Dinâmicas da ação coletiva no Brasil contemporâneo: encontros e desencontros entre o sindicalismo e a juventude trabalhadora

Ruy Braga
Marco Aurélio Santana

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Fonte: Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 75, p. 529-544, set./dez. 2015.

Resumo: Tendo em vista o lugar tradicional dos sindicatos como canal de organização e condução de conflitividade na sociedade brasileira, o artigo se propõe articular a reconfiguração das classes sociais no Brasil contemporâneo, as manifestações atuais da inquietação social e a situação dos sindicatos frente a essa nova configuração. A especial ênfase ao papel dos sindicatos nesta nova conjuntura global parte da premissa de que as diferentes respostas dos sindicatos nacionais ao advento do protagonismo político da juventude trabalhadora em condições precárias de vida e de trabalho representam uma oportunidade privilegiada de observação das atuais reconfigurações classistas em contextos de crise.

Sumário: Apresentação | Um olhar sobre o trabalho global: precarização e contramovimentos | Precariado e movimento sindical no sul global | Juventude trabalhadora precária, movimento sindical e ação coletiva no brasil | Considerações finais | Referências

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Apresentação

Enquanto as manifestações de junho de 2013 faziam tremer a nação, uma pergunta pairava no ar: diante de tantos protestos e mobilizações, onde os jovens davam a tônica, por que os sindicatos não contavam entre as forças motoras daquele mar revoltoso de gente? Aumentando o vazio da ausência dos mesmos no cenário, uma greve geral foi convocada, pelas redes sociais, sem que eles, como outrora, protagonizassem a convocação. Quando, finalmente, apareceram em cena, quase em resposta alternativa àquele chamamento, no dia nacional de lutas, pareciam um tanto em descompasso quantitativo e qualitativo com tudo o que se passava.

A partir do que seria esta disjuntiva, poder-se-ia pensar o lugar tradicional dos sindicatos como canal de organização e condução de conflitividade na sociedade brasileira. Propomo-nos a fazer isso a partir de um eixo que articula a reconfiguração das classes sociais no Brasil contemporâneo, as manifestações atuais da inquietação social e a situação dos sindicatos frente a essa nova configuração. A especial ênfase ao papel dos sindicatos nesta nova conjuntura global parte da premissa de que as diferentes respostas dos sindicatos nacionais ao advento do protagonismo político da juventude trabalhadora em condições precárias de vida e de trabalho – o precariado – representam uma oportunidade privilegiada de observação das atuais reconfigurações classistas em contextos de crise.

Um olhar sobre o trabalho global: precarização e contramovimentos

Já de algum tempo, muitos analistas têm apontado, sistematicamente, para um enfraquecimento do sindicalismo fordista apoiado na fração adulta, branca, masculina e nacional da classe trabalhadora dos países de capitalismo avançado (Beaud e Pialoux, 2009, entre outros). A mudança da estrutura industrial dos países do Norte global para os países do Sul global (especialmente, a China) somada ao enfraquecimento da segurança sócio-ocupacional, promovido tanto pela retração dos direitos trabalhistas quanto pelo declínio do apoio de governos liderados por partidos social-democratas teriam decretado o advento de toda uma era de declínio do poder sindical em escala global, traduzido em queda nas taxas de sindicalização e na perda de influência política em escala nacional.

Tendo em vista a acentuada transformação na correlação global de forças entre as classes estabelecida no pós-guerra e nos novos desafios enfrentados pelo poder sindical, a partir dos anos 1980, alguns estudiosos do trabalho decidiram analisar as respostas produzidas pelas forças sociais do trabalho aos desafios da globalização neoliberal, privilegiando uma perspectiva desigual e combinada do fenômeno sindical, por meio de estudos comparativos entre diferentes realidades nacionais (Bieler, 2014; Bieler, Ciccaglione, Hilary e Lindberg, 2014; Harriss, 2010, dentre outros).

Deslocando o foco das estratégias sindicais balizadas exclusivamente pelo Estado-nação para as mudanças na ação coletiva das forças sociais do trabalho, tendo em vista processos emergentes de solidariedade transnacional, estes novos estudos do trabalho global (conhecidos como Global Labour Studies) concentraram-se na análise da globalização contra-hegemônica (Evans, 2008), nas coalizões entre o sindicalismo e os novos movimentos sociais em escala transnacional (Bieler; Lindberg, 2010), nas forças sociais alternativas, tais como os trabalhadores informais e os trabalhadores precarizados (Agarwala, 2013), além das estratégias transnacionais do movimento sindical fordista (Evans, 2014).

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Ruy Braga é Doutor em ciências sociais pela Universidade Estadual de Campinas e professor do Programa de Pós Graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) onde coordena o Centro dos Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic-USP). Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Sociologia do trabalho, atuando principalmente nos seguintes temas: classe trabalhadora, sindicalismo e movimentos sociais. Publicações recentes: A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista (São Paulo: Boitempo, 2012) e A pulsão plebeia: trabalho, precariedade e rebeliões sociais (São Paulo: Alameda, 2015).

Marco Aurélio Santana é Doutor em Sociologia. Professor do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do IFCS/UFRJ. Pesquisador do Núcleo de Estudos Trabalho e Sociedade (NETS-UFRJ). Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Sociologia do Trabalho, atuando principalmente nos seguintes temas: Trabalho, Trabalhadores, Lutas sociais e Ditadura Militar. Publicações recentes: Bravos Companheiros: comunistas e metalúrgicos no Rio de Janeiro (1945-1964) (Rio de Janeiro, 7Letras, 2012); Partidos e trabalhadores na transição democrática: a luta pela hegemonia na esquerda brasileira. Revista Dados (2012); The dilemmas of the new unionism in Brazil: breaks and continuities. Latin American Perspectives (2014), em co-autoria com Ricardo Antunes.

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