Keynes ‘is back’

Imagem da capa de The Price of Peace: Money, Democracy and the Life of John Maynard Keynes. Imagem: Amazon

Sua volta foi observada, mais uma vez, pela adoção, por parte dos policymakers, de políticas econômicas contracíclicas, predominantemente fiscal e monetária, que visou mitigar os impactos econômicos advindos da crise sanitária global.

Fernando Ferrari Filho

Fonte: Sul21
Data original da publicação: 29/07/2021

No ano passado, foi publicado um excelente livro sobre John Maynard Keynes. Intitulado The Price of Peace: Money, Democracy and the Life of John Maynard Keynes (New York, Random House). O autor, Zachary Carter, enfatiza o quanto paradoxal/contraditório Keynes era: “um burocrata que [contestou veementemente os princípios morais do período Vitoriano … ], um leal servidor do Reino Unido que criticou o imperialismo britânico, um pacifista que ajudou a financiar as duas guerras mundiais, um internacionalista que contribui, intelectualmente, para a arquitetura do Estado-Nação [e das ideais social-democratas e de Bem-Estar Social]” (CARTER, 2020: XX, tradução nossa). Carter mostra – conforme Keynes argumentou –, como o maior problema da economia capitalista, o “love of money as a possession” (KEYNES, J.M. 1972, Essays in Persuasion. London, Macmillan), acaba ocasionando crises de insuficiência de demanda e desigualdade da renda, cujas consequências são as instabilidades políticas e sociais. Diga-se de passagem, para solucionar o referido problema do “amor pelo dinheiro”, Keynes propunha a redução da taxa de juros, seja para eliminar a escassez do capital, seja, principalmente, para resultar na “euthanasia of the rentier” (KEYNES, J.M. 2007. The General Theory of employment, Interest and Money. London, Palgrave Macmillan). 

Faço referência ao livro de Carter para mencionar que no atual contexto de crise econômica causada pela pandemia do COVID-19, Keynes “está de volta”. Sua volta, assim como tinha ocorrido na crise financeira internacional, 2007-2008, e, por conseguinte, na grande recessão, 2009, foi observada, mais uma vez, pela adoção, por parte dos policymakers, de políticas econômicas contracíclicas, predominantemente fiscal e monetária, que visou mitigar os impactos econômicos advindos da crise sanitária global. Nesse particular, cabe ressaltar que, se não fossem as referidas políticas, o PIB mundial em 2020 teria apresentado uma queda maior do que os 3,5% calculados pelo World Bank.

O que são e qual é a função básica das políticas fiscal e monetária keynesianas?

A política fiscal tem impacto direto sobre a demanda agregada – mais especificamente sobre o consumo e o investimento – e constitui o principal instrumento de intervenção econômica do Estado na economia. Ela está ancorada tanto na política tributária quanto nos gastos públicos. Para Keynes, a política fiscal deve: (i) ser centrada nos investimentos públicos, quando necessários, desde que eles sejam complementares aos investimentos privados; (ii) ser, preferencialmente, relacionada às  inversões sociais; e (iii) ser um estabilizador automático que vise evitar oscilações de demanda efetiva e assegurar a estabilidade dos investimentos de longo prazo.

Por sua vez, a política monetária deve ser conduzida por meio da gestão da taxa básica de juros da economia, cujo objetivo principal é promover o crescimento econômico. Conforme Keynes, ela possui quatro objetivos adicionais: (i) manter a inflação sob controle, pois a variação dos preços afeta as expectativas dos agentes econômicos e, em um contexto de desvalorização monetária da riqueza, estimula a preferência pela liquidez; (ii) estabilizar o sistema financeiro; (iii)  supervisionar e controlar a liquidez do sistema econômico. Isso significa que a política monetária deve evitar tanto a escassez quanto o excesso de liquidez. Além disso, ao controlar a liquidez, os bancos centrais atuam como prestamistas de última instância, evitando a falência de instituições financeiras e seus riscos de contágio financeiro; e (iv) estabilizar a taxa de câmbio, pois seus movimentos têm uma grande influência não apenas nas expectativas, mas também nas posições financeiras e operacionais das empresas.

As políticas fiscal e monetária keynesianas têm uma função básica: criar um ambiente institucional favorável às tomadas de decisão de gastos dos agentes econômicos – famílias que consumem, empresários que investem e bancos que emprestam – em um contexto de incerteza radical.

Retornando aos paradoxos/às contradições de Keynes, se em 1923 ele escreveu que “[i]n the long run we are all dead” (KEYNES, J.M. 1971. A Tract on Monetary Reform. London: Macmillan), em 1942 reconsideraria sua famosa frase ao afirmar que “[i]n the long run almost anything is possible” (KEYNES, J.M. 2013. Activities 1940-1946: Shaping the Post-War World. Cambridge: Cambridge University Press) Pois bem, esperemos que os policymakers brasileiros entendam que a adoção intertemporal de políticas fiscal e monetária expansionistas no período pós-covid-19 é possível e fundamental para dinamizar a atividade econômica. Caso, contudo, Paulo Guedes e Roberto Campos Neto insistam na continuidade das austeridades fiscal e monetária da agenda econômica do “velho normal”, então, no “longo prazo estaremos mortos”. 

Fernando Ferrari Filho é professor Titular do DERI/UFRGS e Pesquisador do CNPq.

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