Faxineira deixa até 64% do valor pago pelo cliente com o aplicativo

Fotografia: Rafael Vilela/Fairwork

Jéssica Alvez Maia do Rio Brando tem 24 anos. Presta serviço de faxineira desde os 16 anos para aplicativos, empresas e clientes particulares, em jornadas que podem chegar a até 12 horas de trabalho. Em sua casa, no Jardim Peri, na Zona Norte de São Paulo, é responsável pelos cuidados de sua mãe, que é paraplégica, e de sua avó. Seu sonho é ser médica. Atualmente, está tentando uma vaga para escola militar.

Sua rotina é marcada por grandes deslocamentos. A MaryHelp, empresa que conecta seus serviços aos clientes, sempre a manda para diárias longe de sua casa. Para se deslocar de sua residência aos locais de trabalho e voltar, ela leva até três horas de transporte público, entre ônibus, metrôs e trens.

A caminho do trabalho, no centro de São Paulo. Fotografia: Rafael Vilela/Fairwork

Na sexta-feira chuvosa em que o Intercept acompanhou seu trabalho, ela viajou mais de 20 km. A locomoção faz com que Jéssica geralmente já chegue cansada para fazer a faxina. “Não é sempre que a gente pega ônibus vazio, então é o transporte cheio. É complicado, mas tem que ter força de vontade, né?”

Segundo Jéssica, não é fácil as pessoas confiarem em qualquer um e colocar para trabalhar em suas casas. Por isso, trabalhar em plataformas é uma condição para ter acesso a novos clientes. Mas o custo é alto: A MaryHelp, por exemplo, cobra de seus clientes R$ 152 em uma faxina de quatro horas, mas Jéssica fica só com R$ 55. Quando trabalha por oito horas, recebe R$ 95.

Às vezes, os clientes em busca de faxineira não procuram a MaryHelp – mas, sim, a GetNinjas, outra plataforma de trabalho terceirizado. A MaryHelp, na verdade, é uma das prestadoras de serviço que usa a GetNinjas para conseguir clientes. Ou seja, o cliente pode passar por duas intermediárias antes de chegar ao trabalho de faxineiras como Jéssica.

A dois graus de distância dos clientes, não há margem para reclamações ou para pedir assistência básica, como comida. As plataformas não oferecem nenhum tipo de auxílio alimentação. Jéssica tem que levar o almoço preparado por sua mãe de casa. Algumas vezes, ao chegar no local de trabalho, descobre que não tem onde sentar, nem microondas ou fogão para esquentar a comida.

Apesar disso, os clientes são exigentes com seu serviço. “Querem alguém que seja cuidadoso, atencioso, caprichoso, responsável, pontual”, afirma. Jéssica pode fazer até três faxinas de quatro horas cada em um dia de trabalho, somando às vezes 14 horas fora de casa, contando os deslocamentos. “A maturidade e a experiência ajudam. Acho que uma coisa muito importante é você ter dedicação, fazer as coisas com vontade”. Em um tempo de crise econômica extrema e desemprego, ela se conformou com a rotina exaustiva. “Hoje em dia é difícil eu achar uma área que ganhe o valor que eu ganho por hora”.

Limpeza em uma clínica de odontologia, no centro de São Paulo. Fotografia: Rafael Vilela/Fairwork

A GetNinjas diz que funciona apenas como “canal de anúncio”, já que o contato e o pagamento do serviço acontecem fora da plataforma. Os profissionais autônomos e as empresas que usam o site compram um “pacote de moedas” para aparecer na busca dos clientes, e usam o dinheiro para pode fazer contato com eles. “São os prestadores que definem preço, horário e condições do serviço junto ao cliente, sendo que o valor cobrado pelo serviço vai 100% para o profissional”, disse a empresa, por meio de sua assessoria de imprensa. Não ficou claro se esses prestadores, quando são empresas intermediárias, embutem esse custo no valor final do serviço.

Nós mandamos sete perguntas à Mary Help. Questionamos, por exemplo, qual porcentagem do valor contratado pelo cliente é repassada às faxineiras, se existe variação de preços de acordo com a região, qual é a porcentagem repassada às plataformas intermediárias – como a GetNinjas – e se há alguma política de alimentação e transporte para as faxineiras que usam a plataforma. A empresa não respondeu nenhuma, afirmando apenas que “infelizmente não vai conseguir participar dessa matéria”.

No metrô a caminho de sua casa, no Jardim Peri, após um dia de trabalho. Fotografia: Rafael Vilela/Fairwork

Fonte: The Intercept Brasil
Texto: Rafael Vilela
Data original da publicação: 12/05/2022

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