Assassinato do metalúrgico em greve de 1979 marcaria movimento sindical brasileiro.

Guilherme Daroit
Entre os grandes nomes do então nascente movimento que mudaria os rumos do sindicalismo e da política brasileira, Santo Dias teria sua trajetória brutalmente interrompida em 1979. Cria do campo e da Igreja progressista, se transformaria em líder metalúrgico e comunitário, até ser assassinado pela polícia, em meio à Ditadura Militar, durante uma greve. Já nascido Santo, viraria mártir do novo alvorecer da luta sindical e da Democracia no Brasil.
Nascido em Terra Roxa (SP), filho de meeiros, Santo partiria para a luta organizada antes mesmo da maioridade. Católico, seria a Igreja o berço de seu posicionamento político. Seu papel de redator de atas dos encontros paroquianos, onde demonstrava correção e poder de síntese, chamaria atenção dos militantes ali presentes, que o aproximariam dos ideais de esquerda.
Até então funcionário de fazenda, Santo organizaria ali sua primeira paralisação, exigindo a formalização do vínculo profissional dos trabalhadores. O contra-ataque do fazendeiro seria forte, recusando o pedido e ainda obrigando os funcionários a assinarem documento abrindo mão da carteira de trabalho, ordem que seria descumprida pelo adolescente. Em retaliação, seria expulso da propriedade junto de seus pais, que não o apoiariam por, na visão deles, ser ingrato ao patrão. Na fazenda seguiria apenas sua namorada, Ana Maria, que perderia as bênçãos do fazendeiro para o matrimônio.
Enquanto seus pais e irmãos virariam boias-frias, Santo optaria por uma mudança radical, se mudando para a capital, São Paulo, em busca de oportunidades urbanas. Lá, conseguiria emprego na Metal Leve, onde trabalharia por quase toda sua vida, adotando as vestes de metalúrgico que lhe acompanhariam para a eternidade.
Sempre ligado à Igreja, militaria na fábrica e no bairro. Na Vila Remo, onde se instalariam em definitivo, Santo e Ana, já casados, participariam da organização da Comunidade Eclesial de Base (CEB). No braço laico católico, incentivado pela Teologia da Libertação, compreenderiam que o sofrimento não é parte da condição humana, mas sim motor para a luta pela melhoria de sua situação. Dali, engajariam-se depois na construção dos Clubes de Mães e do Movimento contra a Carestia, onde Ana seria protagonista.
No trabalho, Santo se ligaria ainda nos anos 1960 ao grupo que formaria a Oposição Sindical Metalúrgica, que disputaria a direção das entidades da categoria, com apoio da Frente Nacional dos Trabalhadores, precursora da Pastoral Operária. Atuante junto aos colegas, lideraria a comissão de fábrica da Metal Leve, ganhando em relevância na corrente sindical que se organizava em contraposição ao poder dominante na entidade paulistana, encabeçada desde 1965 por Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão.
Sobreviventes ao auge da Ditadura Militar, que neutralizaria o movimento sindical brasileiro por quase 15 anos, as oposições ao sindicalismo tradicional passariam a aparecer com mais força a partir do fim dos anos 1970. Em 1978, no vizinho ABC paulista, onde as novas lideranças já haviam conseguido assumir a direção do sindicato, as greves começariam a ressurgir, com destaque para a paralisação na Scania.
Na capital, porém, a situação seria diferente. Ao lado de Anísio Batista, líder da comissão de fábrica da Toshiba, onde uma paralisação também seria realizada em 1978, Santo lideraria a chapa de oposição na eleição do sindicato. A disputa seria complicada. Às vésperas do pleito, o metalúrgico seria demitido da Metal Leve. Graças aos contatos com a categoria, conseguiria um novo emprego em uma empresa de fogões, garantindo a manutenção de sua candidatura.
Na eleição, entretanto, o grupo sairia derrotado, atribuindo o resultado a diversas fraudes cometidas pelo grupo dirigente. A denúncia não daria frutos. Apoiado pelo governo militar e até mesmo pelas forças de esquerda tradicionais, Joaquinzão garantiria sua posse, delimitando a zona de influência do emergente novo sindicalismo ao ABC.
No ano seguinte, porém, a oposição metalúrgica comandaria a categoria na campanha salarial. Em outubro, venceria a direção do sindicato na assembleia da categoria, garantindo uma pauta que pedia 83% de aumento salarial ou o encaminhamento de uma greve. Com a recusa dos empresários, a paralisação seria deflagrada em 28 de outubro, um domingo. Sem apoio da diretoria, a greve seria conduzida pela oposição, garantida por piquetes nas fábricas.
Surpreendidos pelas greves de 1978, os empresários e os militares já não o seriam em 1979. No próprio domingo, os comandos de greve seriam invadidos pela polícia, que levaria mais de 130 grevistas presos. A liderança do movimento migraria então para uma capela, de onde Santo sairia no dia 30 para um piquete em frente aos portões da Sylvania. Na empresa, a polícia novamente combateria os grevistas. Ali, enquanto negociava a liberação de um companheiro preso, Santo seria alvejado por disparo de um policial, que lhe tiraria a vida.

Já morto, seria levado ao hospital, onde os policiais lhe retirariam documentos e aliança, tratando-o como indigente. Seu corpo seria salvo por um paroquiano de plantão, que reconheceria Santo e exigiria rezar um terço para ele, ganhando tempo até a chegada de Ana. A presença da esposa, que não deixaria o carro fúnebre mesmo sob ameaça dos policiais, garantiria a chegada do corpo ao Instituto Médico Legal. Lá, o arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, os receberia, constrangendo os representantes do governo que, a partir daí, mudariam de atitude, prometendo rituais pomposos, que seriam negados por Ana.
Mesmo assim, o velório e enterro de Santo levariam quase 30 mil pessoas às ruas, exigindo liberdade sindical e o direito à greve. A repercussão do caso aumentaria ainda mais a força do novo sindicalismo, que se estruturava em todo o país, e ajudaria na desestabilização do regime militar. Santo se tornaria nome de ruas, prêmios, praças e parques. Na década seguinte, nasceria a Central Única dos Trabalhadores e se encerraria o regime ditatorial. Todos os anos, no aniversário de seu assassinato, amigos, sindicalistas e clérigos ainda organizam uma marcha até o local de sua morte.
Guilherme Daroit é jornalista e bacharel em Ciências Econômicas, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente, é diretor do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região.

