A economia, por vezes, parece que se descola da sociedade

Ilustração: SFU/Wallpapersafari

A análise econômica por vezes se afasta tanto da realidade social que se torna incompreensível.

Flavio Fligenspan

Fonte: Sul 21
Data original da publicação: 18/07/2022

A Economia, por vezes, e dependendo dos analistas, se afasta da sociedade. Segundo matéria do jornal Valor, edição de 12.7.2022, p. A14 (“Ociosidade chega perto do limite e pressiona inflação”), para alguns economistas, neste momento a economia brasileira estaria próxima, ou mesmo já teria ultrapassado, o limite de um hiato do produto neutro. O hiato do produto é a diferença entre o produto real, o que está sendo efetivamente produzido, e o potencial, o que a estrutura produtiva de um país permite produzir. Quando o hiato é positivo (não neutro), se entende que esta economia está produzindo além de sua capacidade, portanto, há tendência de “corrigir” este desajuste por um aumento de preços: inflação.

É importante dizer que o produto real é medido por órgãos de estatística – no Brasil, o IBGE – com metodologia conhecida, consagrada e comparável internacionalmente. Já o produto potencial é uma variável não observável na realidade, ou seja, trata-se de uma estimativa que varia conforme diferentes metodologias e diferentes responsáveis pelo cálculo. Assim, obviamente, o produto potencial está sujeito a erros e a diversas interpretações sobre que variáveis compõem o cálculo e a forma de tratá-las. Se o produto potencial está sujeito a erros, o hiato do produto pode estar contaminado. 

A matéria do Valor também refere outra forma de ver o fenômeno do hiato positivo, através da taxa de desemprego. Deve-se referir que esta forma está longe de uma aceitação ampla e é muito sujeita a discussões teóricas. Sem fazer esta discussão aqui, para quem acredita nesta interpretação, a taxa de desemprego também teria um nível neutro a partir do qual, quanto menor o desemprego, maior a pressão sobre o mercado de trabalho, maiores os rendimentos médios dos trabalhadores e, portanto, maior a inflação. A ideia geral é a mesma, uma tentativa de usar um ou mais fatores de produção além do que está disponível na economia forçaria um ajuste via preços, já que não haveria mais resposta possível pelas quantidades. 

Assim, de acordo com a matéria do jornal, vários economistas de diferentes instituições entendem que a economia brasileira está num ponto limite a partir do qual aumentos de produção e redução do desemprego gerariam, inevitavelmente, inflação. Isto é, qualquer aumento de atividade daqui para a frente pressionaria nossa capacidade produtiva – usaria mais intensamente os fatores de produção –, o que levaria a uma inevitável expansão dos preços. É interessante destacar que a matéria refere a posição do Banco Central, para quem o hiato do produto é negativo neste momento.

Há uma qualificação importante a ser feita antes de seguir. Estes dois anos e meio de pandemia realmente alteraram muitos parâmetros da economia brasileira e se perdeu muita capacidade produtiva pelo caminho, tanto em termos de capital, como de recursos humanos. Muitas empresas fecharam, outras acumularam atrasos tecnológicos e desorganização produtiva – até mesmo na relação com seus fornecedores – irrecuperáveis. Pelo lado dos trabalhadores, muitos perderam seus empregos e tiveram que se adaptar a condições piores no mercado de trabalho, com diminuição de suas habilidades técnicas e produtivas e correspondente redução de rendimentos. Toda estrutura teve abalos em sua produtividade. Estas são perdas que não se recuperam ou só se recuperam com o passar do tempo, para as empresas e para os trabalhadores, contribuindo para rebaixar o chamado nível neutro. Em outras palavras, a mesma estrutura produtiva – instalações empresariais, trabalhadores, infraestrutura etc – de pré pandemia pode não ser suficiente para gerar o mesmo nível de produção hoje.

Isto é verdade, mas também é verdade que o PIB atual é ainda 1% inferior ao do início de 2014, antes da penúltima recessão enfrentada pela economia brasileira, há oito anos. E a taxa de desocupação atual é de 9,8%, correspondendo a 10,6 milhões de desocupados, com queda real de rendimentos em função, principalmente, da disparada da inflação. E dentre os ocupados, há 6,5 milhões de pessoas que querem e precisam trabalhar mais para ganhar mais, mas o mercado não lhes oferece esta oportunidade. Ou seja, há hoje muitos recursos subutilizados na economia brasileira, cuja desorganização, falta de planejamento e carência de um projeto orientador de médio/longo prazo fazem com que eles não sejam incorporados ao processo produtivo. Trata-se, em outras palavras, de um enorme desperdício de recursos e de talentos.

Fico imaginando o que pensaria um desempregado brasileiro diante desta análise, de que estamos no limite ou até já passamos do nível neutro para o hiato do produto e para a taxa de desocupação. E que, se houvesse crescimento e aumentasse a demanda por trabalhadores, isto causaria inflação. Poder-se-ia pensar que os desempregados deveriam se conformar com sua situação, porque, afinal, se voltassem ao mercado, seriam responsáveis pelo aumento dos preços no Brasil?

Ora, claramente não vivemos hoje uma situação de mercado aquecido no Brasil, nem para bens e serviços, nem para trabalhadores, e nossa inflação atual é devida a fatores de oferta, não de elevada demanda. A análise econômica por vezes se afasta tanto da realidade social, que se torna incompreensível. De qualquer forma, se alguém acredita num hiato do produto positivo e numa taxa de desocupação próxima da neutra neste momento, há que se fazer algo positivo com esta interpretação. Ela nos remete para a necessidade urgente da retomada dos investimentos, para aumentar a capacidade produtiva e podermos voltar a crescer sem pressões inflacionárias. E este incremento de capacidade deve passar pela combinação de investimento público e privado, porque, como ficou claro nos últimos anos, o setor privado não consegue bancar sozinho este projeto.

Flavio Fligenspan é professor do Departamento de Economia e de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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