Recuperação da economia: nada de otimismo

Fotografia: Luiza Castro/Sul21

A questão que se coloca neste momento é investigar as variáveis que podem determinar (ou não) uma retomada um pouco mais vigorosa, de forma a repor tudo ou quase tudo que se perdeu em 2020, quando o PIB caiu 4,1%.

Flavio Fligenspan

Fonte: Sul21
Data original da publicação: 17/05/2021

O desempenho da economia brasileira nos primeiros meses de 2021 é ruim, mas segundo diversos analistas de conjuntura e do mercado financeiro foi até melhor do que se poderia esperar diante da interrupção dos programas de apoio a famílias e a empresas que vigoraram com sucesso no ano passado. Lembremos que o maior programa, o Auxílio Emergencial, já vinha com valores reduzidos pela metade desde setembro e estancou o pagamento de benefícios em dezembro. Os programas de amparo a micro e pequenas empresas, tal como o Pronampe, também pararam de funcionar; e os auxílios para pagamento da folha e para suspender ou reduzir contratos de trabalho, idem.

Tudo parou na virada do ano, como se a simples mudança do calendário fosse amenizar os problemas sanitários e econômicos gerados pela pandemia. Era esta a visão do Ministério da Economia, expressa em várias manifestações do Ministro e de seus auxiliares mais próximos. Eles “torciam” para o quadro sanitário mudar, pois isto traria a volta da atividade, do emprego e da renda, e, por outro lado, estancaria o gasto com os programas de apoio.

O problema é que o vírus não deu trégua, e bem pelo contrário, a nova variante, combinada com a inépcia das autoridades, produziu milhares de mortos, caos no sistema de saúde e a necessidade de renovar medidas restritivas, como a suspensão de atividades. Para piorar o ambiente econômico, herdamos de 2020 uma crise de abastecimento de matérias primas que afeta a produção industrial em vários ramos, chegando mesmo a paralisar a atividade de várias montadoras de automóveis entre março e abril, por exemplo.

Ora, diante deste quadro, os resultados até não foram tão ruins como muitos projetavam, o que deu margem ao passo seguinte na escala do otimismo, criar expectativas positivas para o final de 2021, já que a vacinação vai avançar e haverá relaxamento de regras de isolamento. A produção tende a crescer e a puxar um pouco a ocupação dos vários setores, em especial nos Serviços, setor de maior peso no PIB e responsável pela maioria dos empregos, com uma peculiaridade, a de ocupar muita gente da base da pirâmide.

A questão que se coloca neste momento é investigar as variáveis que podem determinar (ou não) uma retomada um pouco mais vigorosa, de forma a repor tudo ou quase tudo que se perdeu em 2020, quando o PIB caiu 4,1%. Dos pontos positivos, é possível elencar o ambiente internacional favorável, com: o tratamento responsável da pandemia e avanço do processo de vacinação; as taxas de juros baixas; a expectativa de crescimento rápido; e os preços das commodities em alta, o que oferece bons resultados para as nossas contas externas.

No plano interno, vale lembrar que no Brasil há uma massa de poupança formada em 2020, seja pelas camadas médias da população – algumas famílias que até mesmo receberam o Auxílio Emergencial aumentaram os depósitos em poupança –, seja pelas camadas superiores, que estariam prontas para voltar ao consumo logo que houvesse a suavização das regras de distanciamento. Na visão de muitos, coadjuvados por uma expansão do crédito e pela cultura nacional do consumo, estes recursos poderiam alimentar uma retomada rápida das atividades, principalmente nos Serviços, mas também na Indústria, com a produção de bens de consumo duráveis e não duráveis. A frustração com o período de isolamento e a contenção forçada de mais de um ano alimentariam uma corrida ao consumo logo à frente.

Trata-se de um bom tema para debate, visto que noutros momentos parecidos nas últimas décadas se viu realmente um movimento semelhante, como nos casos das compras em alta logo no início dos Planos Cruzado e Real, depois de períodos de inflação alta, perda de poder de compra e desorganização da economia. No entanto, a situação atual nunca foi vivida e guarda diferenças, sobretudo pela incerteza sobre o futuro, tanto em termos sanitários, como em relação à dinâmica econômica. Até que ponto as famílias comprometeriam com o consumo seus recursos precaucionais, tendo a incerteza e o medo logo à frente? Principalmente as famílias de rendas médias, com um grau elevado de preocupação com a manutenção do emprego, sua única fonte de renda. Não há respostas claras para estas questões.

Há outro problema ligado a este. Na Coluna anterior (1º de maio) discuti o que se pode chamar de “bolha” de passivos, tanto para empresas como para famílias. Esta “bolha” seria composta de muitos compromissos que já vinham de antes da pandemia, somados aos criados em 2020, e que constituem dívidas a serem saldadas no futuro imediato. Entre elas estão os pagamentos de: serviços públicos não efetuados pelas famílias em dificuldades; empréstimos bancários que o sistema financeiro postergou voluntariamente, diante do iminente calote; e empréstimos concedidos no âmbito dos programas governamentais de apoio durante a pandemia, como para capital de giro e financiamento da folha. Toda esta “bolha” vai aparecer agora e se somar aos compromissos do presente num ambiente de crescimento lento das receitas das empresas e das famílias, neste caso pela recuperação tímida do mercado de trabalho.

Para tornar o ambiente mais difícil, as pesquisas de opinião recentes mostram uma significativa falta de confiança no Governo e um medo não desprezível de possíveis novas ondas da pandemia. Compõe o quadro negativo, uma desorganização institucional e uma indefinição do quadro eleitoral. Não é por acaso que há bem menos capital estrangeiro aplicado em títulos públicos longos nos últimos meses, justamente os títulos que exigem mais confiança dos financiadores, mais apostas no futuro. Em suma, me parece que valeria a pena ter cautela para projetar uma recuperação mais consistente da economia brasileira neste momento. O balanço entre os fatores positivos e negativos não oferece otimismo.

Flavio Fligenspan é Professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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