11 de janeiro de 1912: começa greve por “pão e rosas” em polo têxtil dos EUA

Liderada por imigrantes, paralisação em Lawrence duraria dois meses contra redução salarial.

Guilherme Daroit

Um dos corações da indústria têxtil estadunidense, a cidade de Lawrence, próxima a Boston, seria também o foco de uma das greves mais importantes do país. Empregadoras de mais de um terço da população, as tecelagens abririam o ano de 1912 reduzindo a carga horária dos operários. Em sua maioria imigrantes, eles paralisariam as atividades a partir do dia 12 de janeiro, ao perceberem redução nos seus salários. A greve, inicialmente desacreditada até pelos sindicalistas, duraria dois meses e terminaria com a conquista de todos os pedidos dos trabalhadores.

A alcunha pela qual o movimento ficaria conhecido já era empregada, anteriormente, em campanhas pelo voto feminino. A ideia era de que além do pão, buscava-se também rosas, frase que, na greve, adquire o sentido de que os trabalhadores queriam melhores salários, mas também desejavam melhores condições de trabalho. O slogan surgiria em cartazes nos piquetes levados por mulheres, que compreendiam grande parte do contingente empregado nas tecelagens e, também, no esforço de greve.

A mecanização do trabalho têxtil ao longo do século XIX faria com que as tecelagens de Lawrence, à época, empregassem uma grande massa de trabalhadores sem qualificação, quase na totalidade imigrantes, com grande concentração de mulheres e crianças. A grande diversidade de nacionalidades e idiomas, aliás, era vista como percalço intransponível para a realização de greves, mesmo com a deterioração nos salários e nas condições de trabalho e de vida na cidade.

A situação mudaria em 1912. A partir do primeiro dia do ano, uma nova legislação estadual reduziria a carga horária para mulheres e crianças nas tecelagens, de 56 para 54 horas semanais, sem determinação de regras para os salários. Já descontentes com suas rendas, os operários viam a medida com desconfiança, e passariam dias esperando a posição dos empresários quanto a seus vencimentos. Apenas no dia 11 as primeiras trabalhadoras perceberiam redução nos seus salários e paralisariam seus ofícios. No dia seguinte, trabalhadoras da American Woolen Company, maior empregadora da cidade, também receberiam seus pagamentos com cortes e, já preparadas para a situação, engrossariam a greve.

Já de início, milhares dos trabalhadores nas tecelagens da cidade paralisaram suas tarefas, em um movimento que, em seu auge, chegaria a cerca de 20 mil grevistas. Mesmo sem a representação oficial dos operários, a organização sindical Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW, na sigla em inglês) assumiria a frente da coordenação, adotando uma estratégia que se mostraria vitoriosa com a criação de um comando de greve formada por 56 pessoas, com quatro representantes de cada uma das 14 principais nacionalidades presentes no quadro de funcionários das empresas. As assembleias, conduzidas em 25 linguagens distintas, chegariam a uma pauta que pedia 15% de aumento salarial, pagamento dobrado por horas-extra e a não perseguição aos grevistas.

A inesperada coesão dos operários, desacreditada até pela representação oficial dos trabalhadores, dos Trabalhadores Têxteis Unidos da América (UTW), assustaria o poder público local, que reagiria acionando, pela primeira vez na história, o alarme de crise da cidade. Milícias locais seriam convocadas para agredir os grevistas, que, nos piquetes, também eram atacados por mangueiras de incêndio das fábricas. Ao revidarem, acabavam presos, com penas de um ano de detenção. Em um dos confrontos, uma grevista acabaria morta. Ainda que a morte provavelmente tenha sido causada por tiros de policiais, a justiça condenaria à prisão por assassinato os líderes da greve, mesmo com testemunhos de que se encontravam a vários quilômetros do local da morte.

Com o acirramento dos confrontos, o movimento ganharia apoio de todas as partes do país. Sob a liderança do IWW, recursos seriam captados em diversas regiões para sustentar os trabalhadores paralisados. Além disso, o sindicato organizaria o envio temporário de centenas de crianças de Lawrence, muitas delas também funcionárias das tecelagens, para casas de famílias simpáticas à causa em grandes centros, como Nova Iorque e Filadélfia. A medida não apenas aliviaria as necessidades financeiras dos operários, como também aumentaria a divulgação sobre as condições de vida em Lawrence.

Tentando conter o envio das crianças, o poder público municipal enviaria polícia e milícias para o embarque. Ali, agrediriam mães e crianças, arrastando-as para caminhões, em ação que resultaria no aborto de uma trabalhadora grávida, tudo em frente à imprensa que cobria o embarque. As notícias correriam o país e fariam com que o Congresso estadunidense passasse a investigar as condições de vida em Lawrence. Ficaria famoso o depoimento de uma trabalhadora de 14 anos, que contaria no Congresso ter passado sete meses hospitalizada, sem salários, após ter perdido o couro cabeludo em uma máquina de algodão. Os testemunhos públicos das situações miseráveis nas indústrias locais modificariam de vez o equilíbrio de forças na greve.

No início de março, então, os empresários finalmente fariam proposta aos operários. A oferta de 5% de aumento, todavia, seria recusada. No dia 12, os proprietários da American Woolen Company enfim aceitariam as demandas dos empregados, modificando inclusive o período de pagamento de prêmios de produtividade, simbolicamente encerrando a greve. Ao longo do mês, as demais empresas, muito menores, seguiriam o exemplo, garantindo os benefícios a todos os operários do polo têxtil.

Ao longo do ano, novas paralisações seriam realizadas para defender a libertação dos líderes da greve, ainda presos pela acusação de assassinato de uma grevista. Eles só seriam libertados em novembro, após serem julgados inocentes. Vitoriosos na estratégia da greve, entretanto, as lideranças do IWW não manteriam o sucesso. Contrários a contratos coletivos, eles recusariam a assinatura de acordos com as indústrias, que logo retomariam suas condutas anteriores, anulando as conquistas do movimento.

Guilherme Daroit é jornalista e bacharel em Ciências Econômicas, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente, é diretor do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região

 


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