Pessoas com deficiência buscam vagas mais qualificadas no mercado de trabalho

Vanilda Iafelix tem 49 anos e estuda direito. Assim como muitos brasileiros, Vanilda está em busca de uma oportunidade de emprego na sua área. Os obstáculos contra ela no mercado de trabalho, no entanto, são grandes, já que a universitária tem uma deficiência física: falta de mobilidade em todo o lado direito do corpo.

A baixa disponibilidade de postos de trabalho qualificados para pessoas com deficiência foi discutida no Dia D da Inclusão Profissional de Pessoas com Deficiência e Reabilitados do INSS no Mercado de Trabalho, no campus Memorial da Uninove, na capital paulista. O encontro faz parte do Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência. Durante o evento, 45 empresas e instituições ofereceram oportunidades de trabalho.

O Hospital Sírio Libanês ofereceu 30 vagas para auxiliares administrativos, pagando um salário mínimo. “Já trabalhei por 8 anos pela Lei de Cotas, mas agora gostaria de trabalhar na área administrativa ou jurídica, relativa ao curso que eu estou fazendo”, disse Vanilda, ao preecher o formulário para se candidatar a uma das vagas. A lei determina que empresas com 100 ou mais funcionários são obrigadas a contratar um percentual que varia de 2% a 5% de pessoas com deficiência.

Para o vice-presidente Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, Carlos Aparício Clemente, que coordena o Espaço da Cidadania do evento, se a Lei de Cotas fosse cumprida hoje, seriam ofertadas, em todo o país, o equivalente a 1,1 milhão de vagas. Existem, atualmente, 2,8 milhões de deficientes com ensino superior no Brasil. “Mas não temos 50 mil dessas pessoas com formação superior trabalhando [formalmente e pela Lei de Cotas]. Quanto mais escolaridade, mais difícil ocupar uma vaga no mercado”, avalia.

Clemente fez um estudo para mapear a qualidade das vagas oferecidas aos deficientes. “As vagas oferecidas [neste evento] para as pessoas com deficiência são aquelas rejeitadas [por outros profissionais], com a remuneração muito baixa e que não respeitam a escolaridade das pessoas”, disse ele.

De acordo com Amanda Souza Barbosa, analista de Recursos Humanos, da área de inclusão de pessoas com deficiências no Grupo Pão de Açúcar, a maioria das vagas para esse público é operacional. “Mas nada impede que o profissional seja direcionado a outras vagas: dependendo do perfil, pode ir a vagas administrativas, de gerência”, disse.

As vagas mais qualificadas, no Grupo Pão de Açúcar, exigem ensino superior e conhecimento em informática. Está prevista a contratação de 300 profissionais com deficiência até o final do ano. Adenilson Avelino Sirino Silva, de 29 anos, é um desses candidatos. Ele é deficiente visual e tem experiência como repositor de mercadorias. “A Lei de Cotas me ajudou muito, facilita a vida da gente”, disse.

Preconceito

O auditor fiscal do Ministério do Trabalho José Carlos do Carmo, que também coordena o projeto de pessoa com deficiência no estado de São Paulo, disse que o grande obstáculo para o cumprimento da Lei de Cotas ainda é o preconceito, que aumenta pela falta de conhecimento sobre o assunto por parte dos empregadores. “Existem muitos discursos, muitas justificativas e muitas desculpas, algumas repetidas à exaustão, que passam a ser consideradas verdades absolutas”, declarou.

Muitas empresas propagam a ideia de que o recebimento de um benefício, no valor de um salário mínimo, pago a pessoas com deficiência sem capacidade de se sustentar ou ser sustentadas, deixaria seus beneficiários acomodados. “No fundo, são poucas as pessoas que recebem esse beneficio e não justificaria, portanto, deixar de cumprir a cota, sob alegada suposição de que essas pessoas preferiram receber o beneficio a serem empregadas”, disse o auditor.

Para dar uma resposta à fiscalização do Ministério do Trabalho, há empresas que admitem pessoas com deficiência e as demitem logo em seguida. Segundo José Carlos, a estratégia vem se acentuando nos últimos anos, com base no grande número de contratações e de demissões de deficientes verificadas pelo ministério. “Obviamente, não deixaremos isso passar em brancas nuvens. O ministério está preocupado e, inclusive, estabeleceu como uma das metas da fiscalização a verificação desta irregularidade”, acrescentou.

Empresas que não respeitam a Lei de Cotas são multadas em valores que podem chegar a R$ 180 mil. “É muito importante que as empresas entendam que vivemos num mundo em que a diversidade não deve ser apenas aceita, mas entendida como característica muito positiva. A empresa que não perceber isso perderá o bonde da história. Ela deixará de contratar pessoas extremamente eficientes, perderá grandes talentos”, disse o auditor.

Fonte: Agência Brasil
Texto: Fernanda Cruz
Data original da publicação: 21/09/2015

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *