A nova estratégia do Japão para diminuir as jornadas dos trabalhadores

O governo japonês tem um plano para incentivar sua população a trabalhar menos horas seguidas. A estratégia do Ministério da Economia, chamada de “segunda-feira brilhante”, estimula funcionários a chegar mais tarde ao trabalho no primeiro dia da semana. A ideia é que a medida possa criar um melhor equilíbrio entre a vida pessoal e profissional dos japoneses.

A proposta de descansos semanais mais extensos chegou a ser testada pelo próprio governo no último mês. No dia 27 de julho de 2018, uma segunda-feira, 30% dos funcionários do Ministério da Economia foram liberados para chegar ao escritório depois do almoço. Segundo o órgão, a ausência de centenas de seus colaboradores durante algumas horas não impactou negativamente as atividades.

As folgas matutinas às segundas-feiras, opcionais tanto para empresas quanto para funcionários, fazem parte de um pacote de esforços do governo e empresas do país asiático que vem sendo ampliado nos últimos anos.

Desde 2017, por exemplo, companhias privadas do Japão têm amparo legal para permitir que seus funcionários saiam mais cedo na última sexta-feira de cada mês. Na chamada “sexta-feira premium”, trabalhadores podem deixar suas funções às 15h e dedicar mais tempo fora do emprego à família e amigos.

Algumas companhias passaram a permitir que funcionários tirem pequenos cochilos, de 20 ou 30 minutos, durante o expediente. Outras têm, ainda, o hábito de apagar as luzes em horários determinados, como forma de convencer os empregados a deixarem seus postos de trabalho na hora correta.

O excesso de trabalho como cultura

Apesar da preocupação por parte do governo, medidas de flexibilização das jornadas laborais ainda parecem estar longe de alterar as relações culturais de trabalho no Japão.

Dados preliminares do Ministério da Economia sobre a “segunda-feira brilhante”, por exemplo, registraram adesão baixa. Apesar de quase 89% dos empregados saberem da existência da facilidade, o total de trabalhadores que utilizaram o benefício foi 11,2%.

Algo semelhante já acontece com outros direitos previstos por lei, como os descansos remunerados. No país, trabalhadores têm direito a 20 dias de férias por ano. De acordo com o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, trabalhadores costumam tirar, em média, oito dias – menos que a metade. Estima-se que, atualmente, 35% deles não requisitem um dia sequer.

O direito ao recesso costuma ser convertido em horas-extras de trabalho. Segundo dados compilados pelo governo do Japão em 2015, cerca de 21,3% dos japoneses disseram trabalhar 49 ou mais horas por semana em média – número maior do que os 16,4% registrados nos Estados Unidos. Em nações europeias, como o Reino Unido e a França, o índice se manteve em 12.5% e 10.4%, respectivamente.

Segundo um estudo feito com empresas japonesas entre dezembro de 2015 e janeiro de 2016, 22,7% delas admitiram contar com empregados que fizeram mais de 80 horas-extra em um mesmo mês. Como destacou esta reportagem do jornal britânico The Guardian, a referida marca representa o total de horas em que a chance de morte por excesso de trabalho se torna preocupante.

“As longas horas de trabalho no Japão são um problema básico, que deriva da ética de trabalho e cultura corporativa enraizadas no ambiente profissional e no estilo de trabalho no Japão”

Sawako Shirahase, do departamento de Sociologia da Universidade de Tóquio, em entrevista à BBC

Por conta da rotina, o costume de dormir em qualquer lugar ganhou até um verbete específico, por ter se popularizado nos principais centros econômicos do país. Chamado de “inemuri”, o hábito faz referência a cenas de pessoas dormindo em pé ou deitadas em locais públicos, como estações de metrô.

No Japão, funcionários dormem durante seis horas e 22 minutos em dias normais de trabalho, quantidade menor do que a de qualquer outro lugar do mundo, segundo apontou este estudo. Apenas 54% dos japoneses entrevistados declararam ter uma boa noite de sono durante a semana.

‘Karoshi’, a morte por trabalho excessivo

O acúmulo de noites mal-dormidas costuma ser resultado de um cenário avançado de esgotamento físico e mental que, elevado à última instância pela pressão por rendimento e bullying no ambiente corporativo, pode causar até mesmo a morte.

Óbitos por excesso de trabalho (chamados de “karoshis”, em japonês) são definidos quando uma pessoa trabalha por mais de 100 horas extras no mês anterior à sua morte – ou 80 horas extras por dois meses consecutivos ou mais nos seis meses anteriores.

“Karoshi não é um termo puramente médico, mas um termo médico-social que se refere a fatalidades ou à incapacidade de trabalho devido a um ataque cardiovascular (que pode ser um acidente vascular cerebral, um infarto ou falha cardíaca) agravado por uma carga de trabalho excessiva ou por muitas horas de trabalho”

Definição de “karoshi” elaborada pela OIT (Organização Internacional do Trabalho)

Como destacou a BBC, os primeiros casos do tipo começaram a ser registrados no fim da década de 1960.

De acordo com a OIT (Organização Internacional do Trabalho), o intenso período de recessão econômica após o colapso da bolha econômica japonesa, nas décadas de 1980 e 1990, fez diversas companhias reduzirem seu número de empregados. O total de trabalho, no entanto, não diminuiu, forçando-os a trabalhar mais, intensificando o hábito de trabalhar até tarde, em feriados e fazer jornadas cada vez mais longas.

A partir de 1987, o Ministério da Saúde japonês começou a recolher dados sobre a incidência dessa modalidade de óbito, motivado pela morte repentina de uma série de executivos em altos cargos de empresas nacionais. Em 2015, os pedidos de indenização chegaram ao número recorde de 2.310, segundo relatório do Ministério do Trabalho do Japão.

Como destacou um levantamento divulgado em 2016, menos um quinto dos funcionários japoneses corria risco de morrer de tanto trabalhar. Em 2017, o governo japonês reconheceu a ocorrência de 236 casos de morte em decorrência de estafa.

Um dos que ganhou maior visibilidade recentemente foi o da jornalista Miwa Sado, de 31 anos, que trabalhava para a NHK, empresa pública de radiodifusão japonesa.

Sua morte, que aconteceu em julho de 2013, veio a público apenas no fim de 2017, e aconteceu após uma maratona de cobertura das eleições nacionais do Japão. No mês que antecedeu sua morte, Sado havia tirado apenas duas folgas, além de ter trabalhado 159 horas a mais do que o estabelecido em contrato.

Além das mortes provocadas por esgotamento, 208 suicídios foram oficialmente considerados “karojisatsus” em 2017. A palavra faz referência a quando um trabalhador tira a própria vida por situações mentais desenvolvidas por experiências no ambiente profissional.

Como forma de diminuir índices de morte do tipo, o premiê japonês, Shinzo Abe, impôs em junho de 2018 um limite de 100 horas extras por mês para trabalhadores – ou 720 horas/ano.

A reforma integrou um pacote de medidas legislativas conduzido por Abe e seus aliados chamado de “A revolução na forma como as pessoas trabalham”. O governo espera que as alterações gerem impacto positivo na produtividade e saúde dos trabalhadores.

Fonte: Nexo
Texto: Guilherme Eler
Data original da publicação: 22/08/2018

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