Ameaçados pela ascensão do fascismo, trabalhadores declarariam independência da Itália.

Guilherme Daroit
Recém-anexada à Itália, que ganharia a região da Ístria em 1919 por sua colaboração na Primeira Grande Guerra, a cidade de Labin sediaria, por um mês de 1921, uma nova jurisdição. Criada pelos trabalhadores das minas de carvão da cidade, hoje parte da Croácia, a República de Labin respondia ao subjugamento da região à italianização, e às ameaças trazidas pela ascensão do fascismo. Democrática e participativa, a experiência, encarada como o primeiro levante antifascista, logo seria esmagada, mas serviria de farol para a luta que rondaria a Europa nas décadas seguintes.
Região multiétnica com maioria croata, a península da Ístria, até então pertencente ao Império Austro-Húngaro, seria anexada ao vizinho Reino da Itália após o fim da guerra. Labin, chamada de Albona em italiano, era um dos polos da região, sendo o centro da extração de carvão. Ao todo, eram três minas na cidade, que empregavam cerca de 2 mil trabalhadores de diferentes origens.
Com a anexação, um processo de italianização seria iniciado na região, buscando a supressão das demais identidades. Já sob tensão por conta das más condições de trabalho e baixos salários, os mineiros ainda passariam a lidar com o envio de italianos para os cargos de chefia nas minas, que adotavam políticas discriminatórias às outras etnias.
Em fevereiro de 1921, a gerência italiana das minas tomaria outra decisão que desagradaria os trabalhadores. Alegando faltas ao trabalho, os bônus salariais referentes ao mês deixariam de ser pagos. O motivo era o respeito dos mineiros à celebração cristã do Dia da Candelária, em 2 de fevereiro, data importante para os trabalhadores, cujo feriado havia sido unilateralmente abolido pelos proprietários.
O avanço do fascismo também ameaçava os trabalhadores. Força emergente no cenário italiano que chegaria ao poder em 1922, os fascistas já mostravam suas garras no início de 1921. À época, adentravam a região os camisas negras, a milícia dos fascistas, buscando atacar os trabalhadores socialistas locais. Em Trieste, a poucos quilômetros de Ladin, atacariam e incendiaram espaços do sindicato dos empregados das minas de carvão, aumentando ainda mais a tensão política.
No início de março, outra ação dos camisas negras detonaria a rebelião. A caminho de Ladin a partir de Trieste, o líder dos trabalhadores, Giovanni Pippan, seria interceptado e agredido por fascistas na estação de trem em Pazin, cidade em meio ao trajeto. A notícia do ataque, chegada às minas no dia seguinte, seria a gota d’água.
Em 3 de março, dispostos a protegerem seus locais, os trabalhadores decidiriam por assumir o comando das minas. O levante, bem-sucedido, resultaria também na criação de uma “brigada vermelha”, destacamento armado e escolhido entre os próprios mineiros e outros moradores da cidade, com a função de garantir a segurança e coibir novos ataques dos milicianos fascistas.
No dia 7, então, o movimento ganharia em escala. Sob a bandeira de que as minas eram dos trabalhadores, os mineiros declarariam a independência de Labin da Itália, instituindo um regime republicano socialista e desafiando os poderes estabelecidos.
A administração seria um exercício de autogestão, com a eleição, por exemplo, de delegados para a direção das minas, demonstrando que os próprios trabalhadores poderiam gerir os negócios sem a intervenção de autoridades externas. Condições de trabalho mais justas, há tempo desejadas pelos mineiros, seriam logo adotadas.
Além disso, a interlocução com a comunidade ao redor das minas não era relegada a segundo plano. Com o apoio dos moradores, muitos deles ligados a funcionários da indústria extrativa local, cadeias de suprimento de alimentos aos moradores seriam estabelecidas. Assembleias eram constantes, com a discussão de temas do cotidiano e também outros, mais amplos, como a importância do trabalho para a sociedade.
A experiência resistiria por pouco mais de um mês. Provocado pelos proprietários das minas, o poder italiano entraria em jogo em abril, enviando forças militares para a reintegração do território. Em 8 de abril, mais de mil militares italianos cercariam as minas e as retomariam após sufocarem a resistência dos trabalhadores, encerrando a curta vida da República de Labin. Pelo menos três mineiros acabariam mortos, e outros 50, embora oficialmente acusados de crimes, seriam futuramente absolvidos.
Ainda que de curta duração, o levante se tornaria exemplo para a região e mesmo para a Europa. Multiétnica, a rebelião seria considerada a primeira iniciativa de combate armado antifascista, indicando os caminhos para o enfrentamento.
Guilherme Daroit é jornalista e bacharel em Ciências Econômicas, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente, é diretor do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região.

