Relatório da Oxfam revela relação umbilical entre desigualdade e crise da democracia

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Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Bilionários possuem a mesma riqueza que a metade mais pobre da população mundial.

Raul Galhardi

Fonte: JOTA
Data original da publicação: 26/01/2026

“A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece.”

Antonio Gramsci

 

Pela primeira vez na história, o número de bilionários no mundo ultrapassa 3.000 pessoas, formando uma casta global que detém poder maior do que o de Estados nacionais. Em 2025, a riqueza coletiva dos bilionários cresceu US$ 2,5 trilhões, alcançando US$ 18,3 trilhões, o maior valor já registrado.

Esse crescimento foi três vezes mais rápido do que a média dos últimos cinco anos e, enquanto isso, quase metade da população mundial vive na pobreza e 1 em cada 4 pessoas no mundo não tem acesso regular a comida suficiente.

Esses dados fazem parte do relatório “Resistindo ao Domínio dos Ricos: Defendendo a Liberdade Contra o Poder dos Bilionários“, lançado pela Oxfam, rede global composta por 22 organizações e com atuação em 77 países, durante o Fórum Econômico Mundial de Davos deste ano.

O estudo evidencia como a acumulação de fortunas privadas caminha de mãos dadas com o desmonte das estruturas democráticas ao redor do planeta e expõe com clareza como o crescimento recorde da riqueza dos bilionários amplia seu poder político e econômico, influenciando decisões públicas e aprofundando desigualdades sociais.

O documento traz à tona uma verdade incômoda que as elites globais preferem não discutir: a desigualdade econômica inevitavelmente se transforma em desigualdade política. Segundo o relatório, o aumento da desigualdade é um dos principais indicadores do início do colapso das democracias.

Um dos estudos que integra a publicação da Oxfam (“Income inequality and the erosion of democracy in the twenty-first century”) analisou 23 episódios de “erosão democrática” em 22 países, incluindo o enfraquecimento dos freios e contrapesos, como o Judiciário e o Legislativo; a restrição das liberdades civis; a manipulação das eleições; e a normalização de práticas autoritárias, como a concentração de poder nas mãos de um líder político. A conclusão é que países altamente desiguais apresentam sete vezes mais risco de retrocessos democráticos do que os países mais igualitários.

Esse padrão não é coincidência. O estudo afirma que bilionários têm 4.000 vezes mais probabilidade de ocupar cargos políticos do que cidadãos comuns, demonstrando como a plutocracia substitui a democracia quando a concentração de riqueza atinge níveis extremos. Desde 2020, a riqueza dos bilionários aumentou 81%, o equivalente a aproximadamente oito vezes o PIB de um país como a Itália e um montante quase equivalente à riqueza total detida pela metade mais pobre da humanidade de 4,1 bilhões de pessoas. Uma riqueza que seria suficiente para acabar com a pobreza extrema no mundo 26 vezes, segundo a organização.

O mundo atravessa uma crise do capitalismo, como já discutido em artigos anteriores, marcada não só pelo aprofundamento da desigualdade social, mas pela intensificação da exploração do trabalho e sua precarização generalizada, pela devastação ambiental e pela pseudopolarização eleitoral entre “progressistas” e “fascistas”, embora ambos atuem apenas como meros gestores da ordem capitalista. Esta não é uma crise passageira ou de má gestão, mas faz parte da própria essência do capitalismo, que depende da permanência da pobreza, da fome e da guerra para manter a sua existência.

Para compreender esse fenômeno em sua totalidade, o jornalista e historiador Fabian Scheidler criou o conceito de “megamáquina” em sua obra The End of the Megamachine: A Brief History of a Failing Civilization (“O fim da megamáquina: uma breve história de uma civilização em colapso”, traduzido livremente). Ela é uma metáfora para o capitalismo, sistema que integra poder econômico, político, militar e ideológico em uma engrenagem global de dominação, exploração e destruição por parte do Ocidente surgido há cerca de 500 anos e que hoje se manifesta na sua versão neoliberal.

Scheidler identifica três pilares fundamentais dessa estrutura: a acumulação infinita de capital, que implica em um ciclo interminável de lucros e reinvestimento; o Estado moderno, que não é uma entidade separada da economia, evoluindo junto à acumulação de capital; e o poder ideológico, essencial para legitimar um sistema baseado na exploração e violência. Segundo o historiador, estamos testemunhando a destruição de um planeta que levou bilhões de anos para se formar por uma máquina econômica global que produz enormes quantidades de bens e lixo enquanto concentra riqueza exorbitante em poucos e promove o empobrecimento maciço.

Além disso, à medida que a capacidade da Megamáquina de oferecer perspectivas futuras às pessoas diminui, também diminui a fé em seu mito que sustenta a sociedade ocidental. A coesão ideológica do sistema – o que o filósofo marxista italiano Antonio Gramsci chamou de “hegemonia cultural” – está se desintegrando de forma cada vez mais visível.

No caso brasileiro, a situação é particularmente grave. O Brasil permanece como o epicentro da concentração de renda na América Latina e no Caribe, reunindo o maior número de bilionários da região. Esse cenário se insere em um sistema tributário nacional historicamente regressivo, no qual a carga de impostos recai principalmente sobre o consumo e os trabalhadores, penalizando proporcionalmente mais mulheres, negros e famílias de baixa renda.

Diante desse quadro alarmante, é possível reverter essa trajetória rumo ao abismo? O relatório da Oxfam aponta que a desigualdade econômica não é inevitável, mas resulta de escolhas políticas. Por isso, o documento apresenta propostas concretas para reduzir o poder excessivo dos super-ricos, fortalecer a democracia e garantir direitos para a maioria da população.

Entre as soluções propostas está a implementação pelos países de Planos Nacionais de Redução da Desigualdade (PNRDs), realistas e com prazos definidos, que incluam: a redistribuição da riqueza extrema por meio da tributação dos super-ricos; a limitação do poder das empresas e o fim dos monopólios; o cancelamento da dívida insustentável dos países do Sul Global e a reelaboração do sistema de dívidas; o aumento dos salários e a defesa dos direitos trabalhistas; e o fornecimento de serviços públicos gratuitos e de alta qualidade com proteção social universal.

A organização propõe ainda a criação de um Painel Internacional sobre Desigualdade, nos moldes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), criado para monitorar as mudanças climáticas, capaz de avaliar com rigor científico o impacto das políticas públicas sobre as disparidades. Defende também uma tributação mais equitativa em nível global e a introdução de um padrão internacional para tributar a riqueza extrema.

O que falta, portanto, não é conhecimento técnico sobre como reduzir a desigualdade, mas vontade política para enfrentar os interesses das elites globais que se beneficiam do status quo. Como advertiu Gramsci, vivemos esse interregno mórbido onde o velho ainda não morreu completamente e o novo ainda não conseguiu nascer. Porém, ao contrário do que a minoria de ricos gostaria de fazer crer, o futuro não está escrito e será resultado das lutas sociais e das escolhas políticas feitas no presente.

 

Raul Galhardi é jornalista, mestre em Produção Jornalística e Mercado pela ESPM-SP


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