
No estado indiano de Kerala, milhares de cooperativas dirigidas por trabalhadores e trabalhadoras mostram como a organização popular e políticas de esquerda transformaram a economia, combateram a pobreza e criaram experiências concretas de um socialismo possível.
Luiz Felipe Albuquerque
Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil
Data original da publicação: 19/12/2025
Imagine um local com cerca de 16 mil cooperativas controladas por trabalhadores e trabalhadoras das mais diversas áreas, que atuam desde a produção e distribuição de bens e serviços até hospitais e restaurantes, passando pela produção agrícola e construção de moradias. Agora, imagine que uma destas cooperativas possui quase 5 milhões de integrantes, todas mulheres. E que uma em cada quatro mulheres de um determinado estado esteja nesta cooperativa. Imagine outras cooperativas que funcionam como instituições bancárias sob uma perspectiva popular, capazes de concorrer com grandes instituições financeiras; ou outras de engenharia que participam de licitações públicas para grandes projetos de infraestrutura, por exemplo. Pensaríamos, nesses casos, que o socialismo triunfou, não é mesmo? Mas tudo isso é real.
Trata-se do estado indiano de Kerala, onde reside uma população de cerca de 35 milhões de pessoas, quase o mesmo contingente do estado de São Paulo. Kerala possui uma rica história de construção socialista, como demonstra o mais novo estudo do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, O movimento de cooperativas no estado de Kerala, na Índia.
O estudo mostra que as cooperativas de Kerala não só conseguiram sobreviver em um nicho pequeno, como também crescer e se tornar instituições substanciais que se integraram à vida social da região.
Breve histórico
Dez anos após a Índia conquistar sua independência em 1947, o Partido Comunista da Índia venceu as eleições estaduais em Kerala. Desde o início, o governo de esquerda adotou uma agenda para destruir hierarquias e costumes sociais ancestrais, fornecer bens sociais que não estavam prontamente disponíveis à população no resto da Índia (incluindo educação pública de qualidade, saúde e transporte) e construir as bases do poder da classe trabalhadora e dos camponeses, defendendo o direito dos trabalhadores de se organizarem em sindicatos e criarem cooperativas.
A esquerda retornou ao poder periodicamente (1967-1969, 1980-1981, 1987-1991, 1996-2001, 2006-2011 e 2016-presente), expandindo a cada vez a agenda de descentralização, incentivando a ação pública e construindo as bases para instituições estatais social-democratas. Mesmo quando a direita chegou ao poder nos anos seguintes, não conseguiu minar a dinâmica que havia sido iniciada pelos governos de esquerda. Foi nesse contexto que o movimento cooperativo se desenvolveu em Kerala.
Todo esse esforço permitiu que em novembro de 2025 o estado indiano fosse declarado livre da extrema pobreza. Kerala é um dos poucos lugares do mundo a erradicar a pobreza extrema, como ocorreu recentemente na China, que anunciou o feito em todo seu território nacional em 2022. Trata-se do único dos 28 estados indianos a derrotar a pobreza extrema, em um país em que centenas de milhões de pessoas ainda vivem na pobreza.
O socialismo possível
Uma das experiências mais fantásticas é a cooperativa Kudumbashree (que significa “prosperidade da família” em malaiala); seu tamanho gigantesco impressiona: são 4,8 milhões de mulheres – cerca de um terço das mulheres adultas em Kerala – que integram esta rede. Sua experiência começou em 1998 como um programa estadual para erradicar a pobreza entre as mulheres; mas desde então se tornou uma força transformadora na vida social e política de Kerala.
Hoje, a Kudumbashree está envolvida em uma ampla gama de atividades, desde microfinanças e agricultura coletiva até a fabricação de vestuário e a administração de restaurantes. Tornou-se uma presença onipresente na sociedade de Kerala. Uma das iniciativas mais notáveis da Kudumbashree é a agricultura coletiva. O número de mulheres agricultoras que fazem parte deste coletivo atingiu 439.255. Existem 96.177 grupos que cultivam 21.457 hectares de terra. As principais culturas são arroz, vegetais, tubérculos e bananas. Os produtos são primeiramente utilizados para consumo interno das famílias das mulheres agricultoras, e o excedente é vendido nos mercados das aldeias.
Em fevereiro de 2020, o governo de esquerda de Kerala anunciou a abertura de mil restaurantes, administrados pela Kudumbashree, em que a comida seria oferecida a preços subsidiados. Atualmente, existem 1.198 restaurantes populares em funcionamento no estado, administrados por 5.104 integrantes da Kudumbashree.
Há inúmeras outras experiências nesse sentido sob a coordenação da Kudumbashree, que incluem a produção de alimentos embalados, vestuário, absorventes higiênicos, guarda-chuvas, bolsas, cerâmica, tapetes, sabonetes e artigos de higiene pessoal, além da administração de restaurantes e cantinas em todo o estado, o gerenciamento de estacionamentos em estações ferroviárias, o processamento de óleo de coco, castanha de caju e tamarindo até a administração de academias de ginástica, albergues para mulheres, creches, autoescolas, unidades de produção de fibra de coco, unidades de encadernação, gráficas, laboratórios médicos, oficinas de costura, supermercados e fabricação de lâmpadas LED e produtos eletrônicos.
Ao todo, há um total de 157.097 microempresas Kudumbashree no estado, administradas por 318.265 membros da cooperativa. Dessas, 69.484 empresas pertenciam ao setor de produção, 49.381 ao setor de serviços e 35.646 ao setor de comércio. Impressionante.
Outra experiência é o Sociedade Cooperativa de Contratos de Trabalho Uralungal (ULCCS, na sigla em inglês), concebida inicialmente para fornecer proteção social aos trabalhadores da construção civil, em 1925. Hoje em dia, constrói estradas e pontes, edifícios e sistemas de software e teve uma receita anual de 300 milhões de dólares em 2023. É composta por 18 mil trabalhadores, incluindo mais de mil engenheiros e 1.200 técnicos. Todo seu histórico de acúmulo de conhecimento coletivo permitiu que ULCCS concorresse com empresas privadas e ganhasse grandes contratos. A ULCCS concluiu mais de 7.500 grandes projetos e está atualmente trabalhando em 500 projetos no valor de 6,5 bilhões de rúpias indianas.
Sem falar na Fábrica Cooperativa de Chá Sahya, localizada na área remota de Thankamany, no distrito montanhoso de Idukki. Inaugurada em 2017, a fábrica foi criada pelo Thankamany Service Cooperative Bank, Ltd (fundado em 1966), um Banco Cooperativo com 15 mil membros, a maioria pequenos agricultores e trabalhadores, e opera no panchayat da aldeia de Kamakshy, habitada principalmente por pequenos produtores de chá. A Fábrica Cooperativa de Chá Thankamany produz principalmente chás pretos, verdes e uma variedade de misturas de chás.
Naturalmente, existem desafios e contradições em todos estes processos, ainda mais em um mundo em que a lei capitalista do valor é a lei vigente. Mas todas essas experiências apresentam as cooperativas enquanto incubadoras de diferentes lógicas de vida e trabalho, servindo como faróis de inspiração e esperança, oferecendo uma janela para o que a humanidade é capaz de fazer quando os grilhões do capitalismo são transcendidos.
Essas cooperativas não são meramente uma fonte de inspiração: elas fornecem um modelo para cooperativas em todo o mundo, como sementes de um futuro justo que existem dentro dos limites do capitalismo atual. Trata-se do comunismo possível, das possibilidades que temos em nosso tempo para uma sociedade futura.
Luiz Felipe Albuquerque é jornalista e integrante do departamento de comunicação do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

