Vanessa Silveira de Brito
Resumo: O artigo discute a relação entre tempo de trabalho e saúde mental, com foco na escala 6×1 como dispositivo de precarização. Diferenciam-se duas dimensões: a duração da jornada (número de horas) e a escala de trabalho (distribuição da jornada), que podem ocorrer isoladas ou combinadas, ampliando impactos sobre a vida dos trabalhadores. A partir de revisão bibliográfica, mobilizam-se categorias clássicas como fadiga, desgaste e esgotamento, articuladas a reflexões sobre precariedade subjetiva e sociedade do cansaço. Com base em autores da sociologia do trabalho, da psicologia social e em dados internacionais, argumenta-se que jornadas prolongadas e escalas restritivas comprometem a saúde mental. Ao final, defende-se a redução da jornada e o direito ao tempo de viver como medida de cuidado e resistência.
Sumário: Introdução: a urgência de olhar para o tempo | Trabalho e Tempo de Não-Trabalho: entre a história e o agora | A Escala 6×1 como produtora de precariedade subjetiva | Quando o tempo adoece: Trabalho, Sofrimento Psíquico e a Urgência de Cuidado | 4. Considerações Finais: o tempo como direito
Introdução: a urgência de olhar para o tempo
Vivemos um tempo que nos é constantemente tomado. Ele escapa entre plantões, domingos de descanso parcial e segundas-feiras atravessadas pelo cansaço acumulado. A lógica produtivista transforma o tempo em mercadoria e os corpos em engrenagens de um sistema que cobra mais do que pode ser entregue – sobretudo quando o preço é a própria saúde mental. Pensar jornadas extensas, em termos de duração e distribuição do trabalho, como dispositivos de adoecimento é, portanto, urgente.
A jornada de trabalho e a forma como ela se organiza no tempo são dimensões distintas, ainda que muitas vezes apareçam entrelaçadas. A duração da jornada refere-se ao número de horas semanais, diárias ou mensais, enquanto a escala de trabalho regula a distribuição desses dias e horas, determinando quantos dias consecutivos se trabalha antes do descanso. Um trabalhador pode enfrentar jornadas longas sem estar em Escala 6×1 ou, inversamente, estar em Escala 6×1 sem jornada extensa (Dal Rosso et Al., 2022). Diferenciar essas dimensões é fundamental para compreender os impactos do tempo de trabalho sobre a vida e a saúde dos trabalhadores.
Categorias clássicas da crítica do trabalho, como fadiga, desgaste, esgotamento e envelhecimento precoce, analisadas desde Marx (2013), permanecem relevantes. O tempo de deslocamento entre casa e trabalho, embora não contabilizado formalmente, impõe esforço adicional e revela facetas da precarização contemporânea. Em nível nacional, o tempo médio de deslocamento diário é de aproximadamente 41 minutos, com variações entre áreas urbanas e rurais (IBGE, 2019). A intensidade do trabalho será mencionada pontualmente, mantendo o foco na extensão e distribuição da jornada.
Este artigo se configura como um ensaio analítico baseado em revisão bibliográfica e análise de dados nacionais e internacionais. A seleção das fontes privilegiou referências clássicas e contemporâneas sobre crítica do trabalho, precariedade subjetiva e sociedade do cansaço, articuladas a evidências da OIT, OMS e órgãos nacionais. Essa abordagem permite examinar como a duração e a distribuição da jornada, especialmente na Escala 6×1, impactam a saúde mental e a vida dos trabalhadores.
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Vanessa Silveira de Brito é psicóloga. Doutora em Memória Social (UNIRIO). Docente do curso de Psicologia e do curso de Medicina da Uniabeu. Pesquisadora e atuante em organizações coletivas de trabalhadores, como fóruns e sindicatos.

