Relação vil de trabalho dos tempos atuais atropela o ‘homem onça’

Fotografia: Pandora Filmes

“O trabalho enobrece ou empobrece? É isso que está em questão. Qual é o real valor do trabalho na sociedade atual? Qual é a consideração para a dedicação ao trabalho? Oito horas de trabalho, oito horas de descanso, oito horas para integrar-se aos seus e à sociedade como um todo? Isso está sendo atropelado de uma forma vil.” A avaliação é do ator Chico Diaz, protagonista de Homem Onça, novo filme do diretor e roteirista Vinícius Reis.

A fábula sobre as privatizações, como define o cineasta (leia mais abaixo), relata a história de Pedro (Chico Diaz), que trabalha numa das maiores estatais do país, a fictícia Gás do Brasil. Mas a vida estável de classe média ao lado da mulher Sônia (Silvia Buarque) e da filha adolescente Rosa (Valentina Herszage) afunda, junto com a privatização da empresa para a qual Pedro dedicou praticamente toda a vida.

Pressionado por esse cruel processo de reestruturação, Pedro é forçado a demitir sua equipe e antecipar sua aposentadoria. Separa-se da família e volta a sua cidade natal, onde passa a viver com uma nova companheira, Lola (Bianca Byington, prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival de Gramado). Desse modo, descobre que a onça pintada – que habitava a floresta ao redor de Barbosa na sua infância –, está mais viva do que nunca. Assim como está vivo o tema das privatizações no Brasil.

Barra pesada

Quando surgiu a ideia, diante de um drama familiar, o cineasta Vinícius Reis pensava estar fazendo um filme de época. “Esse filme nasceu nos almoços de domingo na casa dos meus pais. Nesses almoços de domingo meu pai me contava o que estava acontecendo na Vale do Rio Doce, como a onda de demissões, as aposentadorias antecipadas. E assim, ele me contava como a empresa que era um prolongamento da família, do lar, virou uma espécie de campo de concentração”, lembra o diretor de Homem Onça. “Tinha umas listas que corriam com o nome de quem ia ser demitido, clima de terror. Meu pai teve de demitir a equipe, se aposentar mais cedo, contra a vontade dele. Isso foi um tsunami na vida dele.”

Desde então, até o filme chegar às telas, passaram-se 20 anos. Em 2010, Vinícius Reis escreveu o roteiro, porém, só em 2017 conseguiu recursos para a produção, via edital da Ancine. “(Em todos esses anos) Escrevi roteiros, dirigi séries, outros filmes. Mas a ideia do Homem Onça estava sempre lá.”

O filme ficou pronto no meio da pandemia. “Portanto, coincide com esse momento que a gente está vivendo, muito barra pesada, do Brasil. Achei que ia fazer um filme de época e, de repente, Homem Onça fica pronto e tem um diálogo muito forte com o que está acontecendo. Espero que seja uma faísca para pensarmos o Brasil, nossa soberania, nossa condição de trabalhador, trabalhadora. O respeito e a dignidade que têm de ter. Espero (que o filme desperte) atenção e olhar para nossas riquezas, para o que temos de melhor. E que é sempre vendido a preço de banana, pois é histórico isso.”

Precarização da vida

Para Reis, o trabalho pode sim enobrecer, mas se você tiver muita conexão com o que você faz. Como ele explica: “Se te realiza e te transforma no dia a dia. Porém, pode empobrecer também se te oprime, se você é explorado pelo trabalho. E a gente vê isso cada vez mais”.

Assim, avalia Chico Diaz, “nesses tempos que correm” o filme é de extrema importância e contemporaneidade. “Consequentemente, a questão que ele traz para uma reflexão sobre o valor do trabalho e seu significado perante a sociedade. Afinal, o mundo está na direção de uma precarização do trabalho e do valor da vida do homem”, destaca o ator.

Isso porque, como observa, as pessoas estão sendo expulsas do poder laboral e o significado do trabalho está se desvalorizando a cada ano que passa. “Nesse sentido, é o dinheiro que está tomando lugar na discussão das relações da integração do homem na sua própria existência. A privatização coloca em questão que as decisões econômicas não estão levando em conta o grande contingente humano que está por baixo e por trás de todo processo econômico”, lamenta Chico Diaz.

Sobreviver e reinventar

E trabalhar com cinema, num país cujo governo despreza a cultura e a arte, é um ato de resistência, define Reis, muito consciente de seus “privilégios de classe média”. Num momento de “escassas perspectivas”, ele reconhece como é especial poder estar dedicado ao lançamento de um filme como esse. “Consigo ter três refeições diárias. Tenho consciência desse privilégio para poder exercer essa resistência.”

E destaca: “É muito duro a gente ser alvo do governo. Nós, que trabalhamos pela identidade de um povo, do que chamamos de nação, sermos alvo, persona non grata, como o governo trata, é muito ruim. Mas a gente vai passar por essa, vai sair dessa, vai atravessar esse momento muito barra pesada.”

Para aguentar o tranco, Vinicius Reis conta que pensa muitos nos diretores de cinema como Vittorio de Sica, Roberto Rossellini, Luchino Visconti, que atravessaram a Segunda Guerra Mundial, a Itália ocupada, o fascismo, o nazismo. “Rossellini foi funcionário público no governo fascista e depois fez Alemanha Ano Zero e Roma, Cidade Aberta. É isso: a gente resiste, sobrevive e reinventa o mundo depois.”

Onde assistir

Homem Onça está nas salas de cinema desde 26 de agosto, mas para quem ainda não se aventura em tempos de pandemia o filme também será exibido via streaming no Belas Artes a La Carte. Em seguida, em outubro, entra no Canal Brasil e, no final do ano, chega à Globo Play.

Fábula das privatizações, por Vinícius Reis

Por que uma fábula? Porque é essa história, contada por essa onça, que também é gente, que também é homem, que também é o Pedro. Esse animal, predador ameaçado de extinção, narrando, contando esse momento, esse recorte da história do Brasil. O filme é isso. Esse devir bicho, esse animal que é o protagonista, que é o Chico Diaz que ele faz tão bem. Essa onça que é casada com a Sonia e depois vai reencontrar a Lola. Essa onça que mora dentro do Pedro e que vai saindo aos poucos do corpo dele, pela pele, começa a aparecer através do vitiligo. E o reencontro no final. Um filme em que o protagonista é um homem e um bicho também. E a fábula é essa história, uma composição narrativa contada por animais que falam. Uma fábula que fala desse período histórico das privatizações.

Quando a gente começou a pensar, esse filme se chamou primeiro Mulambo. Depois Montanha Russa. Na montagem a gente começou a ver que o filme era o Homem Onça. Fui reler Meu Tio o Iauaretê, do Guimarães Rosa. Reli Metamorfose, do Kafka, esse cara que acorda como se fosse uma barata. Fui reler A Paixão Segundo GH, da Clarice Lispector, essa mulher e a relação dela com a barata também. Fui pensar nesse devir bicho que esses personagens trazem para poder ir afinando e lapidando o Pedro, o homem onça.

Fonte: RBA
Texto: Cláudia Motta
Data original da publicação: 29/08/2021

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