Ex-lobista da Uber denuncia a plataforma digital: “Vendemos uma mentira”

Fotografia: Rocco Fazzari/ICIJ

Numa longa entrevista ao The Guardian, Mark MacGann, um lobista de carreira que liderou os esforços da Uber para conquistar governos na Europa, Médio Oriente e África, assumiu-se como a fonte que cedeu mais de 124.000 arquivos da plataforma digital ao diário britânico.

De acordo com MacGann, a razão que o levou a denunciar as práticas da Uber prende-se com o sentimento de culpa pela sua participação ativa na estratégia da plataforma digital.

“Eu sou parcialmente responsável”, frisou, explicando que conversou com os governos, lidou com os media, convenceu quem de direito a mudar as regras porque, supostamente, os motoristas iam beneficiar dessa mudança e as pessoas teriam muitas oportunidades económicas. “Na verdade, vendemos uma mentira às pessoas”, reconheceu. MacGann acrescentou que lamenta ter feito “parte de um grupo de pessoas que deturpou os factos para ganhar a confiança dos motoristas, dos consumidores e das elites políticas”.

O lobista afirmou que a facilidade com que a Uber penetrou nos mais altos escalões do poder em países como o Reino Unido, França e Rússia foi “intoxicante”, mas também “profundamente injusta” e “antidemocrática”.

A Uber já reagiu ao facto de MacGann se ter identificado como a fonte da denúncia: “Entendemos que Mark tem arrependimentos pessoais sobre os seus anos de lealdade inabalável à nossa liderança anterior, mas ele não está em posição de falar com credibilidade sobre a Uber hoje”, realçou a multinacional.

Entre os milhares de documentos cedidos por MacGann ao The Guardian, e que agora integram os Uber Files, um trabalho de investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ), constam apresentações da empresa, relatórios de segurança e dezenas de milhares de e-mails e trocas de mensagens de WhatsApp, iMessage entre altos responsáveis da Uber como Travis Kalanick, o cofundador e então presidente-executivo da Uber, David Plouffe, ex-assessor de campanha de Barack Obama que se tornou vice-presidente sénior da Uber, e Rachel Whetstone, executiva de relações públicas britânica que também ocupou cargos seniores na Google, Facebook e agora Netflix.

O lobista explicou que a Uber e os seus investidores tinham expectativas de obter grandes lucros se a empresa de tecnologia tivesse sucesso na sua missão de desregulamentar mercados, monopolizar cidades, transformar sistemas de trânsito e um dia até substituir motoristas por veículos autônomos. MacGann assume que este plano implicava que a Uber desrespeitasse a lei em cidades em que os mercados regulamentados de táxi exigiam licenças difíceis de obter.

“A abordagem da empresa nesses lugares era essencialmente violar a lei, mostrar o quão incrível era o serviço da Uber e depois mudar a lei. O meu trabalho era passar por cima das autoridades da cidade, construir relações com o mais alto nível do governo e negociar”, descreveu MacGann.

Na entrevista, o lobista referiu a utilização abusiva da aplicação “God View”, que permitia que os funcionários monitorizassem clandestinamente os movimentos em tempo real de qualquer utilizador no mundo.

MacGann também falou sobre Emmanuel Macron, com quem lidou diretamente, que se tornou numa espécie de arma secreta para a Uber. Após deixar a Uber, o lobista manteve relações com Macron e ajudou-o a arrecadar fundos para o seu partido La République En Marche em 2016.

O ex-responsável da Uber também manteve relações próximas com dois ex-comissários da União Europeia, Neelie Kroes e Peter Mandelson e é um rosto familiar entre as personalidades de relevo que participam do Fórum Económico Mundial em Davos. MacGann confirmou ainda que os executivos da Uber se reuniram com o então primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, o ex-primeiro-ministro irlandês, Enda Kenny, o à época chanceler do Reino Unido, George Osborne, e o então vice-presidente dos EUA, Joe Biden.

O lobista insistiu igualmente que os motoristas do Uber eram vistos na empresa como peões que poderiam ser utilizados ​​para pressionar os governos e que a sua segurança era frequentemente posta em causa. “Estou enojado e envergonhado por ter participado da banalização de tal violência”, vincou MacGann.

Fonte: Esquerda
Data original da publicação: 12/07/2022

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