53% dos influenciadores digitais dependem de trabalho CLT

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Crédito: Pexels

Ser influenciador digital se tornou uma das carreiras mais desejadas pelas novas gerações. A promessa de autonomia, visibilidade e dinheiro rápido atrai milhões de brasileiros para as redes sociais em busca de uma oportunidade de ascensão. Mas o que está por trás desse fascínio? Os números contam uma história bem diferente do glamour ostentado nos perfis.

Segundo dados da plataforma Influenci.me, o Brasil já tem mais de 2 milhões de criadores de conteúdo cadastrados, um aumento de 64% em apenas um ano. No entanto, cerca de 60% deles declaram ganhar até R$ 2 mil por mês com as redes. Ao BdF Entrevista, Issaaf Karhawi, professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e autora do livro “De Blogueira a Influenciadora”, falou sobre esse mercado em expansão, mas ainda bastante desigual.

Para Karhawi, o desejo de se tornar influenciador está ancorado em uma narrativa cuidadosamente construída nas próprias redes. “Os influenciadores compartilham aspectos da própria vida o tempo inteiro. Isso faz parte da dinâmica da influência: uma mescla entre conteúdo pessoal e comercial. Mas nessa possibilidade de falar da própria vida, se constrói também uma narrativa muito encantadora de uma vida luxuosa, de recebidos, presentes de marcas, viagens, convites.”

Essa vida espetacular se associa a uma suposta democracia de acesso. “Eu posso ter um perfil no Instagram, no YouTube, meu próprio canal. Preciso de um login, de um celular. Essa ideia supostamente democrática de entrada livre no mercado, associada à narrativa do luxo, constrói esse desejo”, explica a pesquisadora.

Karhawi alerta que o mercado de influenciadores se assemelha às indústrias criativas, regido pela lógica do “vencedor que leva tudo”, o chamado “winner takes it all”. “Essa ideia de que alguém vai ser o blockbuster, o filme mais assistido, a música mais ouvida, se replica na lógica dos influenciadores. O mercado altamente saturado vai gerando diversas precariedades numa base importantíssima, enquanto a gente tem uma pirâmide que vai ficando cada vez menos ocupada.”

Apenas cerca de 30% dos criadores vivem integralmente dos ganhos da influência, segundo pesquisas do setor. A última edição do estudo “Creators e Negócios” mostrou que 53% daqueles que se intitulam criadores de conteúdo ainda dependem de um trabalho com carteira assinada. “Isso já descortina um pouco esse luxo e mostra que a gente está falando de um trabalho que, como qualquer outro, depende de tempo de atuação para se consolidar”, afirma Karhawi.

Um dos pontos centrais da análise da professora é a compreensão do influenciador como um trabalhador de plataforma. “Não se trata só de uma atuação que tem a ver com empreendedorismo digital, com uma suposta autonomia. O influenciador depende quase que integralmente das dinâmicas das plataformas. Está à mercê das lógicas algorítmicas, que definem as regras do jogo, o que pode e não pode ser feito, e também o ritmo de trabalho.”

Ela explica que muitos influenciadores buscam a profissão pela liberdade, por não ter um chefe, mas “existe um chefe invisível, maquínico, que define a regra, diz quantos vídeos você tem que fazer por dia, te penalizando quando você produz menos do que o esperado, na velocidade esperada, no formato esperado”.

Karhawi observa uma transformação no mercado nos últimos anos, com a passagem do que se chamava “mercado de influência” para a “creator economy” (ou economia dos criadores, na tradução). “Essa mudança tenta dar contorno a um mercado que mudou sobretudo por conta das plataformas”, explica.

Na lógica tradicional, os influenciadores dependiam exclusivamente das publicidades com marcas, uma relação frágil, pois o conteúdo pode não alcançar o público esperado devido às ingerências algorítmicas. “Quando tem muita gente produzindo conteúdo, não vai ter publicidade para todo mundo fazer”, pontua.

A saída encontrada por muitos foi diversificar as formas de monetização: venda de cursos, comunidades pagas, clubes de leitura, vaquinhas virtuais, produtos próprios. “Os influenciadores tentam não colocar todos os ovos na mesma cesta, apostando em uma pluralidade de atuação para ter uma carreira mais longa e escapar dessa lógica das plataformas. Mas é muito difícil, porque a lógica da plataformização penetra todas as instâncias do trabalho do criador.”

A pesquisadora aponta que a própria arquitetura das plataformas é desenhada para que, ao final de qualquer interação, se realize uma transação comercial. “Mesmo que o influenciador escape dessa prática, a plataforma se organiza assim. A gente vê tentativas, movimentos para sair disso, mas há sempre uma contradição inerente.”

Ela cita pesquisas que realizou com influenciadores políticos e de saúde para a Unesco: “Uma questão que aparecia com muita frequência era a constante sensação de contradição. Como falar de política pensando de forma contrária à política das plataformas dentro das plataformas? Como falar de saúde tendo que combater um discurso desinformativo que é propulsionado pelas plataformas, que ganha ainda mais visibilidade nessa economia da atenção?”

Sobre a regulamentação da profissão, Karhawi considera a discussão “importante, urgente e dificílima”. O primeiro desafio é definir quem é e quem não é influenciador. “Como enquadrar um aspirante, alguém que ainda não vive da renda da influência? Temos um problema de categoria que precisa ser resolvido.”

Ela defende que a regulamentação das plataformas impacta diretamente o trabalho dos influenciadores, tenhamos ou não uma profissão regulamentada. “O trabalho dos influenciadores é organizado a partir de instâncias legitimadoras diferentes: os públicos, a mídia, os pares, o mercado publicitário e as plataformas. As plataformas legitimam, mesmo sem querer, no sentido de que a pessoa está jogando o jogo das plataformas e conquistando visibilidade. Precisamos questionar como se dá esse processo.”

Karhawi cita o exemplo das casas de aposta e da amplificação algorítmica de discursos de ódio. “O que é permitido fazer, dizer, construir nesse ambiente? A regulamentação do que circula nas plataformas é importante e vai impactar parcialmente a atuação dos influenciadores quando a gente conseguir pensar estratégias de regulamentação do debate público nas plataformas de maneira geral.”

Questionada sobre propostas de formação acadêmica obrigatória para influenciadores — como uma lei recentemente aprovada na China para determinadas temáticas —, a professora pondera. “Sou professora universitária, defendo educação gratuita e formação crítica. Mas quando se fala em criar uma faculdade para influenciadores, questiono: o que estamos deixando de fora? Como formar um trabalhador de plataforma?”

Ela aponta o desafio dos “borrões entre o conteúdo pessoal e o comercial”, que geram crises éticas no mercado. “Esse borrão faz com que influenciadores enganem seguidores quando vão fazer uma publicidade, ou se posicionem sobre temas de saúde como se fossem autoridades. Há espaços nebulosos que geram problemáticas gravíssimas.”

Karhawi defende a educação midiática como caminho fundamental. “Os influenciadores não se veem como trabalhadores, se enxergam como empreendedores, sujeitos empresários de si, nessa lógica de subjetividades neoliberais. Um trabalho importante que a gente tenta fazer é falar sobre isso, mostrar que existe esse outro universo da influência.”

Para ela, jogar luz sobre a base da pirâmide, esse “exército de influenciadores trabalhando honestamente todos os dias sem enganar ninguém”, é essencial para entender a sociedade e as dinâmicas das redes. “Entender isso faz a gente também entender qual é o nosso papel como seguidores, como públicos que legitimam cada influenciador em cada curtida, cada decisão de seguir ou não seguir alguém.”

Fonte: Brasil de Fato
Texto: Luana Ibelli e Thabita Ramalho
Data original da publicação: 11/03/2026


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