Um 1º de maio revelador da tragédia brasileira

Fotografia: Abraão Soares/Estadão Conteúdo

No dia histórico das lutas da classe trabalhadora, parte da elite brasileira tomou as ruas em numerosas manifestações, para, dentre outras coisas, defenderem a manutenção da situação em que nos encontramos, expondo rejeição às medidas de prevenção e nada propondo sobre vacinação pública.

Jorge Luiz Souto Maior

Fonte: Blog do Autor
Data original da publicação: 02/05/2021

No dia histórico das lutas da classe trabalhadora, parte da elite brasileira, que se move também pelo revisionismo histórico e o desprezo ao conhecimento, utilizando sua já tradicional estratégia de inversão dos fatos e apropriação de seus significados e simbologias, tomou, ela própria, as ruas, em numerosas manifestações, para, dentre outras coisas, defenderem a manutenção da situação em que nos encontramos, expondo rejeição às medidas de prevenção e nada propondo sobre vacinação pública. Não satisfeita, se mobilizou para defender a implementação, por outorga, de um regime ditatorial, de modo a possibilitar o uso arbitrário da força estatal (e, no caso, também, miliciana), com todos os seus efeitos inerentes, prisões, torturas, assassinatos e extradições, para aniquilar adversários políticos e ideológicos. O efeito, do ponto de vista das imagens, foi bastante impressionante, com cenas de lutas trabalhistas concretas em outros países, em contraposição com o cenário brasileiro dominado por fotos de manifestações bolsonaristas, alegres e coloridas de apoio ao governo, fazendo transparecer que por aqui a situação está bem mais tranquila e harmônica do que nos países retratados.

Este contraste fotográfico, no entanto, apenas revela (deixa bem nítido) como o Brasil está atrasado em termos de enfrentamento da COVID-19 com relação aos demais países, onde as pessoas já podem ir às ruas com menor risco de perder a vida, para fazerem suas tradicionais reivindicações trabalhistas, no sentido da conquista de novos direitos, enquanto aqui os trabalhadores e trabalhadoras estão morrendo (3.00/4.000 ao dia – sem contar a subnotificação) e, por consequência, estão tentando, de algum modo, manter-se vivos e uma forma para tanto é não se aglomerar. Além disso, estão acuados e com medo da fome, que já assola mais de 12 milhões de pessoas.

​E, claro, o contraste em questão é também reflexo do imobilismo recorrente da esquerda nacional, que se burocratizou e que, mesmo diante da gravidade do momento, tem dedicado, com sério efeito conivente, todo seu esforço e atuação à via das eleições de 2022.

Neste contexto, só vão para as ruas mesmo os negacionistas, figuras mimetizados de seu “mito”, que pouco se importam com a vida alheia (e, por ignorância, com a própria vida), e, assim, não se incomodam em promover aglomerações e não usar máscaras, para vociferarem ódio, golpearem a democracia e corroborarem os atos e omissões que multiplicaram a nossa tragédia social e humana.

Assim se postaram em nome da preservação da sua condição de elite e classe dominante, uma posição que, de fato, se vê ameaçada, embora isto se dê muito mais como efeito das políticas econômicas ultraneoliberais e entreguistas que tanto defendem e também por causa da excessiva demora – até se atingir um estágio de uma quase impossível recuperação – do governo em tomar as medidas necessárias para conter o contágio do que pelos motivos que, manipulados, acusam.

Melancólico fim das elites brasileiras!

Jorge Luiz Souto Maior é professor de direito trabalhista na Faculdade de Direito da USP. Autor, entre outros livros, de Dano moral nas relações de emprego (Estúdio editores).

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