24 de janeiro de 1835: escravizados se rebelam em Salvador na Revolta dos Malês

Maior levante de escravizados urbanos do Brasil acabaria dizimado em menos de 24h.

Guilherme Daroit

Principal rebelião de escravizados urbanos ao longo da larga história escravocrata brasileira, a Revolta dos Malês tomaria a antiga capital, Salvador, na noite de 24 de janeiro de 1835. Planejado para o dia seguinte, o levante, protagonizado por parte dos negros africanos muçulmanos que perfaziam grande parte da população local, acabaria denunciado, sendo antecipado à força. Sem o fator surpresa, a revolta seria rapidamente contida, resultando em prisões, deportações e execuções, encerrando as pretensões de liberdade e de poder dos participantes.

Largamente dependente da mão de obra negra, Salvador possuía, à época, cerca de 40% de sua população escravizada, sendo a grande maioria de origem africana. A região vivia o terceiro ciclo do tráfico humano, com a captura de pessoas em áreas hoje parte do Benim e da Nigéria, principalmente das etnias iorubá e hauçá. Em grande parte muçulmanos, muitos deles alfabetizados em árabe, professavam sua fé às escondidas no Brasil, em locais e comunidades travestidas com símbolos católicos.

Em Salvador, centro urbano, eles exerciam o papel de “negros de ganho”, devendo a seus donos a maior parte dos rendimentos que auferiam realizando serviços como barbeiros e alfaiates, entre outros. A característica da atividade, entretanto, lhes conferia maior liberdade em relação a outros escravizados, como os mantidos em fazendas, pois lhes permitia maior contato com os seus pares. Mesmo de etnias diversas, em alguns casos oriundos de reinos inimigos em sua terra natal, uniriam-se no Brasil por meio da religião em comum, além do desejo de liberdade.

Organizados pela fé, os escravizados teriam, como estopim, a prisão de um dos líderes religiosos da população. Pacífico Licutan, conhecido como Bilal, em homenagem a um dos companheiros do profeta Maomé. Após a morte de seu dono, no ano anterior, Bilal seria apreendido pelas autoridades, que buscavam vendê-lo para quitar as dívidas do falecido. O ato revoltaria os seus seguidores, que, anteriormente, já buscavam formas de arrecadar recursos para garantir a alforria do líder.

Dessa forma, cerca de 600 pessoas participariam de um levante previamente planejado para o dia 25 de janeiro, com objetivos, ainda que nunca claramente definidos, de mudança na situação que viviam os escravizados. Entre os planos, estava a libertação de Bilal, que seria viabilizada distraindo a polícia com incêndios e ataques coordenados em diversos pontos da cidade.

O domingo atendia a questões religiosas e estratégicas. Por um lado, a data marcava o ocaso do Ramadã, mês sagrado dos muçulmanos. Além disso, entretanto, marcava também uma das comemorações da festa do Nosso Senhor do Bonfim, na qual grande parte da população branca comparecia à igreja em questão, deixando vazio o centro da cidade. Excluídos da celebração, cabia aos escravos tarefas cotidianas, na rua, facilitando o encontro dos mesmos.

Um dia antes, entretanto, o levante dos malês, nome derivado do termo em iorubá para “muçulmanos”, utilizado na Bahia para descrever os escravizados que seguiam o Islã, acabaria denunciado. Uma africana liberta, tentando impedir a participação do marido, avisaria sobre os planos à polícia, que enviaria patrulhas às ruas para conter o movimento.

Surpreendidos, os revoltosos iniciariam os atos na noite do próprio dia 24, quando uma parte do grupo entraria em confronto com os policiais, tentando chegar até a cela de Bilal. Ao mesmo tempo, diversas batalhas explodiriam pela cidade. Fora do planejamento inicial e com equipamentos muito inferiores aos armamentos das forças de segurança, os escravizados não resistiriam à brutal repressão.

Em menos de 24 horas, a revolta acabaria dizimada. Todos os envolvidos seriam presos ou mesmo mortos, destino de pelo menos sete dezenas dos rebeldes. Os demais seriam julgados e condenados, em grande parte, a centenas de chibatadas. A grande maioria seria, posteriormente, condenada à venda para outras regiões ou à deportação forçada de volta à África, e dezesseis seriam sentenciados à morte, ainda que apenas quatro sofreriam, de fato, a execução.

O levante deixaria marcas na sociedade. A partir dali, qualquer reunião de quatro ou mais escravizados passaria a ser combatida, com direito a qualquer pessoa dar voz de prisão caso presenciasse um encontro do tipo. A conversão ao catolicismo também se tornaria obrigatória, com multa aos senhores cujos escravizados não o fizessem em no máximo seis meses. Logo, o islamismo passaria a ser renegado, diluído no sincretismo religioso que marcaria a região. Por outro lado, porém, tornava latente a luta pela liberdade, somando aos esforços negros pelo fim da escravidão, que só viria meio século depois.

Guilherme Daroit é jornalista e bacharel em Ciências Econômicas, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente, é diretor do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região

 


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