7 de abril de 1859: nasce Adelina, a charuteira, símbolo abolicionista do Maranhão

Escrava de ganho’ usava liberdade de ir e vir para ajudar outros escravizados a se libertarem

Guilherme Daroit

Filha do abuso de uma escrava por seu senhor, a jovem Adelina, nascida em 1859 em São Luis, se transformaria em um elemento essencial para a luta abolicionista na província do Maranhão. Incubida da tarefa da venda de charutos às ordens de seu pai, Adelina transitaria por toda a capital, adquirindo conhecimento e confiança que lhe possibilitariam ajudar na libertação de diversos outros escravizados, transformando-se em símbolo da luta pela liberdade no Maranhão.

Nascida em 7 de abril daquele ano, Adelina seria batizada na Igreja Católica em novembro. Filha do proprietário de escravos João Francisco da Luz e da escrava Josepha, conhecida como “Boca da Noite”, sua trajetória seria incomum em relação aos demais escravizados. Alfabetizada, Adelina aprenderia não só a ler e escrever, como também a costurar e bordar, habilidades que lhe abririam portas na sociedade local.

Cuidadora de todos os filhos de João Francisco, sua mãe receberia, em seu leito de morte, a promessa de que Adelina seria alforriada assim que atingisse a idade adulta. Ainda que haja versões que sustentam sua alforria aos 17 anos, o mais provável é que o trato não tenha sido cumprido. Adelina, então, teria se transformado em escrava de ganho de seu próprio pai, empobrecido e em busca de fontes de renda. Fato é que, por obrigação ou opção, Adelina sairia pela cidade a vender fumo e charutos, produzidos em seu lar.

Encarregada das vendas, passaria a circular livremente e desacompanhada pelas ruas de São Luís, que com o tempo, conheceria por completo. Entre os locais visitados, Adelina se tornaria fornecedora dos jovens estudantes do Liceu Maranhense, colégio criado como espaço de formação da elite local. Com eles, conheceria a causa abolicionista, e se engajaria na luta pela libertação dos escravizados, participando de passeatas e manifestações em prol da abolição.

Seu papel, entretanto, não se limitaria a ações passivas. Tendo como trunfo sua condição de vendedora de charutos a quase todo o público da cidade, Adelina transitaria por todas as ruas e todos os círculos sociais. Aos poucos, se transformaria em planejadora e sentinela da fuga dos escravizados.

Em meio aos senhores de escravos, também consumidores de seus charutos, Adelina descobria suas rotinas e planos, que prontamente informava aos colegas de luta abolicionista. Sempre nas ruas, aprendia também a posição da polícia e calculava as rotas possíveis para desviar das batidas, permitindo o planejamento de fugas por parte de escravizados e abolicionistas, que diminuiam, e muito, o risco de captura no processo. Em alguns casos, a própria Adelina se envolvia pessoalmente na escapada, articulando o trajeto e o destino de escravizados, sem levantar suspeitas de seus clientes.

Uma das lendas sobre sua atuação diria que, sempre que conseguia informações importantes para os estudantes, os avisava fumando ela mesma um de seus charutos, alertando o grupo de abolicionistas.

Mais tarde liberta também ela, Adelina continuaria apoiando a luta pela abolição no Maranhão. Sua trajetória, todavia, seria perdida pela história. Seu rosto jamais seria documentado, assim como não teria registro também o seu falecimento, de data e causa até hoje desconhecidos. Apesar disso, sua atuação se tornaria símbolo da luta pelo fim da escravidão no Brasil, celebrada como recordação de que a luta abolicionista, no país, também foi encampada por mulheres negras escravizadas, muitas vezes esquecidas na memória sobre o movimento.

Guilherme Daroit é jornalista e bacharel em Ciências Econômicas, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente, é diretor do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região

 


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