Por uma Economia Social e Solidária na América Latina

Ilustração: Deborah Salles

Encontro virtual reuniu entidades e especialistas de diversos países da região para debater saídas ao pesadelo neoliberal. Apostam: poder local e cooperativismo, aliados à preservação ambiental, serão cruciais na disputa pelo pós-pandemia.

Conselho Consultivo do INAES/Argentina

Fonte: Outras Palavras
Data original da publicação: 16/12/2020

Com pensadoras e pensadores de referência em Economia Social e Solidária, o Instituto Nacional de Associativismo e Economia Social (INAES) da Argentina, realizou nessa terça (dia 15, em que o Brasil comemora o Dia Nacional da Economia Solidária), a live “As economias dos povos na América Latina — entre o econômico, o social e o ambiental”. O encontro analisou as principais iniciativas e desafios políticos para se implantar uma outra economia na região, a serviço do Bem-estar dos povos, e não do rentismo. Também foi debatido saídas para a atual crise civilizatória, intensificada pela covid-19, e perspectivas para a construção do pós-pandemia, baseado no cooperativismo e todas as formas da Economia Social e Solidária (ESS), nas lutas sociais e na preservação do Meio Ambiente. O evento faz parte das Rodadas de Mates (“Rondas de Mates”), realizadas ao longo desse ano. São reuniões abertas que buscam debater temas necessários para a inovação socioeconômica da Economia Social e Solidária.

Participaram Nora Cortinãs (Argentina), uma das fundadoras das Mães da Praça de Maio; Jeannette Sánchez (Equador), Diretora da Divisão de Recursos Naturais e Infraestrutura da CEPAL e ex-Ministra de Inclusão Econômica e Social; Juan Manuel Martínez Louvier (México), Diretor-geral do Instituto Nacional de Econômica Social; Roberto Marinho Alves da Silva (Brasil), ex-secretário Adjunto da Secretaria Nacional de Economia Solidária (2003-2016) e Professor Associado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN); Carlos Aulet (Uruguai), Diretor Social do Fundo para Desenvolvimento e representante do Plenário Intersindical de Trabalhadores; Ana Pérez Conaguache (Guatemala), advogada e referência na área de Biodiversidade; Eva Verde (Argentina), da Frente Popular Darío Santillán e Coordenadora Nacional do Programa de Mercados de Cercanías; Claudete Costa (Brasil), presidenta da Unicatadores e da Cooperativa Reciclando para Viver; e Francisco Chiavon (Brasil), presidente da União Nacional das Organizações Cooperativistas Solidárias (Unicopas).

Eis o debate:

Um breve resumo do encontro

Durante o encontro, os expositores abordaram os principais desafios de seus países e da América Latina para a implantação de políticas públicas necessárias para a Economia Social e Solidária (ESS), com um panorama que a equatoriana Jeanette Sánchez caracterizou como “desafios estruturais”: a necessidade do Estado assumir o papel de protagonista para acompanhar esses processos, fortalecendo e gerando oportunidades para a ESS. Juan Manuel Louvier apontou que se vive um “tempo histórico no México”, mas um dos desafios é “ampliar o imaginário coletivo da ESS que ainda é muito estreito”. A guatemalteca Ana Pérez Comahuamche destacou a necessária participação dos povos originários, com sua inclusão nas agendas e planos dos governos locais – uma forma urgente de se fortalecer a governança e a sustentabilidade ambiental.

O brasileiro Roberto Marinho ressaltou a importância dos processos de desenvolvimento local e das políticas geradas durante o governo Lula, que permitiram visibilizar outros modos de produção através da cooperação e da solidariedade num contexto atual de redução de direitos. Carlos Aulet apontou a experiência uruguaia quanto a participação social, o que permitiu construir uma legislação sólida em relação às cooperativas e a ESS. A argentina Eva Verde problematizou a ausência de planejamento no setor público em ESS, principalmente em torno de uma perspectiva comunitária, o que poderia gerar uma forte articulação entre consumo e produção.

Claudete Costa retomou as problemáticas do contexto brasileiro atual e os retrocessos nos direitos sociais enfrentados pelo movimento dos catadores e catadoras de materiais recicláveis – o que os obriga a viver com a “solidariedade empresarial”, e não com políticas públicas articuladas pelos governos municipais, estaduais e federal. O brasileiro Francisco del Chiavon também apontou que, diante desse contexto, é necessário recuperar o associativismo como um conceito de Cuidado: “um protegendo ao outro”, pois a iniciativa privada é incapaz de apresentar soluções às problemáticas das populações vulneráveis e o Estado, em processo de desmonte pelo atual governo, se recusa a fazê-lo.

Para acompanhar outras Rodadas de Mates, aqui.

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