Trabalhadores e combate à desinformação: perspectivas do Sul Global

Fotografia: John W. Tomac/Washington Post

Oferta de desinformação deve ser abordada entendendo os arranjos de trabalho e a falta de supervisão regulatória nas indústrias criativas e digitais.

Jonathan Ong

Fonte: DigiLabour, com ACM Interactions
Data original da publicação: 06/05/2022

Nas Filipinas, os moderadores de conteúdo, também conhecidos como “zeladores digitais”, trabalham incansavelmente para remover fotos sangrentas e obscenas de nossas mídias sociais. O país é um dos maiores centros de trabalho terceirizado de moderação de conteúdo, uma consequência de sua indústria de call center – a maior do mundo. Ao contrário dos moderadores em outros grandes centros, como a Índia e os Estados Unidos, que analisam principalmente o conteúdo compartilhado por pessoas que estão nesses países, os moderadores de conteúdo em Manila avaliam postagens de todo o mundo. Apesar do trauma psicológico da exposição constante a imagens de assassinatos, decapitações e abusos, os trabalhadores se inscrevem para esse trabalho fantasma em troca de uma fonte confiável de renda para si e suas famílias. Afinal, a indústria digital há muito é celebrada como uma “indústria brilhante”, onde os “trabalhadores do conhecimento” criativos são saudados como heróis modernos por suas contribuições para o desenvolvimento econômico das Filipinas.

Insights

  • A trollagem política é uma atividade paralela lucrativa para muitos jovens no Sul Global. Seus pontos de entrada no trabalho de trolls são variados e muitas vezes inesperados
  • Alguns são motivados por razões puramente financeiras. Mas executivos poderosos de agências de comunicação também emprestam sua experiência de branding a políticos
  • Contar histórias completas das motivações complexas das pessoas comuns para atuar com trollagem política abre debates complexos sobre cumplicidade que diferem das narrativas típicas de heróis versus vilões

Não muito longe dos moderadores de conteúdo estão as fazendas de trolls, que também recrutam jovens, geralmente de classes médias precárias, para operações de influência. O trabalho cotidiano da produção de desinformação inclui a criação e manutenção de contas falsas, a criação de memes positivos e negativos (de “ataque”) e o monitoramento de páginas da grande mídia em busca de notícias para as quais possam expressar apoio ou atacar em massa, dependendo dos caprichos de seus clientes. Os trabalhadores da desinformação de baixo nível geralmente são recém-graduados que buscam renda extra por meio de um trabalho paralelo de curto prazo. A temporada eleitoral, que dura três meses, mas envolve um período mais longo de preparação, em que os estrategistas políticos começam a mobilizar seus exércitos de cliques e a apresentar seu portfólio aos políticos, apresenta muitas oportunidades para quem busca dinheiro extra.

Como revelou minha pesquisa etnográfica sobre as economias paralelas de desinformação do país, algumas pessoas são alistadas ocasionalmente e “por engano” em um projeto de trolls. Jovens que acabaram de se formar e cheios de garra podem se inscrever oficialmente como designer gráfico para uma agência de marketing digital ou como assessor legislativo de um político. Mas, uma vez que esses recém-graduados se tornam parte da rotina diária, as expectativas culturais filipinas de pakikisama (se dar bem com os outros) e os gestores assustadoramente intimidadores os pressionam a se tornarem “jogadores de equipe”, fazendo com que operem contas falsas, usem hashtags sarcásticas e produzam engajamento artificial para os dirigentes políticos, especialmente durante a época eleitoral. Os discursos homofóbicos e misóginos que eles são incentivados a produzir tornam-se conteúdos controversos que os moderadores de conteúdo das plataformas devem eliminar das mídias sociais.

A proximidade geográfica e social das fazendas de moderação de conteúdo e a indústria de desinformação incorporada às indústrias criativas “respeitáveis” – e até mesmo dentro dos próprios escritórios do governo – é irônica, se não totalmente distópica. Notáveis ​​ativistas e jornalistas pró-democracia contaram para o mundo a história das Filipinas na esperança de pressionar as plataformas do Vale do Silício por maior responsabilidade na disseminação de discurso de ódio e nas maneiras pelas quais os resultados eleitorais podem ser manipulados. Minha contribuição de uma pesquisa centrada nos trabalhadores para o debate sobre desinformação, no entanto, argumenta que também precisamos aprofundar nossa compreensão sobre os arranjos complexos da nossa economia digital global e os limites porosos entre trabalho digital “respeitável” e produção de desinformação “sombria”. 

O lado da oferta de desinformação não será abordado concentrando-se apenas na responsabilidade das plataformas e seus moderadores de conteúdo, nem desplataformizando líderes políticos, mas sim entendendo como os arranjos de trabalho distribuídos e a falta de supervisão regulatória das indústrias criativas e digitais sustentam o problema. O problema da desinformação por contratação é particularmente grave nas Filipinas, onde um sistema político orientado para o personalismo obriga os políticos a gastar com especialistas em branding político, que limpam sua imagem enquanto difamam a de seus oponentes. Os exemplos de Bell Pottinger e Cambridge Analytica, é claro, apontam para o problema global de como as operações de propaganda e as agências de comunicação obscuras estão sendo cada vez mais contratadas por governos, políticos e partidos políticos para manipular o discurso online. que limpam sua imagem enquanto mancham a de seus oponentes. Os exemplos de Bell Pottinger e Cambridge Analytica, é claro, apontam para o problema global de como as operações de propaganda e as empresas obscuras de relações públicas estão sendo cada vez mais contratadas por governos, políticos e partidos políticos para manipular os discursos online.

É justo fazer lobby por uma moderação de conteúdo melhor e mais rápida, especialmente porque as plataformas agem com urgência apenas ao responder a um escândalo ou a uma tragédia pública. Os pesquisadores, no entanto, especialmente os do Sul Global, devem encontrar melhores maneiras de expor como a produção de desinformação se tornou um grande negócio. É crucial que nós lancemos luz sobre as brechas regulatórias existentes que estão sendo exploradas por atores da indústria privada e atribuir responsabilidade não apenas aos trolls pagos de baixo nível, mas também aos mentores estratégicos por trás das operações de influência. Embora tenha se tornado comum exigir uma abordagem de toda a sociedade para mitigar a desinformação, raramente nos aventuramos fora da sociedade euro-americana para considerar a variedade de arranjos de trabalho na produção de desinformação no Sul Global.

Os pesquisadores devem encontrar melhores maneiras de expor como a produção de desinformação se tornou um grande negócio.

Os estudos de desinformação, amplamente definidos apor meio de uma lente euro-americana, enquadraram a questão dos trolls à luz do populismo nacionalista branco, do trumpismo e da misoginia na “manosfera” (manosphere) da Internet. Meu trabalho sobre as economias de desinformação nas Filipinas e no Sudeste Asiático argumenta que precisamos de uma análise crítica de como uma força de trabalho criativa grande e prontamente disponível assumiu consultorias políticas e influenciou operações – muitas vezes com pouca relação com ideologia política. Essa investigação nos ajuda a entender como os compadres capitalistas das novas mídias que pretendem romper o status quo apelam para as aspirações empreendedoras das pessoas comuns enquanto alimentam seus sentimentos de desconfiança com a mídia tradicional que eles insistem estar sempre alinhadas, de forma conspiratória, com um establishment de “elite”.

Na parte restante deste artigo, discutirei os diversos modelos de trabalho de produção de desinformação nas Filipinas. Argumento que as Filipinas são distintas nos espaços de desinformação não por causa da marca única de liderança populista do presidente Rodrigo Duterte, nem porque “o Facebook quebrou a democracia” no país, mas sim por causa da diversidade de modelos de trabalho de desinformação em jogo.

Modelos de trabalho de desinformação nas Filipinas

A Tabela 1 atualiza um relatório semelhante que eu escrevi para o Centro de Excelência de Comunicações Estratégicas da OTAN, incorporando revelações recentes da empresa de pesquisa privada Graphika, trabalhando diretamente com o Facebook, sobre interferência estrangeira. Eles descobriram uma rede de contas falsas operadas por indivíduos na província chinesa de Fujian.

Tabela 1 – Modelos de Desinformação nas Filipinas

Em 2019, eu e meus colegas descobrimos interferência estrangeira na política filipina. Examinamos como os empresários chineses recrutaram agências de comunicação locais como um impulso para as campanhas eleitorais daqueles que concorrem a cargos políticos locais nas cidades onde pretendiam lançar novos negócios.

A diversidade de modelos de desinformação que operam nas Filipinas ressalta que a desinformação não requer uma rede oculta que apoia um mercado ilegal. Em vez disso, a indústria da desinformação nas Filipinas está inserida no sistema político e nas indústrias criativas. Tomar essa perspectiva mais ampla nos permite afastar as explicações a-históricas ou centradas na personalidade que atribuem a “infodemia” nas Filipinas ao atual governo ou a certas personalidades vilãs online como os principais fornecedores de notícias falsas.

Muitas contas de trolls pagos e “rainhas das notícias falsas” na mídia destacam influenciadores ou operadores de contas falsas de baixo nível. É mais desafiador exigir responsabilidade política dos estrategistas de alto nível que orquestram essas campanhas. Alguns desses estrategistas estão realmente felizes em receber o crédito pelas vitórias eleitorais de seus clientes e buscam ativamente publicidade. Os jornalistas também devem ser cautelosos com esses indivíduos, pois tal notoriedade aumenta sua influência com potenciais clientes políticos e corporativos. Os mais experientes desses estrategistas fazem seus movimentos de poder nos bastidores. No relatório Arquitetos da Desinformação em Rede, que apresentava “retratos” etnográficos de diversos trabalhadores por trás de campanhas políticas nas Filipinas, um estrategista inspirou-se na personagem de Game of Thrones, Olenna Tyrell, cujas manobras políticas discretas e sutis conquistavam muito respeito daqueles que a conheciam.

Os modelos de trabalho por trás da desinformação que estão descritos na tabela não são mutuamente excludentes. Dependendo da campanha que está sendo travada, eles podem ser implantados em várias combinações. Por exemplo, produtores de desinformação por parte do Estado ou estrategistas políticos podem colaborar com especialistas que operam sites de clickbait, assim como agência de comunicação locais podem trabalhar com com entidades empresariais chinesas para promover candidatos políticos específicos em 2019.

Outra característica pouco estudada do ecossistema de desinformação das Filipinas são as justificativas psicológicas e morais dos diversos trabalhadores por trás dessas campanhas obscuras. A maior parte do trabalho de desinformação no país não é ideologicamente orientado, por isso muitos trabalhadores conseguem se distanciar do conteúdo que produzem e das consequências de suas campanhas. A natureza de curto prazo e baseada em projetos de algumas dessas tarefas relacionadas a campanhas também indica que poucas pessoas são empregadas como trolls em tempo integral. Então, eles acabam transferindo a responsabilidade para outros que consideram atores maiores e “mais malvados” em um ambiente informacional totalmente amoral.

Regulação das Tecnologias Desde Baixo

Precisamos de uma abordagem para a indústria de desinformação nas Filipinas que considere toda a sociedade – que inclusive envolva o setor privado e exija níveis mais altos de transparência e responsabilidade. A sociedade civil, os pesquisadores e os jornalistas também podem ajudar a engajar o setor privado e trabalhar como auditores independentes para ter conversas abertas e honestas sobre a ética do trabalho criativo e digital, identificando vulnerabilidades no sistema atual.

Também é importante que pesquisadores ajudem a pressionar os líderes e reguladores do setor, pois os próprios jornalistas nas Filipinas podem relutar em antagonizar aqueles que controlam o dinheiro da publicidade corporativa do qual suas agências de notícias dependem. Para que isso avance, os aliados pró-democracia e os doadores estrangeiros precisam apoiar a sociedade civil local e os pesquisadores a defender a regulação das tecnologias “desde baixo”, em vez de reproduzir as mesmas intervenções em relação à desinformação que não lidaram adequadamente com os poderosos empresários que estão investidos em manter o sistema atual do modo como está. A regulação das tecnologias desde baixo significa um rastreamento mais robusto dos gastos na campanha eleitoral, mecanismos de transparência para identificar agências de comunicação e consultores políticos por trás das campanhas, e apoiar alianças multissetoriais que possam garantir eleições justas e honestas. As intervenções também devem ser amplas o suficiente para incluir redes de segurança social para trabalhadores digitais precários e proteções de privacidade para denunciantes que procuram expor práticas antiéticas.

Em um contexto global, a pesquisa em economia política e o jornalismo investigativo sobre o negócio da desinformação expuseram o funcionamento interno da empresa de análise de dados Cambridge Analytica e da agência de comunicação Bell Pottinger. Os pesquisadores, especialmente aqueles que estudam o Sul Global, precisam colaborar e impulsionar o lobby por maior transparência e responsabilidade das indústrias criativas e digitais. Essas indústrias recrutam trabalhadores tanto para limpar quanto para poluir nossos ambientes de informação em arranjos igualmente precários, mas seus líderes raramente tiveram que responder pelos custos políticos e humanos de seus prósperos empreendimentos.

Jonathan Corpus Ong é professor associado de comunicação da University of Massachusetts Amherst. É pesquisador do Shorenstein Center da Harvard Kennedy School, onde lidera o projeto de pesquisa “True Costs of Misinformation”, explorando o impacto do assédio direcionado aos defensores de direitos humanos no contexto global

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