Ataque a debulhadores por camponeses começaria revolta dos Swing, exigindo melhores condições de vida.

Guilherme Daroit
Salários em baixa, preços em alta, desestímulo ao apoio assistencial e a cobrança rígida de dízimo compunham um desafiador cenário para os trabalhadores rurais da Inglaterra no início do século XIX. O limite, entretanto, seria cruzado com a adoção dos debulhadores mecânicos de milho, capazes de substituir o esforço humano e, com isso, diminuir ainda mais as já escassas vagas de trabalho. Um levante contra a situação se iniciaria em agosto de 1830, com o esmagamento das máquinas em fazendas do sul da ilha, e rapidamente se espalharia por quase toda a Inglaterra, marcando a revolta dos Swing.
O primeiro ataque às máquinas que separavam o milho do pé, na noite de 28 de agosto, em Canterbury, marcava o esgotamento dos trabalhadores com a sua condição. O cercamento das terras comunais, que seguia avançando no fim do século XVIII, os havia impossibilitado de prover sua subsistência, obrigando-os a trabalhar para os agora proprietários de terra – a indústria e os serviços urbanos, a essa altura, se limitavam à parte norte do país.
A profissionalização do trabalho e abundância de mão de obra, aprofundada com a chegada de irlandeses à região, fazia com que os salários e a duração dos contratos se deteriorassem continuamente. Sem escapatória, restava o assistencialismo governamental, financiado pelos proprietários de terra e pressionado pelo número cada vez maior de demandantes, que também cortava paulatinamente o tamanho da assistência. O que não mudava era o apetite da igreja anglicana. Mesmo com as dificuldades, o dízimo seguia cobrado com rigor e sem redução, apertando ainda mais os camponeses.
O fim da década de 1820 viria, então, com as pás de cal para a situação. Anos de fracas colheitas resultariam em alta dos preços dos alimentos. E, por fim, os proprietários de terra passariam a adotar as máquinas debulhadoras, cada uma substituta de dezenas de trabalhadores justamente na atividade mais demandante de trabalho, até então realizada manualmente, batendo os pés de milho com um mangual.
O ataque da noite de 28 de agosto logo escalaria para outras agressões. Até o fim de outubro, mais de uma centena de máquinas debulhadoras seriam destruídas apenas no condado de Kent, onde o levante teve início. Aos poucos, o motim se espalharia pelo país, atingindo praticamente todas as regiões, ainda que a grande maioria dos incidentes tenha se concentrado no sul.
A destruição das máquinas, porém, não era o objetivo final do movimento, nem mesmo sua única estratégia. Em geral, o primeiro ato consistia no envio de cartas aos personagens vistos como responsáveis pelas dificuldades, como fazendeiros, párocos e os administradores da assistência garantida pela Lei dos Pobres, ameaçando-os caso nada mudasse nas condições de vida.
As cartas eram sempre assinadas com o nome de Capitão Swing, personagem criado para proteção dos trabalhadores, e que batizaria a revolta como um todo. A teoria mais aceita defende que o nome Swing (o ato de balançar, em inglês) tenha sido escolhido para representar o movimento do mangual ao debulhar o milho, ressaltando a atividade dos camponeses que perdia em importância com a mecanização.
Quando não conseguiam aumento nos salários, expansão no apoio assistencial, o abandono do uso de máquinas ou a redução no dízimo, os trabalhadores cumpriam suas ameaças. Normalmente à noite, incendiavam postos de assistência, armazéns da igreja, casas de ferramentas das fazendas, além da destruição das debulhadoras. Ainda que utilizassem como slogan a frase “pão ou sangue”, a violência se atinha à esfera material, sem ataques pessoais.
Ao fim do motim, poucos ganhos seriam conquistados. Enquanto algumas autoridades até cedessem às ameaças, a maioria não as aceitava, sem atender aos pedidos dos camponeses. A resposta seria dura, com quase 2 mil trabalhadores rurais levados a julgamento, naquele ano e no ano seguinte, por participação na revolta. Mais de 250 deles seriam condenados à morte, dos quais 19 teriam a pena cumprida. Outros 600 seriam presos, e cerca de 500 seriam enviados para colônias penais na Austrália. Em 1834, a Lei dos Pobres seria reformada, tornando ainda mais difícil o acesso à assistência.
Guilherme Daroit é jornalista e bacharel em Ciências Econômicas, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente, é diretor do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região.

