Novas estratégias sindicais: a experiência das redes internacionais

Karina L. Pasquariello Mariano
Leila Zidan

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Fonte: Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 16, n. 31, p. 363-385, 2011.

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Resumo: O atual contexto internacional é reflexo de uma transformação significativa na ordem mundial baseada cada vez mais nas interações comerciais e financeiras condicionantes dos interesses e estratégias de ação dos países, fenômeno este identificado com o conceito de globalização. Esta nova realidade implicou adequações e mudanças nos comportamentos de alguns grupos e atores sociais brasileiros – como o movimento sindical – à medida que o Estado-nação perde capacidade de controlar a atuação empresarial neste novo contexto e, consequentemente, teve alterado o seu papel, ganhando um perfil supervisor em detrimento de sua função de regulamentador. Neste artigo, discutimos como algumas organizações sindicais brasileiras estão reagindo perante esta nova realidade e que tipo de iniciativas estão sendo tomadas a fim de fortalecer sua posição neste mundo globalizado.

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Sumário: Sindicatos e a Globalização | As “Novas” Multinacionais e as Regulamentações | Novas Estratégias de Organização Sindical | Sindicatos Brasileiros e a Nova Agenda | As Redes Sindicais por Empresas | A Coordenadora das Centrais Sindicais do Cone Sul | Solidariedade e Cooperação Internacional | Notas | Referências

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Sindicatos e a Globalização

A década de 80 é singular para os analistas latino-americanos porque foi considerada como uma década “perdida” no plano econômico, uma vez que a região passou por um período de estagnação, forte recessão e desemprego, embora tenha se iniciado na esfera política um processo de redemocratização. No plano social, foi um período de forte expansão de grupos organizados – especialmente das ONGs (Organizações Não-Governamentais) – com impactos na arena política.

Ao mesmo tempo, este foi um período rico e de grandes mudanças no cenário internacional. No plano ideológico, os governos de Ronald Reagan e Margareth Thatcher consolidaram a percepção de que a saída para a crise econômica que afetava também os países desenvolvidos estava na retomada pelo Estado da adoção de práticas econômicas, políticas e ideológicas liberais, que mais tarde viriam a ser denominadas como neoliberais. (MARIANO, 2004, p. 10).

Os anos 90 são fruto dessa mudança. A globalização torna-se mais evidente e os Estados aderem em boa medida à lógica neoliberal, promovendo mudanças importantes no cenário interno que repercutiram na atuação sindical. No Brasil, esse processo foi acompanhado de uma discussão sobre reforma trabalhista, associada à defesa de uma maior flexibilização do trabalho e reestruturação produtiva.

A questão central neste cenário globalizado é que as empresas multinacionais possuem um papel central no atual cenário internacional, seja porque acabam influenciando as finanças, a gestão da produção social, o direcionamento dos investimentos ou a formatação das regras de comércio, ou pelo fato de movimentarem um volume de capital muitas vezes superior ao PIB (Produto Interno Bruto) de alguns países pobres.

Para se ter uma ideia do seu poder, apenas as dez maiores corporações globais – General Motors, Daimler-Chrysler, Ford, Wal-Mart Stores, Mitsui, Itochui, Mitsubishi, Exxon, General Eletric e Toyota – faturaram 1,2 trilhão de dólares em 1998. Este valor representa cerca de 70% do PIB conjunto de Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Uruguai e Venezuela nesse mesmo ano.

Este fato pode ser entendido como uma das razões porque há uma crescente percepção de que o processo de globalização favorece majoritariamente as grandes empresas multinacionais e, consequentemente, os países centrais onde estão instaladas suas matrizes. O que também é parcialmente verdadeiro porque os dados sobre distribuição de renda nas últimas décadas demonstram que houve uma crescente concentração de riqueza nesses Estados, com o aumento no faturamento dessas corporações beneficiando as parcelas mais ricas da população das nações desenvolvidas.

Essa mesma tendência é verificada nos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, onde o problema da distribuição de renda é crônico. A Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (CEPAL), que é um órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), afirmou em um estudo sobre a década de 90 que a globalização piorou a distribuição de renda na América Latina, indicando que sete de cada dez novos empregos criados nas áreas urbanas dessa região nesse período surgiram no setor informal.

As consequências dessa tendência de uma maior concentração de renda ao longo da última década confirmaram os temores de que a globalização tal como foi implementada aumentaria as desigualdades sociais e o desemprego.

Mais do que isso, a globalização mudou o comportamento dos atores ligados ao mundo do trabalho: empresas, sindicatos e governos. No primeiro caso, a reestruturação produtiva gerou uma nova lógica no comportamento das empresas, que inclusive incorporaram em sua ação o seu papel de inovação social a partir dos programas de responsabilidade social e códigos de conduta. Os sindicatos viram-se forçados a acompanhar essas alterações e entender o novo cenário para poder manter alguma capacidade de negociação, enquanto os governos mostraram-se bastante reféns da nova conjuntura, abrindo espaço para que essa questão fosse incorporada por organismos internacionais.

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Karina L. Pasquariello Mariano. Unesp – Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Ciências e Letras – Departamento de Antropologia, Política e Filosofia – CEDEC – Centro de Estudos de Cultura Contemporânea. Araraquara – SP – Brasil.

Leila Zidan. USP – Universidade de São Paulo. Escola Politécnica – Departamento de Engenharia de Produção – Instituto Observatório Social. São Paulo – SP – Brasil.

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