O trabalho em Hollywood

Fotografia: Pedro Marroquin/Unsplash

Isadora Campregher Paiva

Poucas indústrias recebem tanta atenção quanto o cinema, particularmente quando se trata de Hollywood. De um lado, revistas de entretenimento e sites de fofoca vendem a ideia dos ricos e famosos que fazem parte da indústria. De outro, estudos acadêmicos e críticas tendem a focar nos filmes em si, analisando aspectos narrativos e estéticos. Mas apesar de toda esta atenção, pouco se fala sobre o trabalho real envolvido na produção desta mercadoria que é o filme.

Isso não é nenhuma novidade. A invisibilização do trabalho embutido em uma mercadoria é uma característica fundamental do capitalismo, diria o velho Marx. De fato, pode-se dizer até que o cinema é uma indústria particularmente reconhecedora do trabalho envolvido para realizar os seus produtos. Que outra mercadoria inclui uma lista de (quase) todas as pessoas que trabalharam na sua produção, como os créditos em um filme fazem? Que outra indústria cria uma série de prêmios reconhecendo os trabalhadores de diferentes áreas da produção, da qual o Oscar é apenas um de muitos? Mas a história do reconhecimento do trabalho no cinema é repleta de vais e vens, ganhos e perdas de visibilidade, e ao que tudo indica estamos passando por um fase de crescente invisibilização.

Na infância da sétima arte, do final do século XIX à primeira década do XX, a grande maioria dos filmes não creditava ninguém além da companhia que o havia produzido. As produtoras se recusavam a nomear até mesmo os atores principais, com medo de que o reconhecimento aumentaria seu poder de barganha e eles cobrariam maiores salários. Isso foi mudando à medida que ficou claro que o público estava disposto a ir atrás dos filmes que contavam com seus atores favoritos, criando apelidos para designá-los – era o caso da atriz Florence Lawrence, chamada pelo público de “Garota da Biograph”, sendo Biograph o nome da companhia para quem trabalhava. As produtoras foram se dando conta de que o aumento nos salários era mais do que recompensado pelos ganhos na bilheteria que os atros traziam. Na década de 1910, os grandes atores passaram a ter seus nomes e rostos como o centro das campanhas de publicidade de cada filme. Parte desse ecossistema eram as novas revistas voltadas para os fãs do cinema, como PhotoplayPicturegoer, ambas fundadas em 1911. Essa mudança significou que as imagens dos astros – e uma versão confeccionada de suas vidas – viraram mercadorias também fora das telas. Os ganhos pecuniários e de reconhecimento vinham acompanhados por uma perda de liberdade e até humanidade para estes que passaram a ser vistos como criaturas sobrenaturais.

Nos anos subsequentes, os créditos iniciais tornaram-se de praxe, embora abarcassem somente a nata entre os trabalhadores “criativos” de um filme: atores, diretores, roteiristas, quiçá um(a) diretor(a) de arte ou figurinista. Posições consideradas “técnicas” não apareciam nesses créditos. Isso acontecia por vários motivos. Como os créditos nessa época apareciam antes do filme em si começar, eles não podiam ser longos demais, ou a plateia ficaria inquieta. Filme também era caro, e adicionar metragem para reconhecer o trabalho de técnicos era um “excesso” desnecessário. Além disso, nesse período os trabalhadores tinham contratos perenes com os estúdios, ao invés de serem contratados filme por filme. Um marceneiro ou eletricista que trabalhava em várias produções por ano não era visto como merecedor de um crédito em cada um deles.

Nos anos 1950, um novo modelo de organização do trabalho se estabeleceu como dominante em Hollywood, que viria a alterar a creditação. As grandes companhias, como MGM e Paramount, passavam por um momento de crise desencadeada por uma decisão da suprema corte de 1948 que obrigou a venda dos seus cinemas, acabando com o modelo clássico de integração vertical da indústria. Ao mesmo tempo, a competição da televisão e de outras atividades de lazer tirava o cinema da sua posição privilegiada como a principal recreação das massas. Frente a esses problemas, as grandes produtoras de Hollywood se desfizeram de seus custos fixos: trabalhadores contratados, grandes estúdios para filmagens, equipamentos, etc. No lugar das produções em escala, o principal modo de organização da produção passou a ser um sistema no qual a mão-de-obra e os meios de produção são contratados filme a filme, com grande parte dos custos sendo pagos por diária (equipamentos) e hora (trabalhadores técnicos).

Hollywood foi, então, uma das primeiras indústrias a flexibilizar e pejotizar sua força de trabalho. Para os grandes nomes, a mudança foi positiva, aumentando sua liberdade para escolher – e até desenvolver – seus próprios projetos. Para a massa dos trabalhadores, significou o fim da segurança de emprego, forçados a estar em uma busca constante pelo próximo filme. Esse novo modelo alterou também as práticas de creditação dos trabalhores técnicos, que passaram a ser nomeados com mais frequência. Sem contratos de longo prazo com estúdios, a creditação passa a ser fundamental para que os trabalhadores técnicos possam ter seu trabalho reconhecido e conseguir novos projetos. É como um prêmio de consolação: reconhecimento artístico em troca da segurança empregatícia.

Hollywood sempre soube usar este tipo de barganha para melhor explorar sua mão de obra. A própria Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que confere o cobiçado Oscar, foi admitidamente criada em 1927 para desencorajar a sindicalização dos atores no setor. Em Lion of Hollywood: The Life and Legend of Louis B. Mayer, Scott Eyman cita o chefe do estúdio MGM, Louis B. Mayer, que teria dito:

Descobri que a melhor maneira de lidar com [artistas de cinema] era os cobrir de medalhas. […] Se eu conseguisse taças e prêmios pra eles, eles se matariam para produzir o que eu quisesse. Foi por isso que o Oscar foi criado.” (p. 177).

A estratégia de Mayer funcionou por certo tempo, porém a indústria cinematográfica de Los Angeles se sindicalizou completamente na década de 1930, fruto dos efeitos da Grande Depressão e da política pró-trabalhista de Franklin Delano Roosevelt. A mão-de-obra de Hollywood ainda é uma das mais sindicalizadas do mundo, contando com fortes sindicatos que impedem que trabalhadores não sindicalizados trabalhem em produções profissionais. Os sindicatos estabelecem salários mínimos por hora, fornecem seguro saúde, estabelecem regras para a concessão de créditos e condições mínimas de trabalho.

O grau de sindicalização de Hollywood significa que seus trabalhadores estavam em uma posição relativamente privilegiada se comparados aos de outras indústrias que seriam pejotizadas subsequentemente. Ainda assim, essa posição privilegiada tem se deteriorado nas últimas décadas. Ainda que Hollywood continue sendo o centro da indústria cinematográfica americana quando se trata das decisões sobre o financiamento e marketing dos filmes, a produção em si tem se tornado cada vez mais global. Desde os anos 1990, uma série de centros de produção satélite se desenvolveram por conta da busca de companhias americanas por custos mais baixos, seja por conta de equipes não-sindicalizadas, taxas de câmbio favoráveis ou incentivos fiscais. Hoje, a maioria dos filmes financiados por Hollywood são filmados fora da região, como a Georgia nos EUA, o Reino Unido e o Canadá se estabelecendo como grandes centros de produção.

A competição internacional é particularmente ferrenha na área de efeitos visuais, pois é relativamente fácil contratar mão-de-obra de outro país para um trabalho feito separadamente das filmagens. Artistas de efeitos visuais nos EUA também sofrem por pertencerem ao único grande setor de produção cinematográfica sem sindicato, fruto da área já ter nascido em um ambiente institucional neoliberal e globalizado. O documentário Life After Pi (2014) conta a história da empresa de efeitos visuais Rhythm & Hues, que ganhou o Oscar por seu trabalho inovador em As Aventuras de Pi (2012) duas semanas após declarar falência, por conta da sua incapacidade em competir com os preços de empresas internacionais.

Mesmo para os trabalhadores sindicalizados, esta competição globalizada diminui seu poder de barganha e coloca trabalhadores em diferentes países uns contra os outros, encorajando um nivelamento por baixo em termos de salários, benefícios e segurança no trabalho. O documentário Who Needs Sleep? (2006) é uma denúncia sobre as perigosas condições de trabalho em Hollywood, onde jornadas de 14 a 18 horas são de praxe, e acidentes de carro em que membros da equipe dormem no volante no caminho para casa acontecem com assustadora regularidade.

Pode parecer um tanto absurdo se solidarizar com os trabalhadores de uma indústria tão rica e glamourosa, porém este glamour é utilizado cirurgicamente pela própria indústria para explorar seus trabalhadores mais vulneráveis. O fato do sonho de todo artista de efeitos especiais ser trabalhar em uma grande produção Hollywoodiana torna fácil exigir horas extras não recompensadas, ainda mais com a ameaça constante de desviar a produção para o exterior. Os salários de uns poucos atores famosos são a exceção que chama atenção, mas que não reflete a realidade da maioria dos trabalhadores da área. E até mesmo o prêmio de consolação do reconhecimento nos créditos parece estar indo embora. Em sites de streaming, os créditos iniciais são puláveis e os finais são automaticamente cortados em favor de botões que nos instigam a clicar no próximo programa. Como audiência, somos cada vez mais convidados a ignorar o trabalho embutido nas séries e filmes que vemos.

Isadora Campregher Paiva é mestra em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (URFGS) e professora e pesquisadora na área de Estudos do Cinema na Goethe Universität Frankfurt, na Alemanha.

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