O trabalho da consciência em O Agente Secreto de Kleber Mendonça

Foto: Victor Jucá/Divulgação

Glaucia Campregher

Imagino que quase todos os leitores aqui já devam ter visto O Agente Secreto, de Kleber Mendonça, como devem ter ouvido falar de seus prêmios lá fora e seu sucesso aqui dentro. Os mais antenados, pras coisas da indústria cinematográfica, devem saber também que o filme fez mais de R$50 milhões (até esta data) e está entre as 5 maiores bilheterias da década. Pois então, vez por outra filmes sérios e algo incômodos como O Agente Secreto, Ainda estou aqui e outros em outras épocas, conseguem entrar nos bolsos esvaziados e nos corações e mentes cansados do nosso povo que, talvez por isso mesmo, prefere ir ao cinema pra ver filmes de humor, sexo e religião, que pouco mexem na sua alienação. Como conseguem? Bem, na minha reflexão de hoje vamos pensar, pegando O Agente Secreto pra analisar. 

Pra começar, vejamos o que em O Agente Secreto causa incômodo, ainda que um incômodo respeitoso às consciências cansadas. Em primeiro lugar, o título (!), pois o consumidor de cinema menos treinado vai se perguntar, afinal quem é o “agente secreto” do filme? E, sim, não há um propriamente, mas acredito que a inteligência sensível do nosso povo (que ainda existe a despeito dos anos de redes antissociais e aparelhos celulares) percebe que a realidade mostrada no filme faz com que todos sejam o tipo. Aliás, Kleber pra mim, faz realismo realístico, até quando faz realismo fantástico, justamente por isso. Ou a primeira cena – com aquele cadáver no chão, sob moscas e papelão de quem não sabemos nada de cara nem saberemos nada até o fim – não grita que fazemos todos parte de uma tramoia complicada, queiramos ou não!? 

Indo mais a fundo, sabemos que os agentes secretos, nas telas ou fora delas, são pessoas um tanto esvaziadas de si. Pessoas que frequentemente precisam se fazer passar por outras pessoas e devem passar pelas vidas das pessoas com quem cruzam sem deixar rastros de si. Precisam sacrificar também, junto com seus laços pessoais, seus laços temporais. Os melhores agentes não têm ninguém e também não têm história, passado, memória. Pois quanta gente no filme de Kleber não foi arrancada de seu contexto, afastada de seus entes queridos, roubada de seu passado? Não é só Armando, o professor pesquisador vivido por Wagner Moura, que virou uma pessoa que se esconde, usa outro nome, vive um presente tenso, longe de quem ama, e corre atrás de seu passado (o registro da mãe, as memórias da esposa, o poder de quem o abateu) enquanto tenta sair vivo de algo maior que o engole – e sai, ao final, ainda que só como história que alguém recupera. Nem vivem situação similar apenas todos os hóspedes de Dona Sebastiana. Além dos perseguidos mais diretamente por alguma ditadura ou algum inimigo poderoso (que as ditaduras frequentemente favorecem), há os perseguidos pela pobreza e miséria, e por uma violência tão corriqueira que torna a falta de tudo, de laços, de passado e futuro, normal. Desse modo há no filme agentes secretos os mais curiosos, do judeu fugido que se faz passar por ex-soldado nazista à perna cabeluda que, sem corpo, sem dono e sem nada, é testemunha do que não devia e promete ser n vezes sacrificada. Mas meu agente secreto preferido é o assassino escondido no porto, como mero trabalhador. Qual perfeito 007 periférico (sem olhos azuis ou modos elegantes) ele engambela o agente do sistema  e usa sua ferida sanguinolenta pra realizar sua vingança cruenta. Esse é um que se salva, não só de morrer, mas de ser instrumentalizado pelo poder.

Outra coisa que causa incômodo no filme é ele parecer ser uma trama sem pé nem cabeça, do mesmo modo que a perna que parecia não ter dono… Mas tem. Pra mim, é como se Kleber fosse um Sócrates do cinema, pois ele não entrega as historinhas tintim por tintim, primeiro porque a vida não faz assim; depois porque quer convidar o público pra tudo emendar. Vejamos, não sabemos bem porquê (e parece a muitos exagero) que um professor universitário venha a ser perseguido de morte por um industrial paulista qualquer. (Como também parecia exagero no realismo fantástico de Kleber o turismo assassino de Bacurau, até a realidade mostrar coisa igual…). Mas se pensarmos que a violência dos governantes na ditadura (que vemos espalhada em cenas aparentemente ‘nada a ver’ no filme) não pode ser trancafiada nas catacumbas dos Dops, que ela autoriza violências outras, regionais e setoriais, como precisa ser autorizada por estas, então podemos entender que isso é bem possível sim. Não sabemos muita coisa também dos demais personagens salvaguardados por Sebastiana, dos personagens que ajudam o professor ou dos mandantes e executantes dos crimes. Mas de todos estes temos alguma sugestão, sabemos coisas como: o casal fugido que fala na sala de Dona Sebastiana fugiu da guerra civil em Angola, o assassino contratado pra matar o professor matou a mãe do menino que com ele assassina, a esposa morta do herói aparece enfrentando o poderoso e mostrando sua fibra. Sabemos pouco desses todos, mas é como se soubéssemos o essencial. Não importa, por exemplo, saber se a mulher do professor morreu de morte matada ou morrida, é o medo imposto que importa.

Esse entrecortado de histórias, mais que mostrar que os personagens estão atrás de costurá-las, nos convida a fazer o mesmo – seja na história em tela, seja na nossa própria. É como se Kleber nos mostrasse que somos todos agentes secretos despatriados em nossa própria pátria, seja ela nossa terra (mais, ou menos) amada, seja nossa mente (mais, ou menos) estropiada. Por isso, todos deveríamos estar procurando costurar as histórias em torno de nós. Seja a do cadáver desovado no mar – cuja perna foi parar na mandíbula de um tubarão, tirada dali por uma cientista, roubada pela polícia implicada, e vista dando voltas na praça -, seja a história de nossas mães, cujos paradeiros sabemos mais, ou, mesmo estes, menos. Mais que tudo, Kleber interrompe bruscamente a história do herói. Mas seus momentos trágicos vão parar em fitas gravadas que são costuradas, mesmo que faltando pedaços, pela mocinha de um outro tempo e lugar, e é ela que vai à caça do filho vivo do herói morto. Essa personagem de última hora, pra mim, somos todos nós; que tanto somos convidados a costurar o que der como a viver em meio aos buracos. Isso é uma baita lição, incômoda mas necessária.

Os intelectuais cults que analisam este e outros filmes de nosso Kleber sabem dessa sua pira com história e memória, sociais e pessoais. Mas o que me encanta é o cineasta conseguir ganhar a gente mais cansada da vida descosturada. Ao meu ver ele consegue isso pela imagem. Se as histórias contêm elementos que incomodam, as imagens descansam. Kleber é muito bom em mostrar o lugar, seus cantinhos, seus carinhos a nos acolher. (Quem lembra o mimo que é o apartamento onde Dona Sebastiana aloja Marcelo? Pudera, era de sua filha, disse ela). Se a história tem seus percalços, o lugar nos calça com sapatos de cetim. E do lado de fora das casas, as cidades com suas ruas e gentes, cores e sabores, são mostradas de um modo tão vivo que nos parecem muito conhecidas. Isso conforta, abriga, nos torna quase que amigos dos personagens. O marqueteiro de Bolsonaro, que teve a ideia de filmá-lo num quintal com roupas no varal, deve ser fã de Kleber! Pois é, nem sempre o conforto é usado pra nos dar forças pra enfrentar o desconforto… 

A vida é dura, e mais ainda pra gente que corre o tempo todo como que fugindo de tiroteio, seja ele de balas ou de boletos. Nem todos nós conseguimos ser a fortaleza moral que é seu Alexandre, o pai e avô carinhoso, o homem compreensivo e do lado certo de tudo. Para nós, o afeto, a cerveja, o futebol, a comédia, o sexo e a palavra de deus, são essenciais. São eles que nos ajudam a suportar. Verdade que podem ser usados pra anestesiar até demais, daí que vem a necessidade de mesclar o conforto que nos dão com o desconforto que nos roubam. O afeto, a cerveja, o futebol, a comédia, o sexo ou a palavra de deus dão cor e luz à vida. Nada contra, tudo a favor. No filme de Kleber dão um brilho à história mal contada de muitas vidas . E é assim que ele convida ao trabalho da consciência. Este pode e deve ser feito em cima de tudo isso, ou melhor, com isso. Alguns conseguem. Brindemos.

 

Glaucia Campregher é professora aposentada de economia, ex-professora da UFU, UFRGS, UFBA e apaixonada por cinema.


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