Macroeconomia e mercado de trabalho: as principais teorias e o Brasil contemporâneo

Pedro Paulo Zahluth Bastos

Fonte: Revista Ciências do Trabalho, São Paulo, n. 7, p. 51-107, abr. 2017.

Sumário: 1. Introdução | 2. A reflexão teórica | 2.1. Adam Smith | 2.2. Os neoclássicos | 2.3. Marx (com um pouco de Sraffa) | 2.4. Keynes (com um pouco de Kalecki) | 3. Observações sobre o Brasil contemporâneo à luz da teoria econômica | 3.1. A globalização capitalista contra os trabalhadores | 3.2. A reação dos trabalhadores brasileiros à globalização neoliberal | 3.3. O impacto dinâmico do aumento dos salários reais | 3.4. A revolta empresarial (seletiva) contra o custo-Brasil | 3.5. A estratégia de incentivo ao investimento privado com Dilma Roussef | 3.6. A tendência ao baixo desemprego e a unificação da burguesia pela austeridade salarial e fiscal | 3.7. O fracasso da austeridade para restaurar a confiança empresarial e a necessidade de disciplinar democraticamente os disciplinadores | Referências citadas

1. Introdução

Capital e trabalho, harmonia ou conflito? Os capitalistas ganham dinheiro às custas dos trabalhadores? Ganhando ou não, assegura-se que empreguem todos os trabalhadores em busca de emprego? O desemprego é culpa dos trabalhadores, do capitalismo ou de intervenções do Estado? Estas são algumas das perguntas que a teoria econômica fez ao longo da história, sem chegar a um consenso até hoje.

Neste artigo, realizo um ensaio largo, de voo alto, sobre as principais respostas teóricas oferecidas a estas perguntas desde aquele que pode ser considerado o primeiro economista político, o filósofo escocês Adam Smith. Apresento os traços gerais das escolas de pensamento fundamentais, procurando realçar o quanto informam o discurso leigo sobre as relações capital-trabalho e as causas do desemprego. Isso ocorre mesmo que os que opinam no cotidiano não saibam o quanto seus argumentos foram moldados por “algum economista defunto”, como escreveu o mais influente economista do século XX, John Maynard Keynes. O parágrafo célebre que conclui sua Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda é muito citado a propósito:

…as ideias de economistas e filósofos políticos, tanto quando estão certos como quanto estão errados, são mais poderosas do que se entende normalmente. De fato, o mundo é dirigido por pouco mais do que isso. Os homens práticos, que se consideram bastante isentos de quaisquer influências intelectuais, são usualmente os escravos de algum economista defunto. Loucos em posição de autoridade, que ouvem vozes no ar, destilam seu frenesi desde algum escritor acadêmico de alguns anos atrás. Estou certo que o poder dos interesses velados é amplamente exagerado quando comparado com o gradual avanço das ideias… cedo ou tarde, são as ideias, e não os interesses velados, que são perigosos para o bem e para o mal. (Keynes, 1936, p. 349).

Embora concorde com a importância das ideias, ou melhor, das tradições ideológicas na opinião dos homens práticos, creio que não podemos subestimar a importância dos interesses velados na resposta preferida por cada grupo social. A posição do indivíduo na sociedade não é determinante da opinião que tem, uma vez que as ideias não apenas refletem o interesse econômico privado, mas ajudam a constituir a própria percepção do que é o interesse individual e público, para o bem ou para o mal.

Embora as ideias tenham uma importância autônoma na prática política, raramente elas convencem seus portadores a praticarem o suicídio ou, pelo menos, a agirem muito tempo de modo a se prejudicar. Por exemplo, os capitalistas não tendem, enquanto classe, a culpar publicamente o capitalismo pelo desemprego ou pela concentração da renda, preferindo responsabilizar o Estado ou os trabalhadores, em particular os sindicatos. Como veremos, uma ideologia central para a reprodução do capitalismo é que cada um tende a ocupar a posição social adequada a seu mérito e a ser remunerado de acordo com sua contribuição individual para a sociedade. Os mais bem posicionados no sistema social não tendem a questionar essa ideologia que os elogia, mas encontrar outros culpados pelos problemas sociais (como o desemprego e a concentração de renda) que tendem a ser objeto de controvérsia em todas as sociedades capitalistas.

Sendo influenciado pela ideologia da meritocracia e da remuneração justa pelo esforço, um trabalhador individual pode culpar a si mesmo por seu destino. Contudo, as organizações coletivas de trabalhadores tendem a responsabilizar o capitalismo e/ou a política de governo pelo desemprego, por salários baixos e condições de trabalho inadequadas, pressionando para alterar aquilo que não podem considerar apenas fruto do acaso ou do mérito individual, mas produtos da sociedade que podem ser mudados pela ação coletiva.

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Pedro Paulo Zahluth Bastos é Professor Associado (Livre-Docente) do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (CECON) da UNICAMP. Economista formado pela UNICAMP, mestre em ciências políticas e doutor em economia, é ex-presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica (ABPHE).

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