27 de janeiro de 1881: greve dos jangadeiros acelera abolição no Ceará

Recusa dos velejadores em transportar escravizados resultaria no fim da prática no estado.

Guilherme Daroit

Bandeira que já tensionava os debates à época, o abolicionismo ganharia um apoio determinante no Ceará no início de 1881. Último elo entre os navios e a costa, os jangadeiros se recusariam, a partir de 27 de janeiro daquele ano, a transportar escravizados, praticamente inviabilizando a venda de humanos para as outras províncias. Meses depois, em agosto, uma última tentativa seria novamente rechaçada pelos velejadores, marcando posição definitiva pela abolição no estado. Três anos depois, em março de 1884, o Ceará seria pioneiro no fim da escravidão no Brasil, proibindo a prática antes do Império brasileiro, que só o faria em 1888.

Historicamente menos relevante no comércio negreiro, o Ceará já despontava como liderança pelo fim da escravidão. Desde 1868, uma lei provincial destinava recursos públicos para a compra da alforria de escravizados, e diversos grupos intelectuais, defensores da causa, ganhavam espaço na sociedade, que debatia vigorosamente o abolicionismo.

Ao contrário dos grandes centros, como o Rio de Janeiro, a Bahia e Pernambuco, a província, de povoamento tardio, era pouco dependente economicamente do trabalho escravo. Ainda que abrigasse um número razoável de escravizados, o contingente não consistia em fração do visto nas principais províncias. Isso porque o Ceará não possuía grande capacidade portuária e nem tinha sua economia centrada em grandes propriedades de monoculturas, principais demandantes da mão de obra. Na província, os escravizados se encontravam dispersos em pequenas propriedades, muitas vezes ajudando na produção de subsistência de pequenos proprietários.

Com o fim do tráfico internacional, em 1850, que fizera das demais províncias únicas fornecedoras para o Sudeste, dinamizado pela cultura do café, os valores pagos pelos escravizados só subiam. Quando afetados pela crise econômica desatada pela grande seca, iniciada em 1877, os proprietários se apoiariam ainda mais na venda interna de escravizados, transformada em salvação. O grande fluxo do Ceará para Rio e São Paulo, que diminuiria ainda mais a população cativa na província, daria ainda mais gás para os debates sobre a abolição.

O tema ganharia, então, uma grande propulsão por parte dos trabalhadores livres. Chamados ao transporte de escravizados para um navio que esperava no oceano com destino ao Rio de Janeiro, em 27 de janeiro de 1881, os jangadeiros dariam um basta à situação. Vitais para o transporte, já que faziam o trecho sem navegabilidade entre a Praia do Peixe (hoje Praia de Iracema) para embarcações maiores, os jangadeiros já integravam sociedades abolicionistas, sendo muitos deles escravizados libertos ou descendentes dos mesmos.

Um dos velejadores, José Luís Napoleão, que havia comprado sua própria liberdade e a de seus familiares, assumiria a liderança do movimento, seguido por todos os seus colegas. Alvos de tentativa de suborno e outras coações, os jangadeiros se manteriam firmes, protagonizando episódios de recusa até o dia 30 de janeiro.

Uma nova tentativa de embarque de escravizados em Fortaleza só aconteceria sete meses depois. Desafiando os jangadeiros, membros da elite política local programaram uma saída para 30 de agosto, incensando os ânimos. Até a data, lideranças do Exército defenderiam a posição dos jangadeiros, enquanto a Marinha, por sua vez, receberia instruções para atuar caso alguma confusão atrapalhasse o embarque na data.

Dessa vez liderados não apenas por Napoleão como também pelo jangadeiro Francisco José do Nascimento, então conhecido como Chico da Matilde, os velejadores armariam a sua segunda greve, da qual sairiam novamente vitoriosos. As cativas que seriam vendidas acabariam resgatadas pelos velejadores, e depois ajudadas na fuga. Com a vitória, o porto seria declarado definitivamente fechado para o comércio negreiro pelos abolicionistas, e nunca mais seria palco de embarques do tipo. Francisco, que ganharia maior fama entre as lideranças, ganharia futuramente a alcunha de Dragão do Mar.

Após os movimentos dos jangadeiros, o momento pelo fim da escravidão na província ganharia ainda mais força. Em 1883, seria indicado para a presidência local Sátiro Dias, simpático à causa, que passaria a negociar com os grevistas e demais personagens abolicionistas. No primeiro dia do ano, a então Vila de Acarape, hoje município cearense de Redenção, seria a primeira cidade a acabar com a escravidão. Em 25 de março de 1884, então, seria a vez do Ceará, primeira província a adotar a medida. Meses depois, o Amazonas seguiria o exemplo.

As regiões seriam as únicas a libertar os escravizados antes da Lei Áurea, medida nacional incentivada também pela repercussão da iniciativa cearense e do protagonismo dos jangadeiros, propagandeados em todo o Império pelas forças abolicionistas. Por conta do pioneirismo, o Ceará receberia o nome de Terra da Luz. Desde 2011, o 25 de março é marcado como feriado estadual cearense, comemorando a data magna da liberdade da população negra, acelerada por conta do movimento dos jangadeiros.

Guilherme Daroit é jornalista e bacharel em Ciências Econômicas, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente, é diretor do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região

 


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