Controle eletrônico, metas e intensificação do trabalho na empresa bancária Banco do Brasil

Cleito Pereira dos Santos

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Fonte: Revista da ABET, v. 14, n. 2, p. 290-309, jul./dez. 2015.

Resumo: O trabalho bancário, fortemente rotinizado durante os anos 1980 e metade dos anos 1990 na empresa financeira Banco do Brasil, implicava a adoção de formas de controle estabelecidas em torno da supervisão manual das atividades realizadas. Ao instaurar, a partir de 1995, nova ordem nos locais de trabalho, a instituição financeira tratou de criar novos mecanismos de controle baseados no uso de tecnologias de informação e da comunicação (TICs) e de gestão de recursos humanos. Esta pesquisa teve como objetivo compreender as mutações do trabalho nessa empresa bancária a partir da criação de novas formas de controle nos ambientes de trabalho. Foram realizadas 30 entrevistas semiestruturadas com trabalhadores e trabalhadoras da estatal financeira em Goiânia, Brasília, São Paulo e Florianópolis. As entrevistas foram realizadas nos anos de 2007 e 2008. Posteriormente, entre 2011 e 2013, retomamos a investigação na empresa bancária analisando documentos e relatórios de gestão. O controle por meio dos sistemas – controle eletrônico, controle on line – se expandiu e se diferenciou ao longo da introdução das TICs. A transformação das agências em locais, por excelência, de vendas de produtos e serviços trouxe como uma de suas consequências, além da intensificação do trabalho, a imposição de programas de metas, tendo em vista a lógica do mercado de vender em escala crescente.

Sumário: 1. Capitalismo e controle sobre o trabalho | 2. Controle eletrônico, metas e intensificação do trabalho bancário | 3. Procedimentos metodológicos | Referências

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1. Capitalismo e controle sobre o trabalho

Neste artigo, discutimos a emergência do controle eletrônico sobre o trabalho e a relação das metas com a intensificação do ritmo da atividade laboral. O objetivo é compreender os mecanismos utilizados pela estatal financeira Banco do Brasil para subordinar o trabalho à lógica bancária e empresarial. Tanto o controle eletrônico quanto as metas consubstanciam as formas atuais de subordinação do trabalho ao capital financeiro. A dominação no trabalho passa a contar com outros mecanismos de convencimento e adesão. A gramática empresarial traz expressões reveladoras do novo estatuto disciplinar e de controle. Ao analisar a manipulação psicológica no trabalho, Heloani (2003) constata a existência de uma nova linguagem voltada para o estabelecimento da dominação e da subordinação do trabalhador no universo da empresa.

A virada organizacional da estatal pesquisada retrata a nova perspectiva adotada no sentido de adaptar o trabalho e os trabalhadores aos novos mecanismos de organização, controle, disciplina e hierarquia no universo do trabalho bancário. As inovações tecnológicas e organizacionais reconfiguraram o ambiente e as relações de trabalho na empresa à medida que instauraram novo código de comportamento, evidenciado pelo discurso da competência, da empregabilidade, da responsabilidade socioambiental, do comprometimento e envolvimento com os objetivos do banco.

O controle, entendido enquanto ação da administração para coordenar e dominar o ambiente e as relações de trabalho, tem se transformado nas últimas décadas com a adoção de novas tecnologias capazes de intensificar a fiscalização do processo de trabalho e, ao mesmo tempo, fazer com que cada trabalhador ofereça mais trabalho ao capital. Os investimentos em tecnologia de informação no sistema bancário nacional crescem constantemente. O desenvolvimento de novos meios informacionais coloca o setor na vanguarda da utilização de recursos de software e hardware mais versáteis e programados de acordo com as necessidades da automação bancária.

Desde o aparecimento do trabalho assalariado que a questão do controle surge como fundamento da produção de mais valia e, consequentemente, da exploração da força de trabalho. Nesse sentido, as formas de subordinação e controle têm se sofisticado ao longo do desenvolvimento do capitalismo.

Em O Capital, Marx (1988) ao analisar a evolução da indústria capitalista apontara para o fato de o controle da força de trabalho ser algo essencial para o sucesso do capitalista. A organização do trabalho não está dissociada das formas de controle e disciplina; em consequência, a extração de mais-valor e a acumulação do capital requerem um tipo específico de organização do trabalho, na qual o controle é de importância vital para a produção do excedente.

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Cleito Pereira dos Santos é Doutor em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS/UFG). Membro do Núcleo de Estudos sobre o Trabalho (NEST/UFG).

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