
por Felipe Prestes
Nem uma utopia em que as máquinas trabalham para os homens, nem uma distopia em que somos subjugados por grandes empresas por meio de algoritmos. Assim, o pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP e do Observatório do Futuro do Trabalho da PUC-SP, Atahualpa Blanchet projeta o mundo do trabalho com a introdução da inteligência artificial. “A gente não deve se deslumbrar com os sistemas de inteligência artificial, não deve achar que é a solução para tudo, porque eles cometem muitos erros, mas ao mesmo tempo, tampouco deve subestimar os impactos da utilização dessas ferramentas. A gente tem que saber andar nessa corda bamba, esse abismo que separa a distopia e a utopia”, diz.
Para evitar o cenário distópico, há um conceito fundamental: a centralidade humana. “Pensar na tecnologia voltada para geração de bem-estar, mas também a questão do controle humano da tecnologia, para que a gente tenha essa capacidade de poder instrumentalizar a tecnologia voltada para as finalidades que têm relação com escolhas políticas”, explica Blanchet.
Nesse sentido, já há uma série de iniciativas de entidades sindicais pelo mundo buscando ter mais controle dos processos de gestão feitos por algoritmos. As mudanças no mundo do trabalho e as reações da classe trabalhadora estão presentes no livro “Inteligência Artificial e o futuro do trabalho em transformação”, que Atahualpa lançou em 2025, pela Editora RTM Educacional.
Na obra, Atahualpa, que tem atuado em projetos sobre os impactos da IA em organismos internacionais como a UNESCO, OIT e Mercosul, também trata de como essa discussão ocorre nos organismos multilaterais. O livro traz, ainda, um diálogo com o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica sobre o tema. O pesquisador conversou com o DMT em Debate sobre todos esses temas, por telefone. Confira a íntegra da entrevista.
DMT – Como foi o processo de escrever o livro?
Atahualpa Blanchet – O livro é fruto de um processo de muitos anos de trabalho na área do mundo do trabalho, e, mais especificamente, nas agendas voltadas para o futuro do trabalho. Eu acompanho essa pauta desde o ano de 2014, quando a Organização Internacional do Trabalho (OIT) coloca a público uma agenda para debater os impactos das tecnologias no âmbito do mundo do trabalho. Em 2014, eu estava no Ministério do Trabalho, na assessoria internacional, acompanhando esse debate no âmbito da OIT, mas isso foi entrando também em outros espaços, como é o caso do G20, do BRICS e o próprio Mercosul também, onde fui trabalhar depois e continuei acompanhando esse tema. Até que, no ano de 2019, a gente fez um seminário, uma sessão em homenagem aos 100 anos da OIT, em que também foi aprovada uma declaração sobre o futuro do trabalho. No âmbito acadêmico, a gente também começou a buscar espaço de interlocução para tentar compreender as perspectivas e as prospecções com base nos impactos das novas tecnologias nos mais diferentes setores. Sobretudo, com base no conceito de automação, e os impactos que isso gera nos processos produtivos, mas, ao mesmo tempo, ainda buscando compreender o fenômeno do que estaria por vir, do que viria a ser a inteligência artificial e os impactos que isso geraria no mundo do trabalho. Então, o livro ele consolida justamente toda essa trajetória de mais de dez anos e vai encaminhando para os impactos atuais. Ou seja, para poder verificar, hoje, quais são as prospecções, quais são as previsões, as macrotendências da implementação do sistema de inteligência artificial no mundo e na nossa região, analisando diversas dimensões desses aspectos, não só desde o ponto de vista crítico, mas também pensando nas oportunidades que a tecnologia pode gerar, para que a gente possa, em certa medida, guiar um pouco essas tendências, e não só reagir às circunstâncias.
DMT – O senso comum tem pensado que na verdade o futuro do trabalho é um futuro sem trabalho. É isso mesmo ou tem trabalho nesse futuro? É um futuro com trabalho?
Atahualpa Blanchet – Lá nos idos de 2019, a Fundação Friedrich Ebert fazia uma inversão, falando do futuro do trabalho e também do trabalho do futuro, ou seja, partindo da premissa de que, sim, o ser humano vai buscar empregar o seu engenho, mesmo havendo outras ferramentas que automatizam determinados processos. Sempre que buscamos dialogar com esse desafio, se haverá ou não trabalho, e quais funções serão necessárias, ou quais não serão sequer desejáveis, que se pode simplesmente delegar para sistemas algorítmicos, isso perpassa pelo conceito de pós-automação. Primeiro, parte da ideia de não estamos negando a tecnologia. Não estamos partindo do conceito de ludismo, que é a negação da máquina, da tecnologia, como se aquilo fosse gerar um prejuízo, que vai substituir todos os humanos. A gente parte de não negar a tecnologia e tampouco aceitar de forma passiva uma perspectiva determinística de dizer: “Não, realmente não vai mais ter emprego, vamos ter que buscar políticas públicas para poder mitigar esses impactos”. Na verdade, se começamos a trabalhar desde a base do conceito de pós-automação, podemos aproveitar o que a tecnologia tem a nos oferecer, mas trabalhar em cima disso. Um dos princípios que vêm sendo reconhecidos no âmbito internacional, quando a gente fala de inteligência artificial responsável, é o princípio da centralidade humana, pensar na tecnologia voltada para geração de bem-estar, mas também a questão do controle humano da tecnologia, para que a gente tenha essa capacidade de poder instrumentalizar a tecnologia voltada para as finalidades que têm relação com escolhas políticas. Então, em certa medida, acredito que ainda temos uma margem para poder trabalhar em cima disso, e não só trabalhar na mitigação dos impactos no momento em que eles já estão em curso. Claro que vai gerar impactos, já está acontecendo. No Instituto de Estudos Avançados da USP a gente tem feito uma série de pesquisas para avaliar de que forma os diferentes tipos de sistemas algorítmicos vem impactando o mundo do trabalho, e também, claro, a reação da classe trabalhadora com base nesses impactos que não são só relacionados à questão do emprego, de quantos empregos haverá ou quantos deixarão de existir. Também estamos pensando em outras macrotendências que envolvem os impactos da inteligência artificial no mundo do trabalho.
DMT – Temos o controle dessas tecnologias por poucas empresas. Isso pode ser determinante para o que vai ser o futuro do trabalho ou mesmo de como já está sendo o presente?
Atahualpa Blanchet – Isso é a mais pura verdade. Nós estamos nas mãos de algumas empresas, chamadas big techs, que dominam a programação, o desenho algorítmico, bem como a implementação dessas ferramentas de inteligência artificial. E, ao mesmo tempo, a sociedade civil organizada, as instituições públicas, governos ou organismos internacionais, estão compreendendo o funcionamento desses sistemas e seus respectivos impactos de forma tardia. Isso é normal quando a gente fala de tecnologia. Nos anos 1980, um professor chamado David Collingridge fala sobre o dilema que depois se chamou de ‘Dilema de Collingridge’: enquanto estamos compreendendo os impactos da tecnologia, eles já estão em curso. E, muitas vezes, é difícil ter um ponto de retorno para poder lidar com esses impactos. Esse é o desafio regulatório que a gente tem hoje para a construção das legislações, como é o caso do Brasil, que debate um projeto de lei sobre o assunto. Por outro lado, nós temos já uma série de ações voltadas para mitigar esse predomínio das big techs. Isso começa pela própria questão de investimento em tecnologias. Nós temos agora, por exemplo, o AmazonIA por exemplo, que é uma ferramenta para mitigação de desmatamento, para poder mapear essas ações nos biomas do Brasil. Nós temos a Maritaca (empresa brasileira dedicada ao desenvolvimento de inteligências artificiais), que é uma outra ferramenta desenvolvida no Brasil. Isso vai em certa medida colocando contrapesos nessa questão hegemônica das big techs e há, ao mesmo tempo, a mobilização dos movimentos. Vou te dar um exemplo: uma grande central sindical dos Estados Unidos, a AFL-CIO, construiu um acordo com a Microsoft no sentido de que se possa garantir a participação de trabalhadores no desenho dos sistemas de gestão algorítmica e de automação de processos produtivos. Na prática, a gente vai ver como é que isso vai andar, mas estrategicamente é uma ação interessante. Eu fiz um estudo de caso, há muitos anos, inclusive, está no livro, sobre o caso dos jogadores de basquete da NBA. Eles conseguiram limitar o uso dos dados que são coletados por esses sistemas para fazer negociação salarial. E tem vários outros exemplos do mundo, em que a classe trabalhadora está se organizando. É um tema que está em cima das mesas de negociação coletiva e aí a importância da academia é fundamental, para poder compreender como os sistemas funcionam, trazer esse conhecimento, para que as assessorias das centrais sindicais, das diferentes categorias possam compreender esses impactos e buscar colocá-los em cima da mesa de negociação coletiva.
DMT – Em geral, esses sistemas não têm muita transparência ou não têm nenhuma transparência.
Atahualpa Blanchet – É, há opacidade ou falta de transparência na própria implementação. Muitas vezes os trabalhadores sequer sabem que tem uma ferramenta de IA lhes monitorando, isso já é um problema. Nós temos outros graus de opacidade na aplicação desses sistemas que passam pela programação algorítmica, ou seja, de que forma os critérios estatísticos que definem a classificação dos dados que são coletados por esses sistemas é feita. Existe uma questão de opacidade no treinamento dos sistemas de inteligência artificial, o que muitas vezes acaba gerando situações que nós chamamos de vieses, situações em que os sistemas acabam replicando estruturas, até mesmo de discriminação estruturais que estão no seio da nossa sociedade, como é o caso do machismo, do racismo. Na Holanda se estava aplicando um sistema de inteligência artificial para outorgar benefícios de seguridade social, e esse sistema estava discriminando pessoas migrantes. E nós temos também uma opacidade na questão da tomada de decisões desses sistemas. Por isso é que eu falei da centralidade humana, do controle humano, mas tem outro princípio, que é o princípio da transparência algorítmica, que a gente vem buscando aplicar nos mais diversos aspectos, inclusive nas mesas de negociação coletiva, que vem junto com um outro conceito, que é o conceito da explicabilidade, e que muitas vezes é materializado por meio de um outro conceito que é a auditabilidade. Existe uma lei em Nova Iorque, por exemplo, que reza o seguinte: se uma empresa quiser utilizar um sistema de inteligência artificial para fazer recrutamento de pessoas para uma oportunidade de trabalho, esse sistema tem que passar por um processo de auditoria uma vez ao ano para verificar se ele tem algum tipo de viés discriminatório.
DMT – Aqui no Brasil teve o caso do Itaú, do monitoramento que resultou em cerca de 1.000 demissões. Uma das macrotendências que tu apontas é um crescente monitoramento dos trabalhadores?
Atahualpa Blanchet – Sim, é uma das macrotendências. As três macrotendências que eu tenho tratado de classificar são as seguintes: a primeira, tem um termo em inglês que se usa, que é o displacement, o deslocamento de mão-de-obra gerado pelo processo de automação e intensificado pelos sistemas de inteligência artificial. A questão da automação e do displacement não é algo novo, é algo que acontece com base na própria Revolução Industrial, porém, esse processo se intensifica de forma exponencial em função da aplicação desses sistemas. A segunda macrotendência, que é essa que entra nesse nesse exemplo que você comenta do Itaú, é a questão da interação humano e algoritmo. Por um lado, a gente se vê cada vez mais cercado e ao mesmo tempo munido de instrumentos que estão programados com sistemas algorítmicos, que acabam interferindo até na forma como a gente trabalha, e aí entra a questão da requalificação, da necessidade que a gente tem de se adaptar, por meio da questão da formação continuada. A convenção dos bancários, inclusive, traz cláusulas voltadas para isso. No ano de 2024, foi celebrado a convenção e o acordo coletivos no Banco do Brasil, que traz cláusulas voltadas para requalificação, para poder trabalhar nessa interação humano-algoritmo. Mas também tem um outro lado da moeda, um outro conceito que eu tenho trabalhado bastante, que é a questão da subordinação algorítmica. Ou seja, cada vez mais, temos que jogar as regras do jogo de acordo com os sistemas que ditam as regras do dia a dia do nosso trabalho. E aí não entra só na distribuição de tarefas, entra até na questão de ranqueamento, da análise do desempenho de cada trabalhador, que no caso do Banco Itaú, por exemplo, foi aplicada uma ferramenta que monitora o número de cliques de pessoas que estão em teletrabalho. Será que o número de cliques é um critério para poder identificar se aquela pessoa está trabalhando ou não? Outra pergunta, no caso do Banco Itaú, será que essas pessoas sabiam que estavam sendo monitoradas com base no número de cliques? Qual é o critério algorítmico da ferramenta? Será que há outros critérios de monitoramento que estão sendo aplicados além da questão do número de cliques? E aí entra a terceira macro tendência, que é a questão da plataformização das relações de trabalho. As plataformas digitais são um grande laboratório de aplicação e implementação dessas ferramentas. A chamada gamificação, a questão da distribuição do trabalho, a questão do ranqueamento, da pontuação dos trabalhadores. Esses sistemas, na verdade, o que fazem é substituir e sofisticar os instrumentos de controle sobre a força de trabalho, criando também uma opacidade com relação à forma como se dá a questão da exploração da relação do capital sobre o trabalho.
DMT – Algo que vem sendo comentado são esses trabalhos de alimentar a inteligência artificial, que são muito mal pagos também. E as plataformas, em geral, também fazem uma exploração muito grande. Tem uma explicação de por que o trabalho digital é pior remunerado?
Atahualpa Blanchet – Tem um outro fenômeno que entra junto com a questão da informalidade, da precarização, que é a deslocalização das relações de trabalho. Hoje em dia, os dispositivos móveis permitem que as pessoas possam trabalhar em qualquer lugar que tiver conexão e um dispositivo para poder desenvolver aquela tarefa. E as grandes empresas têm se aproveitado dessa condição para poder buscar minimizar os seus custos explorando pessoas nas mais diversas latitudes. No caso dos sistemas de inteligência artificial, um estudo da Universidade de Oxford tem revelado que boa parte desses trabalhadores que alimentam os sistemas estão situados em países da África, na Índia e em Bangladesh, recebendo valores baixíssimos. Tem um caso também agora bastante recente, que é o fato de usar trabalhadores que estão nas Filipinas, que se conectam no Zoom para atender caixas de comércios em Nova York. Em certa medida, essas empresas têm percebido que é mais barato muitas vezes explorar ainda seres humanos utilizando a tecnologia como uma ferramenta para fazer isso, do que simplesmente automatizar o sistema e delegar para máquinas, seja no âmbito da robótica, ou mesmo na aplicação de sistemas de inteligência artificial. O que a gente vem observando é a aplicação da tecnologia como um instrumento para viabilizar a redução de custo e aumento de lucro para as empresas se baseando na informalidade, na precarização, no desemprego e na deslocalização das relações de trabalho. É uma sofisticação das práticas do bom e velho capitalismo.
DMT – Uma discussão que tu fazes também é que tem uma apropriação do trabalho intelectual humano.
Atahualpa Blanchet – Para exemplificar essa dinâmica, o New York Times já abriu um processo contra a OpenAI, que é a empresa do ChatGPT, porque eles perceberam que boa parte das respostas a temas que são consultados no sistema são, na verdade, cópias de textos que foram publicados pelo jornal. No caso do Brasil, também já se identificou textos que foram publicados na Folha de São Paulo que têm servido de base para oferecer respostas aos usuários do ChatGPT quando fazem uma consulta sobre um determinado assunto. Então, entra toda uma questão dos direitos autorais, entra uma questão da ética também, da apropriação do conhecimento e quando a gente vai tratar de sistemas de IA que trabalham no âmbito do audiovisual, isso pode ser ainda mais pernicioso. Na música isso já está acontecendo, na questão da indústria cinematográfica, que acabou, inclusive, resultando numa greve que durou cinco meses por parte dos roteiristas da indústria de Hollywood e também dos atores. Vem se verificando a apropriação da construção informacional humana replicada por esses sistemas numa ideia de permutação desses dados para poder maquiar essa apropriação.
DMT – O livro fala muito das instituições multilaterais. O que tu destacarias de avanços, de medidas que foram tomadas já sobre esse tema dentro de instituições multilaterais, sobre essa questão da inteligência artificial no mundo do trabalho?
Atahualpa Blanchet – Estamos falando do conceito de governança internacional da inteligência artificial. Existe uma atuação transnacionalizada das big techs, que buscam se aproveitar de lacunas regulatórias nos países. Então, é fundamental o trabalho desenvolvido nessas instâncias. São espaços importantes porque eles constroem consensos, conseguem definir princípios norteadores para implementação até mesmo de regulações nacionais. Por outro lado, não só nesse âmbito de regulação tecnológica, mas também em áreas como direitos humanos, ou mesmo na questão relacionada à defesa, à guerra, há uma grande crise do sistema multilateral, sobretudo de instâncias que foram erigidas no segundo pós-guerra, do sistema das Nações Unidas, e também instituições de âmbito regional, como é o caso da União Europeia ou do próprio Mercosul, entre outras. Também tem uma crise de representatividade, de legitimidade dentro desses espaços multilaterais. Há um déficit democrático nesses foros de tomadas de decisão, que precisariam ter uma participação maior da sociedade civil, não só de diplomatas ou pessoas que são escolhidas por governos para debater esses temas. A ONU tem trabalhado bastante em cima da questão da governança da inteligência oficial. Mesmo foros e blocos, como é o caso do BRICS, do G20, têm destacado a importância de que não haja uma duplicidade de instâncias ou uma multiplicidade de instâncias para debater o tema, que a ONU seja o foro para poder debater esses impactos. O principal instrumento internacional sobre temas da ética e da inteligência artificial é uma recomendação da UNESCO do ano de 2021, em que temos 193 países signatários. Há ali um conjunto de princípios que balizam a aplicação dos sistemas de inteligência artificial. Em 2024, eu trabalhei, inclusive, em um projeto vinculado ao escritório da UNESCO para América Latina e Caribe, tratando da implementação dessa recomendação nos diferentes países. Alguns deles têm legislação, outros criaram políticas nacionais para poder desenvolver a IA e regular, outros criaram estratégias nacionais ou mais de uma dessas medidas. A questão da implementação na prática e de limitar os abusos da utilização desses sistemas é algo que depende de atuações muito mais locais do que internacionais, mas com esses princípios que são reconhecidos no âmbito internacional.
DMT – O Brasil tem um plano. Como é que tu avalias esse plano sobre a inteligência artificial?
Atahualpa Blanchet – O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial foi lançado na metade de 2024. Foi um pedido que o presidente Lula fez ao Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia para que fosse desenvolvido e foi coordenado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Fizeram um trabalho de articulação junto à academia e a vários ministérios para poder construir uma base de um plano, que ainda segue em andamento. Na verdade, é um documento, como eles falam, em aberto. Ele tem a designação de 23 bilhões de reais de investimento até 2028. Um dos eixos é justamente relacionado à questão da qualificação de trabalho voltado para a implementação dos sistemas de inteligência artificial. É necessário estender e abrir mais o diálogo, de participação social. Eu tenho participado de debates sobre implementação desse plano, cujo órgão responsável pelo seu monitoramento de implementação é o Observatório Brasileiro de Inteligência Artificial, que é vinculado ao CGI (Comitê Gestor da Internet no Brasil). Tenho participado de debates sobre esse assunto no âmbito do Ministério do Trabalho, no Conselho Nacional de Direitos Humanos e no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social, em que a partir do ano que vem vai ter um eixo de trabalho voltado para a questão do futuro do trabalho e da implementação do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, no que se refere à questão do trabalho. Então, o Brasil tem buscado, sim, desenvolver esse tema, debater, em sintonia com os organismos internacionais, e, ao mesmo tempo, em outras áreas também, como a questão da integridade da informação, a questão do manejo das redes sociais. Mas, volto a dizer, ainda é preciso aprofundar os mecanismos de participação social justamente para poder identificar os impactos dessas ferramentas e fazer os ajustes da implementação do plano com base nessas questões.
DMT – Como foram as conversas com Pepe Mujica. O que ele pensa sobre o futuro do trabalho e a inteligência artificial?
Atahualpa Blanchet – Eu vim para o Uruguai em 2018, para trabalhar no âmbito Mercosul, como secretário da Comissão de Trabalho, Políticas de Emprego, Seguridade Social e Economia Social do Parlamento do Mercosul. E uma das missões foi de poder garantir espaços de integração entre o Brasil e o Uruguai, Em função disso, começamos a frequentar a chácara do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, começamos a organizar atividades com ele, sobretudo voltadas para esses temas. Minha companheira, a Caroline Coelho, trabalha na Confederação Sindical dos Trabalhadores das Américas (CSA). A gente fez muitas agendas com ele. Inclusive, uma das coisas que eu fiz foi levar o Olívio Dutra lá na casa do Pepe. A Carol levou Mujica para Brasília, em algumas atividades com o movimento sindical. E a conversa com ele sobre o tema de inteligência artificial veio num evento da CSA e foi uma conversa informal. Naquele momento, eu estava trabalhando na construção da primeira declaração do Mercosul que trata sobre temas de inteligência artificial, que é a Declaração de Princípios de Direitos Humanos no âmbito da Inteligência Artificial. E comentei com o Pepe sobre isso, pois sabia que ele tinha interesse sobre o tema. Então, ele me olha, bota a mão na cabeça assim, e fala: “Esse tema da inteligência artificial vai gerar um impacto tremendo na indústria da guerra, no âmbito das cidades, no controle, a questão das câmeras, do reconhecimento facial, sem contar no mundo do trabalho, porque as máquinas vão começar a pensar por nós”. E eu digo: “É, Pepe, é justamente isso que a gente está debatendo, identificando alguns impactos e estamos tratando de não entrar numa lógica determinística, de acreditar que a gente tem condições, em certa medida, de surfar nesse tsunami”. E aí ele me disse assim: “Tá, mas me diz uma coisa, tu que está nessa área, como é que a máquina aprende?” E eu comentei que é um processo humano, que quando a gente não vê uma foto numa rede social, é porque alguém teve que ver muitas imagens violentas para poder treinar aquele sistema, que os dados são todos inseridos por humanos. E aí ele me olha e ele me diz assim: “Mas então não é tão artificial. E então, também não é tão inteligente”. É justamente isso que o professor (Miguel) Nicolelis também fala. Então, uma frase que eu tenho falado muito sobre o assunto é que a gente não deve se deslumbrar com os sistemas de inteligência artificial, não deve achar que é a solução para tudo, porque eles cometem muitos erros, inventam coisas, inventam publicações que não existiram, mas ao mesmo tempo, a gente tampouco deve subestimar os impactos da utilização dessas ferramentas. A gente tem que saber andar nessa corda bamba, esse abismo que separa a distopia, e, por outro lado, não entrar nessa nessa lógica da utopia de achar que as máquinas vão fazer tudo por nós e que vamos viver um mundo emancipado com ensaios de pós-trabalho, em que as máquinas vão se dedicar a produzir o alimento, a distribuir, a gerar o transporte, a distribuição de energia e a gente não vai precisar fazer nada e só viver de arte. A gente vai ter que encontrar um meio termo entre esses dois extremos.

