Trabalhadores em festa: associativismo recreativo e construção de identidades

Juçara da Silva Barbosa de Mello

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Fonte: História (São Paulo), Franca, v. 34, n. 2, p. 310-333, jul./dez. 2015.

Resumo: Este artigo pretende problematizar a noção de um operariado tutelado, cuja identidade teria sido forjada a partir de relações de dominação/subordinação no espaço de trabalho. Para isto trará à evidência experiências em que outras esferas da vida social, como a da família, da vizinhança e especialmente a esfera do lazer – embora marcadas pela centralidade do trabalho fabril -, constituíram espaços em que se forjavam identidades a partir de outros critérios que podiam ser ao mesmo tempo antagônicos e complementares. Aponta também para a complexidade que marca as experiências no cenário de transformação do caráter rural do contexto de atuação desses trabalhadores.

Sumário: Apresentação | Identidades compartilhadas: aspectos do carnaval de Santo Aleixo entre 1930 e 1960 | Apontamentos finais | Referências

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Apresentação

A festa, tanto quanto o trabalho, constituiu-se em espaço social no qual mais de uma geração de operários das fábricas têxteis de Santo Aleixo forjaram suas identidades, num processo que alcançou a sua mais forte expressão no período que compreende as décadas de 1930 a 1960. Esses sujeitos históricos individuais e coletivos vivenciaram experiências comuns forjadas em espaços diversos de atuação, como os do trabalho, da casa e do lazer. Neles foram capazes de pôr em permanente tensão estratégias empresariais de dominação e controle, com atitudes de consenso e de resistência orientadas, por um lado, por tradições herdadas dos modos de vida da família patriarcal camponesa, e, por outro, pelas novas condições de vida e trabalho que passaram a estar submetidas ao universo da fábrica com vila operária.

A chegada ao local em 1935 e 1940, respectivamente, dos empresários Hermann Mattheis e Othon Lynch Bezerra de Mello marcou um período de grande investimento na modernização das duas fábricas já existentes no lugar. A racionalização e o controle do tempo dos operários, dentro e fora do espaço de trabalho, foram ações paralelas à modernização do maquinário. O modelo de administração praticado por esses empresários, desde o início de suas chegadas a Santo Aleixo, pautou-se pela tentativa de dominação de sua força de trabalho por meio do controle de todas as suas atividades cotidianas, fossem elas as concernentes ao espaço do trabalho ou do lazer.

Dentre as atividades de lazer, estavam as realizadas nos clubes esportivos. Essas agremiações possuíam uma estreita vinculação com as fábricas, que, do ponto de vista material, representavam seus principais pilares de sustentação. Cada uma das duas fábricas do distrito de Santo Aleixo patrocinava um dos dois clubes do local, estimulando a forte rivalidade que caracterizava a relação entre seus participantes. Concorrências que também ficavam visíveis nas animadas disputas de Blocos de Carnaval.

Os grupos carnavalescos, no entanto, apresentavam-se de forma mais diversificada, tanto em número, quanto no perfil heterogêneo de seus participantes. Diversos blocos com diferentes características estiveram em funcionamento, geralmente formados a partir de laços criados no espaço do trabalho e das relações de vizinhança. Essas circunstâncias contribuíram para alimentar a rivalidade que marcava os dois bairros operários – Andorinhas e Guarany – formados ao redor das duas fábricas de Santo Aleixo, o que não chegava a significar – como será sugerido adiante – nem uma absoluta unidade entre os operários-moradores das vilas, nem uma separação rígida entre eles.

Estudos empíricos focando a vida cotidiana, com atenção às experiências dos sujeitos, tornaram possível a percepção de uma dinâmica social e cultural no interior desses grupos, apontando para a presença do conflito, não somente através das relações que se constituem no espaço do trabalho – seja por meio do próprio movimento operário organizado ou através de ações individuais e coletivas desvinculadas das grandes ideologias -, mas igualmente nas relações estabelecidas no espaço do ócio, constituído por uma densa rede de sociabilidades, na qual identidades são forjadas e ressignificadas.

Conforme aponta Maria Célia Paoli, a heterogeneidade da sociedade, libertada do paradigma unitário que marcou o pensamento sobre as classes sociais, aparece como “diversidade de experiências vividas no interior de relações sociais historicamente constituídas, apontando distintas formas de se viver situações concretas de dominação e exploração” (PAOLI, 1987, p. 56). Tal é a perspectiva que orienta esta análise. Ocupada em desvencilhar-se do essencialismo presente em limitadoras visões sistêmicas das culturas, considera a situação de dominação/subordinação constituída no distrito operário de Santo Aleixo em sua complexidade, ou seja, na dinâmica de conexões simbólico-culturais ocorrida na experiência cotidiana no espaço do trabalho, mas, aqui, especialmente no espaço da festa.

Nesse sentido, o que se busca apresentar neste texto não é uma negação das ações organizadas como importantes formas de atuação política dos trabalhadores, mas o desvio do foco para outra dimensão, feita tão legítima quanto esta. A dimensão em que se torna possível uma análise do modo como trabalhadores anônimos vivenciaram suas próprias experiências e o que pensavam sobre elas. Enfim, sobre as ações e representações constituintes de uma história descrita pelos próprios atores que a protagonizaram, do que resulta uma visão mais abrangente sobre o multifacetado mundo do trabalho.

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Juçara da Silva Barbosa de Mello é professora doutora. Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História Social da Cultura. Faculdade de História – PUC-Rio – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

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