Élida Azevedo Hennington
Resumo: Trata-se de reflexão teórica do tipo ensaística que aborda a temática da relação entre jornada de trabalho e desigualdades de gênero, com enfoque no trabalho de cuidados, interseccionando com a área de Saúde da Trabalhadora. Problematiza o papel de cuidadoras e a divisão sexual do trabalho com repercussões na saúde física e mental das mulheres. Além do fim da aviltante Escala 6X1 e a redução da jornada de trabalho, é preciso incorporar no horizonte de lutas e conquistas da classe trabalhadora a valorização e o reconhecimento social e econômico do trabalho doméstico e de cuidados, o debate sobre os usos do tempo e a sua necessária redistribuição equitativa entre os gêneros.
Sumário: Introdução | Desigualdades de Gênero no trabalho, longas jornadas e os efeitos na Saúde Mental | Morbimortalidade Ocupacional, Jornada de Trabalho e Estudos de Gênero | Considerações finais
Introdução
O recente debate no Brasil sobre a abolição da Escala 6X1, seis dias de trabalho remunerado para um de descanso, e a discussão sobre a extensão, distribuição e intensidade da jornada de trabalho atingem em cheio a vida das mulheres trabalhadoras, em uma retomada das históricas lutas da classe trabalhadora pela redução da jornada. No bojo dessa mobilização em torno da vergonhosa escala de trabalho não se pode desconsiderar a reflexão a respeito do trabalho não remunerado, dos usos do tempo e a sua necessária redistribuição de forma equitativa entre homens e mulheres.
Historicamente, as mulheres assumem a maior parte do trabalho doméstico e de cuidado não remunerado, seja em suas casas, no cuidado dos filhos e de familiares idosos, pessoas enfermas ou incapacitadas e, muitas vezes, desempenhando atividades de cuidado na comunidade onde vivem. De outro modo, essa responsabilidade pelo cuidado se intensifica em contextos de pobreza e vulnerabilidade e, frequentemente, impulsiona o deslocamento feminino na busca de trabalho remunerado e de melhores oportunidades. As mulheres são maioria em ocupações remuneradas no setor de cuidados, como trabalhadoras domésticas, cuidadoras de idosos ou de crianças, trabalhadoras de limpeza e alimentação, e como trabalhadoras da área de saúde e educação (REBEF, 2024).
A sociedade promoveu a participação masculina na vida pública e desencorajou as mulheres a assumirem atividades fora do ambiente doméstico, em trabalhos ou carreiras fora das tradicionais ocupações femininas. Estas são as bases subjetivas da divisão sexual do trabalho que se traduzem em elementos fundamentais nos sistemas de gênero (Batthyány, 2015). O trabalho de cuidados, muitas vezes visto como “feminino” e “natural”, acaba mascarando relações de exploração, opressão e subvalorização presentes nesse tipo de atividade (Batthyány, 2015, 2021; Martins e Vedovato, 2017).
Hoje as mulheres brasileiras precisam trabalhar fora e dar conta das atividades laborais, assumir o sustento da família, além das demandas domésticas e de cuidados, numa rotina exaustiva.
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Élida Azevedo Hennington é médica e pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)

