Delivery Fight! A luta contra os patrões sem rosto

Fotografia: Georges Gobet/AFP/Getty Images

Em “Delivery Fight! A luta contra os patrões sem rosto”, Callum Cant reflete pelas lentes da sociologia marxista sobre sua experiência como trabalhador em plataformas digitais.

João Lorandi Demarchi

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil
Data original da publicação: 23/06/2022

Callum Cant em 2016 estava no doutorado em Sociologia na Universidade de West London quando decidiu começar a trabalhar como entregador do aplicativo Deliveroo na cidade de Brighton. Ele foi motivado pelos interesses em conseguir um dinheiro extra e em compreender mais profundamente a chamada gig economy, a “economia dos bicos”. O resultado dos meses em que o autor se submeteu a fazer o login na plataforma e realizar as entregas em cima de sua bicicleta – às vezes a empurrando para vencer as ladeiras íngremes da cidade – foi uma análise não só das relações de trabalho mediadas pelos aplicativos, mas uma compreensão complexa do modo como o sistema capitalista tem se desenvolvido ao longo do tempo, ganhando novas camadas de perversidade.

A reflexão desenvolvida por Cant é fundamentada no repertório teórico-conceitual de Karl Marx. A começar pelo método utilizado, que foi inspirado no questionário chamado “enquete operária” desenvolvido por Marx em 1880 com trabalhadores franceses. Com esse procedimento, visa-se valorizar a compreensão dos próprios trabalhadores sobre o sistema capitalista. Como são eles os explorados, suas percepções revelam as contradições e contrariedades desse modelo econômico.

Considerando que é preciso que os trabalhadores assumam o controle da tecnologia a que estão subjugados para passarem a usufruírem da riqueza que produzem, Cant demonstra que somente a partir do envolvimento e comprometimento dos trabalhadores consigo mesmos a revolução se viabilizará. Reafirmando o princípio marxista da luta de classes, ele ressalta como esses laços entre os trabalhadores são sistematicamente desmobilizados pelos executivos dos aplicativos que, diante das manifestações por melhores pagamentos, insistem em negociar individualmente com cada “usuário”. Frente aos diversos modos sutis de desagregação vindos dos de cima, o livro apresenta o potencial subversivo contido nos bolsões e nas praças, em que os entregadores ficam esperando os pedidos chegarem, e nos aplicativos de mensagem, que eles usam para trocarem informações. Esses espaços servem para a socialização e para a formação da consciência de classe. Não é por acaso que foi a partir desses lugares que as greves foram organizadas.

Apesar da sagacidade com que o livro apresenta a complexidade do sistema capitalista, demonstrando desde as artimanhas dos aplicativos simularem games para confundir os limites entre trabalho e lazer até como a desregulamentação trabalhista depende de governos autoritários, aqui ele cita inclusive Bolsonaro, o autor não deixa de ser cético sobre como construir alternativas. A luta é desigual. Os trabalhadores precisam imediatamente do dinheiro que ganham por meio desses aplicativos, então como parar para fazer a revolução?

Como o capital fixo e os meios de produção (bicicleta, moto, celular etc.) já pertencem aos próprios trabalhadores, o objetivo deve ser tomar os apps. A saída proposta por Cant é fundar cooperativas de plataforma. As dark kitchens poderiam se transformar em cozinhas coletivas, e por aí vai. Os caminhos para a luta são inúmeros. É preciso sonhar.

João Lorandi Demarchi é historiador e mestre em Geografia pela FFLCH-USP, doutorando em Educação pela FE-USP e professor dos ensinos fundamental e médio.

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