A inflação que tudo muda: os impasses do capitalismo contemporâneo

Ilustraçãi: wan wei/iStock

A atual crise não é resultado da espiral “preços/salários”, mas sim dos lucros que encorajam a inflação.

Romaric Godin

Fonte: Esquerda, com  Mediapart
Tradução: Carlos Carujo
Data original da publicação: 19/06/2022

Desde há mais de 30 anos, a inflação tinha quase desaparecido das discussões políticas e das mentes dos cidadãos da maior parte dos países ocidentais. Falava-se muito mais de crescimento, de competitividade e, desde 2008, o grande tema da política económica era sobretudo como evitar a espiral decrescente dos preços, a deflação.

E, subitamente, desde o fim de 2020, a crise sanitária mudou tudo. Os preços começaram a escalar. Primeiro apenas em alguns produtos, depois de forma mais generalizada. O que deveria ser temporário tornou-se um fenómeno duradouro. E toda a gente parece perturbada. Políticos, bancos centrais e economistas, estavam, de algum modo, “desabituados” da inflação. É preciso voltar a ter este dado em conta e fixar novas prioridades.

Mas este fenómeno não caiu do céu. Não se trata de uma qualquer questão conjuntural. Como a inflação dos anos 1970 tinha sido marcada pelo fim do modo de gestão keynesiano-fordista do capitalismo, o impulso do início dos anos 2020 anuncia uma forma de crepúsculo do seu sucessor, o neoliberalismo.

Porque as causas e a realidade desta inflação são profundamente novas, a compreensão desta questão precisa de passar pelo tempo longo e pelo exame do estado global do sistema produtivo. A tentativa de resolver a situação copiando as velhas receitas – aliás com poucas provas dadas – dos anos 1980 parece uma atitude arriscada, resultado de uma incompreensão do momento histórico presente. Porque este impulso inflacionista vem minar as certezas económicas estabelecidas desde há quase meio século.

A promessa impossível da “grande moderação”

Nos anos 1970, a inflação foi erigida como mal absoluto. Era, afirmava-se, a causa do desemprego e do crescimento lento. Assim, era preciso combatê-la a qualquer preço. A “estabilidade dos preços” garantida pelos bancos centrais independentes e apoiando-se numa política de “reformas estruturais” tornou-se portanto a prioridade.

Rapidamente, esta prioridade modificou completamente o modelo dominante. A inflação era endémica porque, de acordo com esta leitura, o modelo keynesiano-fordista de base nacional favorecia ao mesmo tempo as concentrações industriais, o protecionismo e a redistribuição salarial. A concorrência, o livre comércio e a moderação salarial tornaram-se então a nova santa trindade das políticas económicas. Pouco importa que esta narrativa seja fraca no plano histórico e teórico, está espalhada na opinião pública e no mundo político. Muitos quiseram acreditar nela. A promessa era a de uma compensação dos “esforços” dos trabalhadores e da redução da esfera não mercantil da sociedade através de uma moderação geral dos preços de consumo. Poder-se-ia então comprimir os salários, na medida em que a globalização e a liberalização asseguravam preços reduzidos.

O consumidor deveria encontrar nas prateleiras o que tinha perdido enquanto trabalhador. Era o mundo maravilhoso da “grande moderação” dos anos 1990 e 2000 em que a inflação fraca deveria assegurar o bem-estar geral.

Mas este admirável mundo novo rapidamente se tornou insustentável. Os efeitos da globalização da produção, da individualização do trabalho e da caça aos sindicatos conduziram a uma desaceleração global da procura e, a partir daí, do investimento. A queda da produtividade continuou, exercendo uma pressão para a baixa nos lucros e salários e favorecendo o desenvolvimento da esfera produtiva. Mas depois de 2008, foi preciso mobilizar os bancos centrais e em seguida o Estado para tentar salvar, cada vez com mais dificuldades, este modelo.

A promessa dos benefícios da estabilidade dos preços era cada vez mais difícil de defender porque esta estabilidade também ela dificilmente se mantinha. Durante dez anos, depois do colapso do setor financeiro, os bancos centrais despejaram milhões de euros para evitar a espiral deflacionista, sem realmente atingir os seus objetivos. É certo que os preços continuavam aparentemente moderados mas as famílias estavam submetidas a uma intensificação da pressão sobre os salários e serviços públicos – para assegurar a manutenção da rentabilidade do capital. Durante este tempo, as bolhas financeiras e imobiliárias multiplicaram-se, contribuindo para aprofundar as desigualdades.

Contrariamente ao que se diz muitas vezes, deflação e inflação não são dois fenómenos opostos, são frequentemente complementares. A “grande moderação” conduziu a um sub-investimento crónico, a uma repartição e fracionamento cada vez mais forte das cadeias de produção e, por fim, a uma fragilização crescente dos assalariados face ao capital. E são estas as fontes da crise inflacionista atual.

A espiral preços/lucros

O neoliberalismo, nascido da promessa de moderação dos preços, estabeleceu assim os fundamentos da febre inflacionista atual. Isto é compreensível quando se pensa na “flexibilidade” face ao mercado, que durante muito tempo foi gabada como o nec plus ultra da organização económica e a fonte da “grande moderação”. Graças a ela, era possível obter tudo o que se precisava rapidamente e a baixo custo: bens, serviços, empregos, matérias-primas. A resposta é necessariamente rápida e ótimal. Tanto mais que os mecanismos de cobertura financeira permitiam antecipar a procura futura e assim organizar melhor a produção.

O que se produziu depois da crise sanitária veio desmentir com violência estas ideias. A flexibilidade e a eficácia supostas tornaram-se uma armadilha. O brusco vai-e-vem da procura nessa altura não foi de todo antecipada e o sistema “mesmo a tempo” da organização produtiva tropeçou, ainda que o nível da retoma da procura permaneça inferior ao de 2019. Nestas condições, a globalização da produção de gosto neoliberal não oferece uma solução mas torna-se o problema, a fonte da crise inflacionária.

A organização neoliberal já não é a garantia da “grande moderação” mas o carburante da retoma da inflação. A sua promessa torna-se insustentável. Tanto mais que esta escalada inflacionista se torna uma oportunidade para as empresas melhorarem as suas margens jogando com os preços. O que era difícil nos anos 2010 torna-se possível. Não que a procura seja mais forte, mas a oferta é mais restrita.

Ora, aí também, as políticas neoliberais alimentam o movimento. Como sempre, o movimento de liberalização dos mercados fez-se acompanhar por uma concentração de empresas, aliás encorajada pelo setor da finança que via aí benefícios suculentos. Este movimento traduziu-se numa capacidade reforçada das empresas de imporem os seus preços (o seu “pricing power”). O Banco de Investimentos Internacionais sublinhava assim recentemente no seu boletim que esta capacidade de formação dos preços pelas empresas tinha atingidos os “mais altos valores históricos”. Na história do neoliberalismo, os últimos anos ficaram marcados por uma evolução cada vez mais vincada para a constituição de rendas que as políticas de liberalização não restringem mas, pelo contrário, alimentam. Quando os mercados são abertos, como nos anos 1970-1980, assiste-se a um momento de desconcentração que, rapidamente, se esgota sob o próprio efeito da concorrência. Recentemente, pode-se constatar isto mesmo nos setores tecnológicos, no comércio de retalho, no setor das telecomunicações, mas também no financeiro no qual as lógicas de gestão de ativos seguiram os passos das lógicas de mercado. Um pouco por todo o lado, constituem-se oligopólios ou, pior, monopólios de facto.

Quando as matérias-primas e os custos de produção para além dos salários aumentam, é mais fácil compensar esse movimento através do aumentos de preços, melhorando a sua margem durante esse processo.

Ao contrário do que se tentou fazer crer, a crise atual é assim inteiramente diferente da dos anos 1970. O movimento não é, como pretendem os economistas ortodoxos, uma espiral “preços/salários” mas uma espiral “preços/lucros”: são os lucros que encorajam a inflação e é este movimento que leva à sua transmissão ao resto da economia.

O recuo dos salários reais

Para evitar que os ganhos do aumento dos preços sejam devorados pelos aumentos salariais correspondentes, os detentores de capital praticam uma austeridade salarial de facto, reduzindo o valor real dos salários. E isto é ainda mais fácil porque, graças às “reformas estruturais” do passado, o mundo do trabalho já não pode responder às pressões de preços e defender o seu nível de vida com a mesma eficácia. Os sindicatos estão enfraquecidos, os trabalhadores isolados e ameaçados por despedimentos fáceis e por subsídios de desemprego enfraquecidos. Resultado: os salários reais, dito de outra forma os salários tendo em conta a inflação, recuam. Em França, segundo a Dares, no primeiro trimestre do ano, o salário médio no setor privado recuou 2,3% em termos reais. Mas o fenómeno é igual nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Alemanha.

Esta descida tem um significado simples: se os preços aumentam mais rápido que os salários, isto traduz uma distorção da repartição do custo da inflação entre capital e trabalho. E um uma distorção da mesma ordem no valor acrescentado. Os trabalhadores sacrificam assim uma parte do seu nível de vida para salvar os lucros.

O coração da dinâmica inflacionista atual são assim os lucros. Nos Estados Unidos, como na França, os números são claros. O nível da margem das empresas francesas no último trimestre de 2021 é largamente superior ao de 2019, enquanto que o nível do PIB é quase o mesmo. Nos EUA, o nível dos lucros está desde 2020 num nível recorde.

Um estudo do instituto norte-americano Economic Policy Institute mostra claramente as diferenças com os anos 1970. O crescimento dos preços unitários entre o segundo trimestre de 2020 e o quarto de 2021 é imputável em 53,9% aos lucros e em 7,9% aos salários. Margens elevadas, salários a meia haste: a inflação dos anos 2020 não é de todo a dos anos 1970 nem mesmo a que a teoria standard defende.

A inflação forte não tem a sua fonte numa procura excessiva, numa qualquer devassidão monetária ou numa aceleração dos salários causada por um hipotético pleno emprego mas na capacidade das empresas de salvaguardar as suas taxas de lucro através do aumento de preços e da compressão dos salários reais.

É o paradoxo da atualidade: a organização económica e social que deveria assegurar os baixos preços em troca da moderação salarial levou a preços elevados sem a possibilidade dos salários se ajustarem. Chega-se então a uma situação muito rara em que os rendimentos reais se afundam, deixando as famílias, sobretudo as mais pobres, sem recursos.

Nos anos 1970, a perda de salário real raramente ultrapassava o 1%, ou seja metade da perda do primeiro trimestre de 2022… Mas o paradoxo é apenas aparente: se a organização neoliberal da sociedade visa dar prioridade aos lucros, então é isto que produz, qualquer que seja a dinâmica da inflação.

A corrida para o abismo

Face a esta situação, o neoliberalismo retoma assim a sua função principal: salvaguardar e proteger o capital contra o trabalho. Apesar da realidade económica fazer fracassar todo o discurso defendido desde o fim dos anos 1970, tentam-se reciclar receitas desta época para fazer crer que a manutenção dos salários reais, ou seja a manutenção do nível de vida dos trabalhadores, é o mal absoluto. Desde Salários, Preços e Lucros de Marx (1865) que se sabe que a questão central da inflação é da repartição do ónus entre salário e lucro.

No dia 14 de maio, o governador do Banco de França, François Villeroy de Gahau, afirmou que “toda a gente perde se aumentarmos os salários”. Em fevereiro, o seu homólogo britânico, Andrew Bailey, reclamava uma “moderação nos aumentos salariais” para evitar “uma perda de controlo da situação”. Por seu lado, os governos, a começar pelo francês, debatem-se com medidas de subvenção de lucros (como os “cheques energia”) para moderar o efeito da inflação sobre o consumidor para conter exigências salariais. Estes números de equilibrismo escondem-se por detrás de uma retórica do “poder de compra” que evita cuidadosamente interessar-se nas dinâmicas em curso.

Tudo isto prova que a lógica neoliberal continua potente: a prioridade das autoridades continua a ser salvaguardar as taxas de lucro. O que é chato é que esta lógica começa a ficar num impasse. Assim como o neoliberalismo criou inflação atual, ele parece também estar a acelerar em direção ao muro que construiu.

Porque procurando a qualquer preço comprimir os salários e utilizando a arma da subida da taxa de juros para evitar uma espiral da procura que não existe, arrisca-se a conduzir a economia mundial a um novo ciclo de recessão e a provocar uma crise financeira. Sem, contudo, combater as causas da inflação que são a organização da oferta e o desenvolvimento de rendas.

A recessão que aí vem

Isto significa que uma vontade de combater a inflação através da procura necessitará de um apertão violento e não é certo que sociedades já enfraquecidas por décadas de neoliberalismo em crise e pela Covid consigam resistir. Especialmente porque a crise ambiental se está a agravar, colocando mais riscos nos recursos.

Nos países emergentes, mais frágeis e expostas, por exemplo no Sri Lanka, as situações políticas já se estão a inflamar devido às restrições, à alta dos preços e à penúria. A próxima recessão arrisca ser explosiva.

Até em França, no primeiro trimestre, o consumo desceu 1,3%, levando a uma estagnação do PIB trimestral. Uma tal pressão para a descida dos salários reais é um facto de uma violência rara nas economias avançadas. E é espantosa, aliás, a ligeireza com a qual dirigentes “responsáveis” julgam esta situação como sã e normal.

Esta crise não é um acaso. É a tradução de um impasse profundo: a baixa contínua dos ganhos de produtividade que o neoliberalismo não travou. Este é o coração do problema do capitalismo contemporâneo. Porque se não se pode aumentar a produtividade, não existe nenhum meio para as empresas compensarem a subida dos salários reais nem os efeitos de uma competição mais forte.

A única forma de assegurar o aumento contínuo dos lucros são os preços e a compressão salarial. É a situação descrita por Ricardo em 1815 no seu Ensaio sobre o lucro e é o que o aumento da produtividade tinha permitido evitar. A inflação atual não é assim um “acidente”. É constitutiva da evolução profunda do capitalismo contemporâneo.

É por isso também que qualquer tentativa de solução “interna” a esta crise fracassará. Não é possível contentar-se com relançar a procura ou a concorrência, assim como não é possível salvaguardar a própria renda. Por todo o lado, as portas parecem fechadas. A lógica da renda quebrará qualquer tentativa “social-democrata” e conduzirá à crise social e económica, como já Ricardo o dizia. Sem contar que, em qualquer caso, estas dinâmicas se tornam mortais dada a evolução da crise ambiental e altamente inflamáveis no plano social.

Neste quadro, a única opção parece ser romper com a dinâmica atual do modo de produção através de uma mudança radical em que a geração de lucros deixe de ser central. Isto pode passar por medidas de controlo de urgência com vista a “quebrar” a dinâmica atual: controlo de preços, indexação de salários, gestão da escassez através do racionamento e impostos sobre os lucros. Mas será preciso depois “assumir” o desmembramento das empresas rentistas que estas medidas implicam e reorganizar o modo de produção inteiramente através do planeamento e da democratização. É porque abre inevitavelmente tais debates e tensões que esta crise inflacionista muda tudo.

Romaric Godin é jornalista no Mediapart. Especialista em economia e autor de vários livros entre os quais La guerre sociale en France: aux sources économiques de la démocratie autoritaire publicado nas éditions de la Découverte em 2019.

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