Atlas comentado da Escala 6×1 no Brasil

Entidades responsáveis: Observatório do Estado Social Brasileiro; Associação Trabalho, Rede, Acompanhamento e Memória – TRAMA e Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro
Ano: 2025
Acesso: livre

O tempo de trabalho configura-se, por excelência, como o epicentro da histórica e contínua luta entre capital e trabalho. Desde a Revolução Industrial, a disputa pela regulação e redução da jornada laboral tem sido um dos motores das tensões sociais e da organização política da classe trabalhadora. A incessante busca do capital por maximizar lucros — especialmente por meio da ampliação do que Karl Marx denominou “tempo de trabalho excedente” — esbarra na resistência de trabalhadores e trabalhadoras que almejam condições de vida dignas e a livre fruição do tempo para além da labuta. A redução da jornada de trabalho jamais foi uma concessão espontânea do capital, mas sim resultado de uma luta multissecular, marcada por greves, manifestações e pressão política. A história do movimento operário global está intrinsecamente ligada à reivindicação por menos horas de trabalho, como forma de preservar a saúde física e mental, garantir tempo para formação, convívio familiar, lazer e participação na vida social e política.

O 1° de Maio simboliza essa resistência. A data rememora os mártires de Chicago, trabalhadores brutalmente reprimidos em 1886 por exigirem a jornada de oito horas. Seus líderes foram presos, condenados e assassinados, revelando o caráter violento do Estado burguês diante das demandas populares. Mais do que uma data comemorativa, o 1° de Maio é um lembrete constante da exploração capitalista e da necessidade de organização coletiva por direitos fundamentais — entre eles, a redução da jornada de trabalho. No contexto brasileiro contemporâneo, a luta pelo fim da escala 6X1 assume centralidade estratégica. Essa escala, que impõe seis dias consecutivos de trabalho com apenas uma folga semanal, intensifica a exploração da força de trabalho, gerando impactos severos na saúde, no bem-estar e nas relações sociais. Exaustão física e mental, dificuldade de conciliar trabalho com a vida familiar e restrição ao descanso e lazer são algumas das consequências desse regime.

A pesquisa nacional realizada com 3.775 trabalhadores em 394 municípios brasileiros revelou que 27% dos trabalhadores apresentaram atestados médicos no último mês e 21% relataram atrasos ao trabalho — dados que evidenciam o esgotamento gerado poressa jornada. A pesquisa também mostra que 33% gastam mais de uma hora e meia no deslocamento casa-trabalho, sendo que muitos ultrapassam 30 km por dia apenas na ida. A fadiga começa no trajeto e se prolonga ao longo da jornada, minando a saúde e o convívio familiar. Outros estudos indicam que 70% dos trabalhadores no Brasil enfrentam estresse ocupacional e cerca de 30% já apresentam sintomas da síndrome de burnout. Jornadas extensas, metas abusivas e o desequilíbrio entre vida pessoal e profissional transformam a classe trabalhadora em uma massa adoecida, com reflexos na produtividade e no tecido social. Além disso, a escala 6X1 é mais comum entre os jovens de 18 a 24 anos, predominantemente negros e periféricos, especialmente no comércio varejista, tal é o exemplo dos supermercados e call centers. Entre os operadores de caixa pretos, 89,7% são mulheres, evidenciando o recorte racial e de gênero do “roubo de tempo” promovido por essa lógica produtiva. Isso escancara o caráter estruturalmente desigual da escala 6X1, reforçando a urgência de seu enfrentamento.

 

 

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