar. Entre os andares, um abismo, de onde emergem diferenças incontornáveis entre as duas intelectuais que foram contemporâneas. Inevitável a comparação entre as “realidades”. Da constelação de pessoas de Clarice Lispector ao seu exílio nos Estados Unidos, acompanhando seu marido diplomata, passando em linhas marginais para o exílio cotidiano de Carolina de Jesus, o da exclusão social.

Há um retrato delas juntas. Dessa fotografia que capta e eterniza um momento no tempo, a pergunta; falaram juntas, Clarice e Carolina? A sororidade e solidariedade feminina encontram óbice na questão sócio racial para transpor os obstáculos de gênero impostos pela sociedade. Como nos lembra Maria Juno Pena12 as feministas burguesas não ultrapassavam a barreira de classe.

Não falaram. Falou Carolina, Falou Clarice. Foram ouvidas? Como Michelle Perrot perguntou: “Vocês nos ouvem”? O silêncio das marginalizadas não é por falta de fala, mas por falta de ouvintes. Mailô Andrade interpelada pelo deslocamento analítico proposto por Camille Barara a partir da provocação da antropóloga Paula Lacerda, questiona: “como pode o não subalterno, o privilegiado, escutar?”13.

A necessidade de escuta é uma realidade e necessidade, “mas é necessário aprender a escutar, sobretudo por parte de quem sempre foi autorizado a falar”14, toca em ponto essencial Djamila Ribeiro ao dialogar com Grada Kilomba. De acordo com as autoras, há uma dificuldade da maioria branca masculina em ouvir, por conta do incômodo que as vozes silenciadas trazem, do confronto que é gerado quando se rompe com a voz hegemônica15.

Neste sentido, os indivíduos masculinos brancos já nascem pertencentes a um grupo que se pensa historicamente como humanidade universal e isso é passado de geração em geração através de processos de socialização. Ribeiro aponta que “ao persistirem na ideia de que são universais e falam por todos, insistem em falar pelos outros, quando, na verdade, estão falando de si ao se julgarem universais”16.

No Pacto da narcísico da branquitude, o sujeito universal é representado na figura de Narciso, que acaba por eleger um discurso autorizado de saber. O termo foi cunhado, a partir da figura mítica de Narciso- o jovem caçador grego, apaixonado pela representação da própria imagem, que olha para si como único objeto de amor. Narciso consegue olhar apenas para seu reflexo e tudo diferente a ele sequer é notado. O som pelo qual se apaixona é o som de Eco, ninfa condenada a repetir apenas as últimas palavras que ouve. Dessa forma, Narciso se apaixonou pela sua própria fala. A partir do mito, trazemos Narciso para pensar a branquitude e refletimos sobre a dificuldade de escutar algum discurso que não seja de Eco, que apenas reproduz o discurso do próprio Narciso17.

Nas articulações patriarcais, machistas e misóginas que nos organizam, a mulher para se destacar no mercado de trabalho precisa ser extraordinária em relação ao homem médio. As mulheres trabalhadoras são postas às margens, na invisibilidade, nas sombras e no ostracismo, para que seu trabalho e suas falas sejam apropriadas e divulgadas por aqueles com capital simbólico, para que, enfim, o pacto narcísico masculino possa aplaudir seus semelhantes. O “Pacto narcísico da branquitude” trata-se, portanto, de um acordo silencioso entre pessoas que se contratam, se premiam, se aplaudem, se protegem18.

No dicionário patriarcal é ensinado o vocabulário da boa menina: obedecer, aceitar, servir, cuidar, conformar-se, submeter-se e calar-se. Às que não se calam, são imputadas imagens de controle19, que servem para aprisionar em lugares reais ou simbólicos, sendo colocadas como loucas, histéricas e raivosas. As imagens são utilizadas para justificar a posição de cada sujeito na estrutura de poder, no caso das mulheres, naquele lugar da margem e da servidão.  

Aos gritos de socorro, somos violentadas. Objetificam nossos corpos e nos esvaziam de subjetividades como tática, desde a passagem do feudalismo para o capitalismo, lá atrás, na primeira acumulação primitiva20. Gritos, que passam a sussurros. Ora queimadas, ora amordaçadas, somos caladas.

Silêncio.

Quando nos matam há um lapso no tempo. Entre o momento em que a violência acontece e o momento em que se começa a falar dela, há uma pausa. Um momento de mudez.

Nesses momentos de pausa, chega‐se a duvidar, o que será́: o passado ou o futuro?

É presente.

É presente!

Marielle, presente!

As histórias contadas são as de mulheres famosas: aquelas vítimas de crimes e desastres, as esposas de um alguém e as extraordinariamente geniais. Quanto a mim e a você, mulheres “comuns”, resistimos e reexistimos, deslizando silenciosamente do controle de uma perspectiva masculina da história para dominar a narrativa da história oficial, irrompendo as barreiras do teto de vidro21, ocupando espaços em lócus privilegiados e de poder, mudando os horizontes sonoros e diminuindo as zonas mudas da memória.

Para nós, estou a tomar nota do futuro… “The future is female”.

Ps. Em qual mulher que não é sua mãe/avó, vítima de crime, casada com alguém famoso, extraordinariamente genial, você pensou?

Viviane Vidigal é Professora e Pesquisadora. Doutoranda e mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), pós graduada em Direito do Trabalho, pós graduada em Direito Penal. Integrante do grupo Grupo de Pesquisa Mundo do Trabalho e suas Metamorfoses (GPMT), coordenado pelo professor Ricardo Antunes.

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