Paul Singer, uma Utopia Militante

Paulo Singer. Fotografia: Raquel Cunha/Folhapress

Documentário Paul Singer, uma Utopia Militante funciona como uma simpática introdução à figura e ao pensamento do mestre, mas tem dificuldade em fornecer uma narrativa mais coesa e menos burocrática.

Carlos Alberto Mattos

Fonte: Carta Maior
Data original da publicação: 12/04/2021

Contrariando minha prática, insiro nesta resenha a sinopse oficial do filme, que equivale a uma carta de intenções:

Paul Singer, uma Utopia Militante” pode ser lido como uma autobiografia de um personagem maior da vida intelectual e paulista dos últimos 60/70 anos. Autobiografia porque se baseia numa longa entrevista onde o próprio professor narra sua trajetória e sua maneira de pensar. Desde sua chegada no Brasil em 1940, escapando da catástrofe europeia que foi a segunda Guerra Mundial, até por volta de 2016, na liderança dos movimentos de Economia Solidária. O professor Singer não é um herói, também não é uma vítima. Não comove pela emoção, mas pela inteligência. Certamente pode ser classificado como um iluminista, conservando sempre a capacidade de raciocinar e, se possível, educar. Porque foi também um educador, mesmo quando fazia política. Ou, sobretudo, quando fazia política. Esse documentário tenta mostrar de maneira mais clara possível a visão de um verdadeiro democrata, firme nas suas convicções, mas disposto sempre ao diálogo, e intolerante quanto ao emprego da força para impor ideias, sejam elas quais forem. A missão que se impôs é clara: levar a democracia ao seu limite. Ser integralmente democrático. A pretensão desse documentário também é mostrar da maneira mais evidente possível, diretamente, sem ambiguidades, as características singulares desse personagem. E para empregar as palavras de um velho sociólogo, mostrar a beleza do espetáculo de um homem pensando. Nas salas de aula ou nas reuniões políticas.”

Dito isso, é preciso acrescentar que o documentário teve um processo de produção tumultuado, acabando por se viabilizar através de um crowdfunding promovido pelo diretor Ugo Giorgetti. Em relação ao tratamento, transparece uma certa falta de intimidade da parte de Georgetti, mais identificado com temas populares. Daí o filme ressentir-se de uma estrutura simplória, que mais parece uma primeira juntada de relatos e opiniões de e sobre Paul Israel Singer (1932-2018).

Cronologicamente, “Paulo” (como era chamado pelos mais próximos) se narra e é narrado desde a infância de judeu em Viena, passando pela vinda para o Brasil, a militância sindical durante a célebre greve operária de 1953, a entrada para a USP, a fundação do PT e a participação no governo Lula, quando implantou os conceitos de Economia Solidária e “FIB – Felicidade Interna Bruta”. Ressalta o perfil de um marxista anti-soviético, judeu afeiçoado ao Catolicismo, discípulo de Paulo Freire e dono de uma doçura muito particular que tornava a política coisa doméstica.

Com 58 minutos de duração, Paul Singer, uma Utopia Militante funciona como uma simpática introdução à figura e ao pensamento do mestre, mas tem dificuldade em fornecer uma narrativa mais coesa e menos burocrática.

Carlos Alberto Mattos é crítico de cinema.

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