Vidas e morte do capitalismo

Fotografia: Alexander Naumann/Pixabay

Comentário do livro homônimo de artigos e entrevistas de Robert Kurz, centrados na análise da crise econômica de 2008, e de sua última obra ‘Dinheiro sem valor’.

Anselm Jappe

Fonte: Carta Maior
Tradução: Robson J. F. de Oliveira
Data original da publicação: 23/02/2020

Robert Kurz, o teórico principal da “crítica do valor”, morreu em 18 de julho de 2012 em Nuremberg (Alemanha), como consequência de um erro médico. Ele tinha 68 anos. A morte prematura interrompeu um trabalho imenso conduzido há 25 anos. Nascido em 1943 em Nuremberg, onde passou toda a vida, Kurz participou da “revolta dos estudantes” em 1968 na Alemanha e das intensas discussões no interior da “Nova esquerda”. Depois de ter recusado o marxismo-leninismo, sem aderir aos “Verdes”, que no momento passavam pela muda“realista” na Alemanha, fundou em 1987 a revista MarxistischeKritik, rebatizada como Krisis depois de alguns anos.

A releitura de Marx proposta por Kurz e por seus primeiros companheiros de luta (entre os quais Roswitha Scholz, Peter Klein, Ernst Lohoff e Norbert Trenkle) não lhes trouxe só amigos na esquerda radical. Esta via seus dogmas serem transtornados um após o outro, tais como a “luta de classes” e o “trabalho”, em nome de um questionamento dos fundamentos da sociedade capitalista: valor mercantil e trabalho abstrato, dinheiro e mercadoria, Estado e nação.

Kurz, autor prolífico e dotado de bela e vigorosa pluma, amiúde polêmica, atingiu um público mais vasto com seu livro O colapso da modernização (Paz e Terra, 1992), que afirmava, no exato momento do “triunfo ocidental” consecutivo ao fim da URSS, que os dias da sociedade mercantil mundial estavam contados e que o fim do “socialismo real” apenas representava uma etapa. Articulista regular em jornais importantes, notadamente no Brasil, conferencista notável, Kurz, mesmo assim, preferiu ficar fora das Universidades e das outras instituições do saber, conseguindo viver graças a um trabalho proletário.

Os cerca de doze livros e as centenas de artigos que publicou se situam, grosso modo, em dois níveis: de um lado, uma elaboração teórica de fundo, conduzida por meio de longos ensaios publicados na Krisis e na Exit! (fundada em 2004 depois da cisão com a Krisis). De outro, um comentário contínuo acerca do aprofundamento da crise do capitalismo e uma investigação de seu passado — especialmente através de uma grande história do capitalismo, O livro negro do capitalismo (Record, 1999), que foi, mesmo com suas 850 páginas, um best-seller na Alemanha, mas também de A guerra de reordenamento mundial (2003), O capital-mundo (2005), e de seus artigos na imprensa.

Vidas e morte do capitalismo (Lignes, 2011) reúne cerca de 30 artigos e entrevistas focados mais na análise da atualidade. O volume é prolongamento da coletânea de artigos lançados na França Aviso aos náufragos (Lignes, 2005). Os novos textos são datados de 2007 a 2010 e cobrem principalmente o período marcado pela crise do capitalismo que estourou em 2008, considerada como a mais grave desde 1929.

Com efeito, a crítica do valor é principalmente conhecida por sua afirmação de que o capitalismo está mergulhado numa crise irreversível — Kurz até foi qualificado, em certos meios de comunicação, como “profeta do apocalipse”. Há vinte anos, até mesmo em períodos de aparente vitória definitiva do capitalismo nos anos 1990, Kurz sustenta, apoiado numa leitura rigorosa de Marx, que as categorias de base do modo de produção capitalista estão se esgotando e atingiram seu “limite histórico”: já não se produz “valor” o bastante. Ora, o valor (que contém a mais-valia, logo o lucro), expresso em dinheiro, é o único objetivo da produção capitalista — a produção de “valores de uso” não passa de aspecto secundário.

O valor de uma mercadoria é dado pela quantidade de “trabalho abstrato” que foi necessário para sua fabricação, ou seja, trabalho como puro dispêndio de energia humana, sem consideração de seu conteúdo. Quanto menos uma mercadoria contém trabalho, menor o seu “valor” (e é preciso que seja trabalho que corresponda ao nível de produtividade estabelecido num dado momento: dez horas de trabalho de um tecelão artesanal podem “valer” somente uma hora, a partir do momento em que faz em dez horas o que um tecelão com uma máquina produz numa hora, logo que o regime de produção tornou-se industrial).

Desde seus primórdios, o capitalismo vive essa contradição: a concorrência acossa cada capitalista a substituir o trabalho vivo por máquinas, obtendo, assim, uma vantagem imediata no mercado (ele obtém custos mais baixos). Procedendo assim, é a massa de valor como um todo que diminui, enquanto os custos com tecnologias — que não criam valor — aumentam. Consequentemente, a produção de valor corre a todo instante o risco de se estrangular por conta própria e de perecer por falta de rentabilidade. O lucro — a face visível do valor, aquela que interessa aos agentes do processo mercantil — só é possível se o regime de acumulação funcionar.

Durante muito tempo, a expansão interna e externa da produção de mercadoria (rumo a outras regiões do mundo e no interior das sociedades capitalistas) pôde compensar o valor diminuto das mercadorias singulares. Mas, a partir dos anos 1970, a “terceira revolução industrial”, a da microeletrônica, tornou “supérfluo” o trabalho em tais proporções que nenhum mecanismo de compensação foi mais suficiente. Desde então, o sistema mercantil sobrevive essencialmente graças ao “capital fictício”: é o dinheiro, que não é o resultado da criação de valor obtida através do emprego produtivo da força de trabalho, mas que é criado pela especulação e o crédito, e cuja única base são os lucros futuros (mas, em proporções gigantescas, impossíveis de se realizarem).

Segundo Kurz, esta teoria da crise inelutável está presente em Marx (mas de uma maneira fragmentada e ambígua; o “Fragmento sobre as máquinas” nos Grundrisse é a passagem mais significativa): a acumulação de capital não é um modo estável que poderia continuar até o infinito e ao qual somente a “luta dos oprimidos” colocará um fim, como proclamou todo o marxismo depois de Marx. Kurz demonstra que a “teoria do colapso”, longe de ser o objeto de um amplo consenso entre os marxistas, como amiúde se afirma, apresentava-se muito mais como uma “serpente marinha”.

A teoria do colapso

Alguns teóricos se acusavam mutuamente de se apoiar nessa teoria do colapso, mas quase ninguém admitia que o capitalismo pudesse se chocar contra seus limites internos antes mesmo de uma revolução proletária. As únicas teorias que analisavam esses limites, as de Rosa Luxemburgo (A acumulação do capital, de 1912) e de Henryk Grossmann (A lei da acumulaçãoe do colapso do sistema capitalista, de 1929), ficaram, segundo Kurz, no meio do caminho e não exerceram nenhuma influência real no movimento operário.

Kurz apresenta, assim, sua própria teoria da crise como uma novidade absoluta — que se tornou possível pelo fato de o limite interno da produção de valor, previsto num plano teórico por Marx, ter sido realmente atingido nos anos 1970. Desde alguns anos, esta crise veio à luz, depois de durante muito tempo ter sido negada, até mesmo pela esquerda. Mas, para Kurz, as explicações dadas atualmente pelos “economistas de esquerda” (em verdade, simples neokeynesianos), que a relacionam com o “subconsumo”, são por demais insuficientes. Não há mais solução possível dentro dos marcos da sociedade mercantil, que não cabe mais na camisa de força do valor a partir do momento em que as tecnologias substituíram quase inteiramente o trabalho humano.

Quando cada mercadoria só contém doses “homeopáticas” de valor — portanto, de mais-valia, logo de lucro — nada muda no que diz respeito a sua utilidade (eventual) para a vida. Mas, para o modo de produção fundado no valor, esta situação é mortal; e, numa sociedade inteiramente submetida à economia, a queda traz o risco de levar toda a sociedade à barbárie.

Kurz não se limita a essas generalidades, analisa em detalhes a evolução da crise. Lendo as estatísticas oficiais a contracorrente, ele prova, entre outras coisas, que a China não salvará o capitalismo, que a retomada da economia alemã está baseada, como todo o resto, em novas dívidas, que depois da crise de 2008, o que se fez foi apenas deslocar os “créditos podres” do setor privado para os Estados e que os serviços são geralmente trabalho “improdutivo” (no sentido de que não produzem valor) e não podem substituir os postos de trabalho perdidos na indústria etc.

Ele demonstra porque nem os “programas de aquecimento da economia” neokeynesianos nem os mosteiros de austeridade podem ter chance de resolver a crise e menos do que nunca as propostas para “criação de empregos”: o problema de fundo — que também é a razão para se ter esperança! — está exatamente constituído pelo “fim do trabalho”. Trabalho e valor, mercadoria e dinheiro, não são dados eternos da vida humana, mas invenções históricas relativamente recentes. Atualmente vivemos o seu fim — que não acontecerá num dia, evidentemente, mas no espaço de algumas décadas, como Kurz precisa, ao se distanciar um pouco de suas previsões anteriores mais “catastrofistas” a curto prazo.

A financeirização da economia e a especulação, longe de constituírem as causas da crise, contribuíram durante muito tempo para “empurrá-la com a barriga”, e continuam a jogar este papel. Mas, assim, vamos acumulando um potencial de crise ainda maior — e, para começar, a explosão de uma inflação mundial gigantesca, signo de desvalorização do dinheiro enquanto tal. Jogar a culpa nas costas dos “banqueiros” ou localizar as causas numa espécie de conspiração neoliberal, como fazem quase todas as críticas de esquerda, significa, segundo Kurz, passar ao largo do problema.

Eis a razão porque Kurz se mostrou, antes de tudo, cético em relação ao potencial emancipatório dos novos movimentos de protesto, do qual ele estigmatiza as derivas antissemitas abertas ou implícitas. Ele acusa com frequência a esquerda — em todas as suas variantes — de não querer, de fato, sair do quadro capitalista, considerado por ela como eterno. Por isso, ela propõe somente uma distribuição um pouco mais “justa” do valor e do dinheiro, sem levar em conta nem o papel negativo e destrutivo dessas categorias nem seu esgotamento histórico.

Pior ainda, os diferentes representantes da esquerda acabam frequentemente por se propor a coadministrar o deslizamento rumo à barbárie e à miséria. Em vez de correr atrás dos movimentos de contestação e de adulá-los, Kurz lhes opõe constantemente a necessidade de retomar uma crítica anticapitalista radical (em seus conteúdos e não somente nas formas!); esta crítica deve ajudá-los a se desvencilharem das suas insuficiências. Não basta mudar os funcionários da administração: o capitalismo é um sistema fetichista inconsciente, regido por um “sujeito automático” (a expressão é de Marx) de valorização do valor. A dominação pessoal dos proprietários jurídicos dos meios de produção sobre os vendedores de força de trabalho não passa da tradução “sociológica”, visível na superfície, do mecanismo autorreferencial de acúmulo do capital.

Em Dinheiro sem valor (Lisboa, Antígona, 2014)Kurz lança mão da artilharia pesada da crítica da economia política num plano essencialmente conceitual. Mesmo saindo poucos dias depois da morte de seu autor, o livro não representa nem um sumário nem um testamento teórico, concebido que foi como primeira parte de um vasto projeto de refundação da crítica da economia política.

Nesta obra, Kurz trata de quatro grandes temas ligados entre si: a diferença fundamental entre as sociedades pré-capitalistas, protocapitalistas e capitalistas, e o papel do dinheiro no interior delas; o nascimento do capital e do valor mercantil a partir do século XV; a lógica interna do capital quando plenamente desenvolvido; a contradição interna e o limite interno lógico da acumulação capitalista no decurso de sua evolução histórica até o presente.

Sempre procedendo por meio de polêmica cerrada com marxistas alemães, pouco conhecidos na França, (M. Heinrich, H.-G. Backhaus, E. Altvater, W. F. Haug) e passando por demonstrações bastante sutis (e talvez até meio misteriosas para os não iniciados), Kurz chega a resultados surpreendentes em sua simplicidade. Ele não se prevalece de quase nenhum autor da tradição marxista, senão somente do próprio Marx (apenas Adorno e Lukács de História e consciência de classe parecem lhe servir de inspiração parcial, e muito mais no que diz respeito à abordagem dialética).

Kurz não tem a pretensão de “restabelecer o que Marx realmente disse” e apresentar-se como único intérprete. Busca, em verdade, desenvolver e aprofundar o lado mais radical e inovador de seu pensamento. Uma parte de sua obra — o “Marx exotérico” — ficou, segundo Kurz, no terreno da filosofia burguesa dos Iluministas e de sua crença no “progresso” e nos benefícios do trabalho. É na outra parte — que permaneceu minoritária e fragmentada — que o Marx “esotérico” levou a cabo uma verdadeira revolução teórica, que quase ninguém durante mais de um século soube compreender nem continuar.

Esses diferentes aspectos da teoria de Marx estão estreitamente entrelaçados (não se trata em absoluto de “fases” sucessivas!). O núcleo mais profundo, alicerçado na teoria do valor, não se tornou verdadeiramente atual senão com o declínio do capitalismo. Kurz não se propõe, portanto, a “interpretar” Marx, nem a “corrigi-lo”, mas a retomar suas intuições mais fecundas, mesmo opondo-as a outras ideias do mestre.

Comparado a seus precedentes livros, Kurz aprofunda aqui dois temas que antes tinham ficado mais implícitos. Ele afirma que aquilo que chamamos de “valor” e “dinheiro” não existiu antes do século XIV ou XV, e que os fenômenos que nos parecem ser o dinheiro ou o valor nas sociedades pré-capitalistas, na verdade, exerciam nelas uma função fundamentalmente diferente. O capitalismo não nasceu como uma excrescência particular numa existência atemporal — ou de todo modo muito antiga — do valor e do dinheiro, mas ao mesmo tempo que estes.

Kurz faz apenas breves excursões na história “factual”, mas examina em detalhe a estrutura das “categorias” da crítica da economia política. Para esse objetivo, é necessário centrar fogo no “individualismo metodológico” (que ele identifica ao “positivismo”), considerado por ele como o fundamento de todo o pensamento burguês e que teria igualmente “infectado” quase todo o marxismo. Estaria presente até no pensamento do próprio Marx, lado a lado com sua inspiração mais autenticamente dialética,o que explica as contradições no interior de sua obra.

Insistindo na diferença entre essência e fenômeno, o ser e o parecer, as categorias escondidas e os fatos visíveis, Kurz se situa — sem dizê-lo explicitamente — no campo da dialética hegeliana e da diferença entre razão e entendimento. Kurz nunca tinha se expressado de forma tão cristalina acerca de seus fundamentos metodológicos. Não se trata, entretanto, de recomeçar, como nos anos 1970, a gargarejar a palavra “dialética” e fazer dela um método universal.

Kurz sempre tira sua energia da polêmica contra um adversário: aqui, a incapacidade do pensamento burguês de ir além dos fatos isolados e de seus eventuais “efeitos recíprocos”. O “todo” não é simplesmente a soma dos elementos particulares, ele possui uma qualidade própria; os elementos particulares não são o que parecem ser num simples golpe de vista, como na visão empírica. Eles não revelam sua verdadeira natureza senão ao serem entendidos como determinados pelo todo.

Kurz não se entrega, todavia, a considerações metodológicas preliminares de maneira abstrata, mas desenvolve sua abordagem desenvolvendo seu raciocínio acerca de um objeto dado: não se trata de analisar (como amiúde o faz o próprio Marx, pelo menos no primeiro volume de O Capital) a estrutura de um capital particular — nem mesmo de um capital “ideal-típico” — para em seguida conceber o “capital total”, que nada mais faria do que reproduzir a estrutura do capital particular, como a agregação desses capitais particulares. Da mesma forma, a mercadoria particular só é analisável como parte da massa total de mercadorias.

A forma dinheiro

Kurz começa seu livro discutindo um problema que aparentemente está ligado mais à filologia marxiana. No primeiro capítulo de O Capital, Marx analisa a mercadoria e seu valor de uma maneira puramente lógica. A mesma cadeia lógica conduz em seguida à existência do dinheiro; e são necessários ainda alguns passos suplementares para se chegar ao capital. Essa sucessão lógica é também o reflexo de uma sucessão histórica? Marx não é claro acerca disso e parece hesitar.

Para o velho Engels, em contrapartida, e para os marxistas posteriores, já é coisa certa: a lógica corresponde à história. É a abordagem “lógico-histórica”. Para eles, o valor mercantil existia muito antes do capital. Durante milhares de anos houve uma “produção de mercadorias simples”, sem capital. Desde sempre, ou quase, os homens atribuem um “valor” a seus produtos, baseado no trabalho que despenderam para fabricá-los. O dinheiro também existe há muito tempo, mas só servia para facilitar as trocas. O capitalismo só veio depois que o dinheiro se acumulou até o ponto de tornar-se capital e encontrar diante de si uma força de trabalho “livre”.

Tal abordagem, protesta Kurz, “naturaliza” ou “ontologiza” o valor e o trabalho, transformando-os em condições eternas de toda a vida em sociedade. Até a sociedade pós-capitalista fica reduzida a uma espécie de “aplicação consciente da lei do valor” (este oxímoro era um dos objetivos declarados do “socialismo real”!) ou a formas de “mercado sem capitalismo exagerado”. Vê-se que a leitura de Marx que Kurz propõe, por mais teórica e afastada da “práxis” que possa parecer à primeira vista, pode implicar consequências bastante “práticas”.

Kurz retoma, às vezes corrigindo-a, “a nova leitura de Marx” proposta na Alemanha desde 1968 por certos alunos de Adorno (H.-G. Backhaus, H. Reichelt): em sua análise da forma-valor, Marx examinaria as categorias mercadoria, trabalho abstrato, valor e dinheiro tais como se apresentam num regime capitalista desenvolvido, “que anda com as próprias pernas”.

Tratar-se-ia de uma reconstrução conceitual que começa com o elemento mais simples, a “forma-mercadoria simples”, para chegar à gênese “lógica” do dinheiro; a existência do capital, que aparece nessa dedução como consequência, é na verdade já um pressuposto da análise da forma mais simples. O valor enquanto quantidade de trabalho abstrato só existe onde o dinheiro e o capital existem. As etapas intermediárias da construção marxiana, como a “forma-valor desenvolvida”, onde a troca das mercadorias acontece sem a mediação do dinheiro-mercadoria, são simples etapas da demonstração — elas não correspondem a nada de real.

Sem a existência de um dinheiro-mercadoria (os metais preciosos), os valores não podem se relacionar entre si como valores. Portanto, uma produção de mercadorias sem dinheiro não pode existir, e a teoria marxiana da forma-valor só pode ser válida para o capitalismo. O estatuto pouco claro da análise da forma-valor no próprio Marx corresponde tanto a dificuldades de exposição (os pressupostos são ao mesmo tempo as consequências, e vice-versa) quanto à oscilação de Marx entre histórico e lógico, entre dialética e empirismo.

Logo: nada de valor sem dinheiro, nada de dinheiro sem capital. Mas, replicarão de pronto, o comércio, os mercados e o dinheiro — e até mesmo a moeda cunhada — existem há milênios; podem-se encontrar formas primitivas até na Idade da Pedra. Para a interpretação histórico-lógica tradicional, que vê na análise marxiana um resumo da evolução histórica real, isso não constitui um problema: o valor sempre existiu, garante ela, da mesma maneira que o dinheiro a partir de certa época — mas como “nichos”, ou seja, somente para a troca de excedentes. Era, no que diz respeito a sua estrutura, o mesmo dinheiro e o mesmo valor de hoje. O crescimento gradual dessas trocas, principalmente ao final da Idade Média, levou à formação do capital.

Kurz reprova o marxismo quando pensa assim, quando não se distingue da ciência burguesa em sua abordagem positivista, que só considera fatos isolados; ao ver uma pessoa que dá um saco de trigo em troca de uma pepita de ouro no antigo Egito, na Idade Média e hoje, ela conclui que em todos esses casos se trata da mesma coisa; mercadoria por dinheiro, portanto, comércio, logo mercado…

Para Kurz, os fatos empíricos não demonstram nada sem uma “crítica categorial” que os situe em seu contexto. Assim, sem termos determinado o que é o dinheiro no modo de produção capitalista (não somente suas funções práticas, mas o que ele é), não podemos decidir se as conchas ou as peças de ouro que circulavam nas sociedades não-capitalistas correspondiam ao dinheiro no sentido moderno. É o que Kurz nega resoluto. Historicamente, o dinheiro precede o valor, diz ele. Mas que dinheiro? O dinheiro no sentido capitalista nasce, diz Kurz, com a difusão das armas de fogo, a partir do fim do século XIV.

O que nos parece dinheiro nas sociedades pré e não-capitalistas tinha mais uma função sacral: nascido do sacrifício, o dom fazia os produtos circularem, no quadro de uma rede de obrigações, onde as pessoas investidas de poder sacral desempenhavam papel central. Era outra forma de fetichismo. Havia evidentemente produção e circulação de bens, mas não “economia”, “trabalho” ou “mercado”, nem mesmo em formas rudimentares ou “ainda não desenvolvidas” (como Kurz afirma em oposição a Karl Polanyi, com quem concorda em outros aspectos).

Kurz só rapidamente entra numa análise histórica do papel do dinheiro (reservada para trabalhos futuros, que infelizmente não mais serão publicados) e só cita poucos autores. Entre eles, o medievalista Jacques Le Goff, que nega a existência de “dinheiro” na Idade Média (e que Kurz opõe a Fernand Braudel, para quem “o mercado é universal”). O dinheiro pré-moderno não tinha “valor”: a fonte de sua importância não estava no fato de ser a representação quantitativamente determinada de uma “substância” social geral como é o trabalho nas sociedades modernas.

O capitalismo não constitui, aos olhos de Kurz, uma intensificação das formas sociais antecedentes, mas uma violenta ruptura. A enorme sede de dinheiro suscitada pela corrida aos armamentos a partir do século XV representa o big bang da modernidade, gerando, no decurso de algumas gerações, um sistema baseado no dinheiro (que muda totalmente de função: de símbolo, numa relação pessoal de obrigações, ele se torna princípio de mediação social universal no posto de representante material do trabalho abstrato), o valor-trabalho, o próprio trabalho abstrato, o capital e, claro, o Estado (que também muda de função).

Poder-se-ia dizer que Kurz começou aqui uma grande obra na qual quase tudo ainda está por se fazer. É claro que sua abordagem possibilitará trocas com aqueles que estudam o “dom” na linha de um Marcel Mauss (que, como Michel Foucault, é objeto de algumas observações bastante interessantes, mas muito rápidas).

A recusa do “individualismo metodológico” produz seus frutos também na releitura kurziana de Marx e na crítica da adaptação do marxismo aos critérios da economia política burguesa (marginalista e neoliberal). Segundo Kurz, numerosas dificuldades na teoria de Marx (como o famoso problema da transformação dos valores em preço) desaparecem quando se abandona a análise da mercadoria particular e do capital particular em proveito do capital total (categoria que pode ser apreendida somente pelo conceito, não num plano empírico), do qual as mercadorias particulares e os capitais particulares são apenas “partes alíquotas”.

Não se pode determinar o valor de uma mercadoria particular; mas isso não significa que este valor só é criado na troca (aqui, Kurz polemiza constantemente contra toda e qualquer concepção “relativista” do valor, que ele qualifica de tipicamente pós-moderna). O valor é “realmente” (no sentido de uma projeção fetichista) dado pelo trabalho abstrato, que constitui sua “substância”. O que conta é a massa global (ou total) de valor; a mercadoria particular não tem “valor” mensurável, mas consegue realizar um “preço” na concorrência. Com efeito, uma mercadoria pode ter um valor quase nulo (quando ela é produzida por máquinas) e obter, mesmo assim, um preço elevado. A soma total dos valores e a soma total dos preços coincidem necessariamente — mas não o valor e o preço da mercadoria particular.

Esse deslocamento do eixo conceitual do capital particular para o nível do capital total (Marx hesitava entre as duas abordagens, e Kurz, por assim dizer, liberta-o de suas incertezas) permite efetivamente a Kurz esclarecer, de maneira surpreendente, problemas como a relação entre a taxa e a massa de lucro ou a questão do trabalho produtivo. Certamente muitos “economistas marxistas” não estarão de acordo, mas dificilmente poderão evitar medir forças com os argumentos de Kurz.

A discussão vai muito além de uma batalha erudita entre economistas marxistas quando se chega à questão do “limite interno” da produção capitalista causado pela queda da massa total de valor. Kurz dedica a isso a última parte do livro, precisando argumentos que há muito tempo vem trazendo à baila.

O “coração das trevas” do capitalismo

Em contrapartida, o final é meio inesperado: ele se pergunta se não estamos indo novamente rumo a um “dinheiro sem valor”. Enquanto a massa nominal de dinheiro no mundo (incluindo as ações, os preços imobiliários, os créditos, as dívidas, os derivativos financeiros) aumenta sem parar, aquilo do qual o dinheiro é tido por representante, o trabalho, reduz-se a proporções cada vez menores. Assim, o dinheiro quase não tem mais valor “real”, e uma gigantesca desvalorização do dinheiro (primeiramente sob forma de inflação) será inevitável. Mas, depois de séculos durante os quais o dinheiro constituiu a mediação social numa escala cada vez maior, sua desvalorização não organizada, porém forçada, não pode provocar nada mais do que uma gigantesca regressão social e o abandono de grande parte da atividade social quando vista como não mais “rentável”.

O fim da trajetória histórica do capitalismo corre o risco de nos empurrar a um “retorno perverso” do sacrifício, a uma barbárie nova e pós-moderna. Com efeito, o capitalismo está anulando até mesmo os magros “progressos” que trouxe e exigindo incessantemente dos homens “sacrifícios” para a salvação do fetiche-dinheiro. Os cortes na saúde pública são até pensados por Kurz em relação aos sacrifícios humanos da história antiga, praticados para acalmar os deuses furiosos, e ele termina afirmando que “os sacerdotes sanguinários astecas foram humanos e doces, se comparados aos burocratas-sacrificadores do fetiche global do capital ao ter atingido seu limite interno histórico”.

Por que as teorias de Kurz, apesar de sua força intelectual inegável, tiveram até aqui apenas um impacto que se pode chamar de limitado na crítica do capitalismo, pelo menos na França? Elas são muito discutidas na internet, e Kurz obteve na Alemanha certo sucesso de livraria, principalmente nos anos 1990. Mas, embora a crise dos últimos anos tenha trazido a confirmação de suas análises, a crítica do valor continuou mantendo seu caráter meio “esotérico” — um discurso para “iniciados”.

Por que aqueles que Kurz chamava de “dinossauros” marxistas (até em suas versões pós-modernas) e os economistas “alternativos” keynesianos, ligados, segundo ele, à fase do capitalismo que acabou definitivamente de chegar ao fim, e cujos discursos praticamente não evoluíram em quarenta anos, tornaram-se novamente os pontos de referência daqueles que querem combater a devastação da vida pelo capital?

Kurz sempre afirmava que o capitalismo está desaparecendo, ao mesmo tempo que seus velhos adversários, especialmente o movimento operário e seus intelectuais, que tinham completamente interiorizado o trabalho e o valor e cujo horizonte não ia além da “integração” dos operários — e em seguida de outros grupos “subalternos” — na sociedade mercantil. Por que a crítica do valor, que pretende ter compreendido o caráter fundamentalmente novo da situação atual, tem “penetração” tão difícil junto ao público?

Uma primeira razão — menos importante — é a ausência de uma estratégia de ocupação do espaço público: Kurz, assim como os outros fundadores da crítica do valor, não são nem universitários nem midiáticos, limitando-se aos espaços que são colocados a sua disposição. Preferem sempre o seminário de aprofundamento com os leitores da revista à participação num grande colóquio eclético. Ficar à margem é para eles signo de honra, mas torna lenta a difusão de suas ideias. Além disso, a prosa de Kurz, se sabe ser mordaz e brilhante nos escritos de “divulgação”, é por vezes, nas obras mais teóricas, difícil de ler e ainda mais de traduzir, um pouco comparável à de Adorno.

Mas, em nível mais profundo, são principalmente a teoria da crise e o questionamento da luta de classes que suscitam resistências. Para Kurz, não estamos mais na presença de uma crise “cíclica” ou de “crescimento” do capitalismo, mas estamos vivendo o fim de uma longa época histórica, sem saber se o futuro será melhor ou se será antes de tudo a queda numa situação em que a grande maioria da humanidade não será útil nem mais para ser explorada, mas simplesmente “supérflua” (para a valorização do capital). E ninguém pode controlar tal máquina em disparada! Esta perspectiva se vê logo rechaçada, porque realmente faz medo, muito mais medo do que a afirmação de que os mesquinhos especuladores roubam nosso dinheiro (mas que o Estado restabelecerá a justiça para o povo!).

A crítica do valor não quer se fazer aceitar e não está a serviço das necessidades de um público. Ela critica com efeito quase todas as formas de oposição, passadas e presentes, que se mantêm prisioneiras da forma-valor e que até contribuíram para seu pleno desenvolvimento. Do mesmo modo, Kurz rejeitava quase toda a tradição marxista e entrava frequentemente em polêmica com seus representantes contemporâneos, rompendo com os consensos e os ritos dos meios marxistas universitários. Assim, estes lhe opuseram, o máximo de tempo possível, uma “conspiração do silêncio”.

Mas até aqueles que reconhecem o poder heurístico da leitura da realidade capitalista proposta por Kurz reprovam não raro a crítica do valor, por ela não indicar uma “prática” possível. “A análise é verdadeira — mas o que fazer?”, escutamos alguém falar.

Kurz é claro a este respeito: a teoria já é uma forma de práxis, ela contribui principalmente para desnaturalizar as categorias da vida capitalista. Mas ele desconfia tanto dos movimentos dirigidos contra os aspectos mais superficiais do capitalismo, como o mercado financeiro – e susceptíveis de se degenerarem em populismo – assim como da “falsa imediatidade” dos projetos de “economia alternativa”. Criar uma sociedade em que a produção e a circulação dos bens não passam mais pela mediação autonomizada do dinheiro e do valor, mas que são organizadas de acordo com as necessidades — eis aí a tarefa enorme que se impõe depois de séculos de sociedade mercantil. Se Kurz formula a necessidade disso, ele não explica como chegar. Mas poucas teorias se aproximaram tanto quanto a sua do “coração das trevas” do sistema fetichista do capital.

Referências:

Robert Kurz. Vidas e morte do capitalismo. Crônicas da crise. Textos traduzidos para o francês por Olivier Galtier, Wolfgang Kukulies e Luc Mercier. Edições Lignes, Paris, 2011.

Robert Kurz. Geld ohne Wert. GrundrissezueinerTransformation der Kritik der politischenÖkonomie, Horlemann, Berlin, 2012. [Dinheiro sem valor. Fundamentos para uma transformação da crítica da economia política].

Anselm Jappe é professor de estética na École d’art de Frosinone e de Tours, é autor, entre outros livros, de Crédito à morte (Hedra, 2013)

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