O que existe por trás das roupas

Cena do documentário Machines. Fotografia: Jann Pictures

A fascinante história de Pierre Cardin e uma infernal fábrica de tecidos na Índia trazem imagens contrastantes da indústria de roupas no Festival Internacional de Documentários de Moda.

Carlos Alberto Mattos

Fonte: Carta Maior
Data original da publicação: 14/12/2020

A primeira coisa que chama atenção a respeito do Feed Dog Brasil – Festival Internacional de Documentários de Moda é o seu título. Em inglês, feed dog é a peça da máquina de costura que empurra o tecido sob a agulha. Ou seja, é o que faz a costura avançar. O festival, criado em Barcelona em 2015, chegou ao Brasil em 2017 com curadoria da crítica Flávia Guerra. A edição 2020 será online e gratuita de 15 a 20 de dezembro, com 15 filmes disponíveis no site do festival.

Os brasileiros premiados Favela é Moda, de Emílio Domingos, e Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar, de Marcelo Gomes, são destaques da programação. Entre os filmes nacionais, estão também Fios de Alta Tensão, de Sérgio Gagliardi-Gag, e Deixa na Régua, de Emílio Domingos, que retratam a beleza, o significado e o valor do cabelo para a vida, a socialização e a construção da identidade de indivíduos, comunidades e grupos étnicos. Completam a seleção os curtas Alfaiates de Belo Horizonte, de Sílvia Godinho e Ana Luísa Santos, Mini Miss, de Rachel Daisy Ellis, e Planeta Fábrica, de Júlia Zakia.

Vão desfilar no festival, ainda, documentários sobre grandes figuras do mundo da moda, como Pierre Cardin, Alexander McQueen, o fotógrafo Robert Mapplethorpe, o iconoclasta estilista belga Martin Margiela e a top model italiana Benedetta Barzini, musa de Andy Warhol, Salvador Dalí e Richard Avedon.

Haverá oficinas, palestras e debates com grandes nomes da moda brasileira, pesquisadores e consultores da área, abordando desde moda inclusiva ao significado dos turbantes.

Eu já tive oportunidade de ver dois filmes de grande interesse e completamente contrastantes dentro do tema da moda: House of Cardin, um fascinante perfil de Pierre Cardin que vai abrir o festival hoje (terça, 15/12), e o indiano Machines, sobre uma infernal fábrica de tecidos na Índia.

Pierre Cardin é a celebridade em pessoa. Autodidata, criou um império aliando modernidade, ousadia e banalização. Nascido na Itália e emigrado com a família aos dois anos de idade para a França, Cardin chegou à fama de maneira romanesca, através de uma série de coincidências felizes. Ou pelo menos é assim que ele conta diretamente para a câmera dos diretores P. David Ebersole e Todd Hughes.

Depois de virar um ícone, vestir e despir grandes atrizes do cinema e liberar as mulheres das cinturas estranguladas, ele se atreveu a democratizar a alta costura, levando-a às grandes lojas em forma de prêt-à-porter. Fez mais: botou homens nas passarelas e contratou modelos asiáticas e negras bem antes que isso se tornasse politicamente correto. Não contente com as roupas, espalhou sua grife em acessórios, óculos, perfumes, móveis, carro, avião e miudezas como cadeados.

Bissexual, teve romances de longa duração com Jeanne Moreau e o colega André Oliver. A paixão pelo teatro o fez fundar, em Paris, o Espace Cardin para abrigar espetáculos alternativos e artistas novos, além de criar um festival em castelo onde morou o Marquês de Sade. Um dia, como vingança por ter sido barrado na juventude, comprou o restaurante Maxim’s de Paris.

Essa personalidade fulgurante tem sua história esmiuçada da infância aos 97 anos através de depoimentos e materiais de arquivo. Ao mesmo tempo, o filme é um desfilar permanente da estética moderna que Cardin imprimiu a seu design – dos terninhos dos Beatles ao futurismo da “era lunar”, da vanguarda francesa às extravagâncias criadas para o Japão e a China. Curiosidade à parte são as peças usadas pelas pessoas que depõem no filme. Afinal, como se vestir para falar de alguém como Pierre Cardin? Pena que o ritmo acelerado da edição não permita curtir melhor cada modelito que entra em cena.

Na extremidade oposta da pirâmide social vamos encontrar os operários de uma grande fábrica de tecidos no estado indiano de Gujarat, enfocados em Machines, de Rahul Jain. O documentário limita-se quase sempre a observar as rotinas exaustivas em planos longos e móveis através dos longos corredores de máquinas, fornalhas e tinturarias onde homens de torso suado e rostos cansados executam suas tarefas. Tudo é rudimentar, da manipulação dos tecidos ao controle de qualidade escrito na palma da mão. A automação convive com o esforço físico e o trabalho repetitivo.

Crianças, jovens e velhos misturam-se sem distinção. A tomada de um menino trabalhando numa máquina à beira da completa exaustão é algo difícil de suportar. As crianças labutam desde cedo para que se tornem adultos habilidosos e entrem na lógica perversa do capitalismo à indiana.

Rahul Jain cria imagens poderosas do trabalho escravo ao mesmo tempo em que o denuncia. Nas poucas entrevistas com operários, ouve opiniões típicas do conformismo hindu. Embora não tenham direitos trabalhistas e operem em turnos de 12 horas diárias, muitos não se sentem explorados. A dependência das rúpias mirradas os torna submissos. O patrão também fala para o filme e expõe a sua lógica: se eles ganharem bem, vão relaxar e deixar de se preocupar com a empresa.

Apenas um operário, fora da fábrica, expõe claramente a situação: quando raramente os trabalhadores esboçam alguma união, o líder é assassinado. Assim a indústria continua a funcionar, fazendo de homens e máquinas uma coisa só.

Em dado momento, Jain deixa o ambiente da fábrica e filma um grupo de camponeses em protesto na rua. A presença da câmera atrai para si a atenção dos manifestantes, que passam a cobrar da equipe. “Vocês nos ouvem mas não nos ajudam”. Eis um sinal eloquente de como o cinema, naquele contexto, é visto como parte de uma elite que explora e pouco ou nada oferece em troca.

Carlos Alberto Mattos é crítico de cinema com 40 anos de estrada. Já passou pelo Jornal do Brasil, O Globo, O Estado de S. Paulo, O Pasquim e a revista IstoÉ, entre outros veículos. Foi o primeiro programador de cinema do pioneiro Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, e editor da célebre revista Filme Cultura. Tem sete livros publicados sobre cineastas brasileiros, além da coletânea de textos Cinema de Fato: Anotações sobre Documentário.

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