Para não dizer que não falei da meritocracia

Ilustração: Kmlmtz66/Adobe Sotck

A ideia de que a competição seja o cérebro por trás da mão invisível enseja premissas ainda mais absurdas.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Fonte: GGN
Tradução:
Data original da publicação: 26/04/2022

Para entender o sentido, quem sabe, sua falta de sentido, da meritocracia é preciso relembrar como pensam os economistas e como as  questões ideológicas entremeiam o desenvolvimento dessa ciência. A Economia é eminentemente dialética, ou seja, baseia-se numa argumentação, não necessariamente em evidências, mesmo porque, na maioria dos casos, elas não podem ser medidas. A exemplo das religiões, a Economia tem dogmas. Num programa de pesquisa capitalista, a competição resolve todos os problemas; num programa de pesquisa socialista, é: “De cada um conforme suas possibilidades; a cada um, conforme suas necessidades”. Dentro dos programas de pesquisa, especialmente, no capitalista, a dialética se reveste com um invólucro científico, como na montagem de modelos. Os modelos são sistemas de equações precedidos por premissas, fora das quais, ninguém espera aderência com a realidade. Assim, um modelo será tão efetivo quanto mais verossímeis forem suas premissas. Se um cientista desenvolver um modelo, tendo a grama cor de rosa, além da capacidade do corpo humano de voar, como premissa, dificilmente chegará a um resultado verificável na prática.

Um excelente exemplo de falta de verossimilhança é a de que a taxa de juros determina o nível de investimento, bem como a propensão ao consumo, sob a premissa de que, quanto maior for a remuneração do capital, maior será a parcela disponível destinada à poupança, não ao investimento ou ao consumo das famílias. A consequência esperada seria a queda da taxa de inflação porque crê-se que reduza a pressão sobre os preços. Até hoje, não se conseguiu comprovar empiricamente esse efeito, mesmo assim, continua-se a propalar que a variação da taxa de juros é a única forma de o banco Central controlar preços. De forma crua, a manipulação da taxa de juros está mais para dogma do que para evidência, sequer premissa.

A ideia de que a competição seja o cérebro por trás da mão invisível enseja premissas ainda mais absurdas. Aqui analisam-se duas delas, a perfeita mobilidade da mão de obra e que não haja limites para até onde o indivíduo possa ir.

Perfeita mobilidade da mão de obra significa que, se uma siderúrgica fechar, os seus empregados poderão ser contratados imediatamente, pelo mesmo salário, numa fábrica de sorvete. É evidente que isso tem verossimilhança decrescente na medida em que o trabalho dependa de especialização. Um agricultor não necessariamente sabe lidar com gado, assim como um peão boiadeiro precisa aprender muito se quiser virar agricultor. Note-se que este exemplo refere-se a duas funções no mesmo setor e com pouca especialização. Imagine-se agora o que acontece quando posto de trabalho especializado extingue-se, restando ao trabalhador demitido destinar-se o que houver de menos exigente, seja em treino, seja em habilidade. Em termos populares, “quanto maior o coqueiro, maior é o tombo”. Isso explica as hordas de profissionais com currículos respeitáveis trabalhando como motoristas para aplicativos e ciclistas entregadores. E, numa economia em expansão, a migração da mão de obra oriunda do avanço tecnológico já é traumática, imagine-se o que acontece caso ela esteja estagnada  ou em crise. Será que temos de caracterizar todas essas pessoas como perdedoras? Será que não eram competentes, até admiráveis no que faziam antes de serem rebaixadas à ralé do mercado de trabalho?

 A premissa de que todos podem fazer qualquer coisa, desde que se esforcem é igualmente descolada da realidade. Um corredor de 100 m rasos tem pouquíssima probabilidade de desempenho satisfatório numa maratona. Seu biótipo não permite. Uma jogadora de vôlei dificilmente será competitiva numa prova de alto rendimento em ginástica olímpica, pois seu tamanho não permite usar os aparelhos condizentemente. Olimpíadas são competições de extremos. 99,999% da população não têm nível olímpico, mesmo assim, somente um ganha. Extrapolando o raciocínio para a vida laboral de todos os indivíduos, querer que os empregados estejam sempre competindo, na busca da honra ao mérito leva a sociedade ao canibalismo. O resultado disso é o ministro da educação alegar que uma criança com deficiência, em sala de aula, reduz o rendimento de todas as demais. É a selvageria em sua plenitude, é a negação de que todos os seres humanos vão até onde sua capacidade e as condições sociais em que se desenvolvem afetam positiva ou negativamente seu sucesso. Então, será lícito repetir as palavras de Nelson Piquet ao afirmar que o “Segundo lugar é sempre o primeiro entre os perdedores”?

A meritocracia é o resultado do pensamento calvinista porém, com uma roupagem pseudocientífica. Em vez de se buscar a graça, como queria Calvino, busca-se o reconhecimento pelos seus pares, nada além disso. A própria ideia de mérito carece de consenso. Para Luís XV, seu grande mérito era ser neto de Luís XIV; para um matador de aluguel, a representação máxima do mérito são os almejados cem por cento de mortes em relação ao contratado. Em seguida, a meritocracia esbarra na medição, o que pode nunca acontecer. Se a efetividade da manipulação da taxa de juros como prevenção à inflação fosse medida, provavelmente, muitos prêmios Nobel seriam devolvidos.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. 

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