8 de fevereiro de 1944: nasce Sebastião Salgado, que eternizou “Trabalhadores”

Fotógrafo do povo, mineiro viajou o mundo documentando o ocaso do trabalho manual.

Guilherme Daroit

Economista de formação, o mineiro Sebastião Salgado ganharia o mundo em outra área. Ícone da fotografia documental, seus trabalhos eternizariam momentos e causas, como a luta pela reforma agrária, a exploração da terra e as agruras das migrações. Seria o retrato do trabalho, entretanto, que lhe conferiria o reconhecimento global. Publicada em livro originalmente em 1993, na Europa, sua série “Trabalhadores” documentaria as atividades ameaçadas pelo avanço da indústria, destacando o trabalho manual como protagonista da humanidade.

Produzidas entre 1986 e 1992, as fotografias destacam diversos trabalhadores manuais por todo o mundo. Com o subtítulo “Uma arqueologia da era industrial”, a obra propõe o retrato do trabalho físico em sua centralidade na história humana, em atividades que, com a adoção de novas tecnologias, já se prenunciavam obsoletas. Republicado trinta anos mais tarde, uma nova edição carregaria na capa uma frase de Salgado, dedicando a obra aos trabalhadores e a classificando como “um adeus ao mundo do trabalho manual, que está lentamente aparecendo”.

Ao todo, o livro contempla mais de 350 fotografias, divididas em seções que englobam agricultura, alimentação, mineração, indústria, petróleo e construção. O escopo de trabalhos é vasto, passando do garimpo no Brasil à construção de barragens na Índia, como apenas duas facetas das diversas trazidas por Salgado. Na Europa, por exemplo, são retratados os pescadores italianos da Sicília, os siderúrgicos da França e os trabalhadores da indústria automotiva russa, entre outras atividades.

A escolha artística, não só no livro como também em toda a carreira de Salgado, é pelas fotografias em preto e branco. Para ele, uma forma de não desviar o foco do que realmente interessa. A cor, para o fotógrafo, poderia chamar a atenção para elementos vistos como irrelevantes, como a camiseta utilizada pelo trabalhador, por exemplo, diminuindo o impacto da cena a ser retratada.

O registro é, na visão de Salgado, uma homenagem à classe trabalhadora. À época da captura das imagens, o fotógrafo percebera que o processo produtivo passava por novas revoluções, modificando também o próprio papel do trabalhador no modelo. Eternizar atividades que estavam a caminho do desaparecimento, ou pelo menos de uma grande transformação, se constituiria em motivação para Salgado, que justificava o interesse pelo tema argumentando que, por muito tempo, foi a classe trabalhadora a força-motriz para o seu ativismo político.

Mais do que uma reflexão sobre as mudanças, a série se constitui em um memorial sobre o que deixava de existir, intenção explicitada pelo subtítulo do livro. A visão atual do trabalho, constituído em grande parte de tarefas burocráticas, automatizadas ou de gestão, que já ganhava espaço à época, passa ao largo da obra.

Além do livro, publicado no Brasil pela primeira vez três anos após seu lançamento europeu, a série de fotografias renderia a montagem de diversas exposições no país e no mundo. Originalmente exposta em 1994, simultaneamente no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro e no Museu de Arte de São Paulo (MASP), a série já foi montada em mais de 80 endereços ao redor do mundo. No Brasil, sua última aparição foi realizada na Casa Firjan, no Rio, até setembro de 2025.

Nascido em Aimorés, no interior de Minas Gerais, Salgado se formaria em Economia, na Universidade Federal do Espírito Santo, em 1967, campo no qual faria também seu mestrado, dessa vez na Universidade de São Paulo. Militantes em grupos marxistas de resistência à Ditadura Militar, Salgado e sua esposa, Lélia Wanick Salgado, partiriam para o exílio em 1969, alocando-se em Paris, onde obteria o título de Doutor no mesmo campo do conhecimento.

No início dos anos 1970, com uma câmera Leica de Lélia, Salgado começaria a fotografar, e logo abandonaria sua antiga carreira em prol de sua nova paixão. Trabalhando em agências de fotografia, entraria em 1979 para a icônica Magnum, onde ganharia renome e também recursos financeiros que lhe possibilitariam incursões pelo mundo para projetos pessoais. Em 1994, fundaria com Lélia sua própria agência, a Amazônia Imagens.

Suas obras mais famosas, além de Trabalhadores, retratam a luta pela reforma agrária (Terra, 1997), as migrações (Êxodos, 2000) e a natureza (Gênesis, 2013). Multipremiado, Salgado foi membro da Academia de Belas-Artes francesa. Faleceu em maio de 2025, em Paris.

Guilherme Daroit é jornalista e bacharel em Ciências Econômicas, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente, é diretor do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região

 


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