15 de janeiro de 1842: nasce Paul Lafargue, autor de “O Direito à Preguiça”

Panfleto revolucionário do fim do século XIX criticava ode capitalista ao excesso de trabalho.

Guilherme Daroit

Reduzir a carga de trabalho para que os trabalhadores possam aproveitar a vida. A bandeira, em voga com a atual discussão sobre a redução na escala diária no Brasil, não é novidade na história da classe operária. Já em 1880, quando publicado originalmente em uma série de artigos de jornais, o livro O Direito à Preguiça defendia a importância do tempo fora das fábricas para o atingimento da verdadeira essência humana por parte dos trabalhadores. Obra de Paul Lafargue, genro de Karl Marx e prócer socialista na França,

o panfleto se transformaria em um dos grandes documentos da história do socialismo.

Contraponto às demandas por maior carga horária, o título do livro antagoniza com a bandeira pelo Direito ao Trabalho, símbolo da revolução francesa de 1848, que daria início à Primavera dos Povos que assolaria a Europa naquele ano. No levante, em meio à crise de desemprego que afetava a França, os representantes dos operários demandariam o direito ao trabalho, que seria garantido pela Segunda República com a criação das oficinas nacionais.

Lafargue criticaria diretamente o movimento, alegando que a exigência, assim como a aprovação de jornadas de 12h diárias, eram “uma vergonha para o proletariado”. Para o autor, os franceses já estariam degradados pela “religião do trabalho”, pois, ao aceitarem as longas jornadas e, em alguma medida, até mesmo as desejando, estariam eles mesmos destruindo seus lares, jogando também suas esposas e filhos para as dores do trabalho forçado.

A escolha pelo termo religião do trabalho não é por acaso. Na obra, Lafargue sustenta que a burguesia, ao ascender com o avanço do capitalismo e confrontar as práticas e costumes religiosos que balizavam o feudalismo, trocava o Deus cristão pelo progresso. Seriam os capitalistas, sustenta o autor, a abolirem os diversos feriados mantidos historicamente pela Igreja, delegando aos trabalhadores mais dias de serviço, retirando deles grande parte dos poucos espaços de lazer e reflexão que lhes restavam.

A crítica à normalização de jornadas exaustivas é, então, o ponto de partida principal da obra. No livro, Lafargue resgata experiências anteriores, em especial a Grécia Antiga, onde o trabalho era visto como castigo, relegado aos escravos, e o tempo livre, uma virtude, propulsor de avanços nas ciências, nas artes e nos cuidados do corpo e da mente. A preguiça, entendida como a negação ao trabalho assalariado capitalista, seria portanto condição para que os proletários completassem sua existência nas esferas física, política, familiar, artística e acadêmica.

Além disso, Lafargue comentaria que a mecanização do trabalho, crescente no período, deveria ser aliada dos operários. Ao expandirem em milhares de vezes a capacidade produção, o uso de máquinas tinha o poder de liberar os humanos para as atividades que julgava realmente importantes. Com os trabalhadores descansados, a produção também não deveria sofrer. Como exemplo, é citada o caso de firmas na Inglaterra que reduziram as jornadas em duas horas e, com isso, aumentaram em um terço sua produção.

Em seu escrito, o autor defende que a jornada de trabalho poderia ser reduzida a três horas por dia, criticando, assim, a timidez dos movimentos operários que, à época, demandavam uma jornada de 8 horas. Hoje normal, a carga horária era vista como revolucionária, em um cenário de jornadas de 12 horas. Lafargue via como uma “estranha loucura” a paixão do proletariado francês pelo trabalho assalariado.

A crítica do socialista, entretanto, se voltava também à burguesia. Infligindo o excesso de trabalho aos operários e a adoção de tecnologias, as decisões dos empresários levavam à superprodução. Os trabalhadores, entretanto, não podiam usufruir dos avanços. Reclusos dentro das fábricas, não possuíam tempo nem energia para desfrutar de qualquer bem, e, com os salários miseráveis, não possuíam poder aquisitivo para possuí-los. Ao mesmo tempo, a burguesia jogava então os operários à superprodução e, eles mesmos, ao superconsumo.

Defensores do trabalho desde a ascensão do capitalismo, os burgueses, então, limitavam a sua posição apenas ao discurso, afastando-a da prática. Tornavam-se cada vez mais ociosos, apartando-se do trabalho e encerrando em si mesmos a possibilidade de usufruto das benesses do avanço produtivo. Sem consumidores, obrigavam a Europa também ao colonialismo, vendo as novas terras como eldorados da distribuição da superprodução a que se obrigavam. O novo mundo, todavia recebesse os produtos europeus, não aceitava a religião do trabalho, segundo o autor, usando como exemplo o trabalho camponês, feito na América com grande mecanização por recusarem-se os camponeses a trabalharem como animais.

Nascido em Cuba, onde seu pai, francês, possuía uma fazenda de café, Lafargue se formou acadêmica e politicamente na França, onde estudou medicina e aderiu, inicialmente, ao anarquismo de Proudhon, pelo qual integraria a seção francesa da Primeira Internacional. Expulso das universidades do país, migraria para Londres, onde passaria a conviver com Karl Marx, de quem tornar-se-ia genro ao casar com Laura Marx.

Após breve passagem pela Espanha, retornaria à França, já socialista e crítico do anarquismo de Bakunin, onde escreveria O Direito à Preguiça. A série de artigos seria editada em livro em 1883, que seria rapidamente traduzido para várias línguas. Em 1911, Lafargue e Laura cometeriam suicídio, explicando, em sua carta, que deixavam a vida antes de a velhice, que já os afetava fisica e psicologicamente, roubar-lhes os prazeres e alegrias.

Guilherme Daroit é jornalista e bacharel em Ciências Econômicas, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente, é diretor do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região

 


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