O feminismo liberal é inimigo da classe trabalhadora. Uma entrevista com Nancy Fraser

Fotografia: Nancy Fraser/Arquivo Pessoal

Os anos mais recentes têm testemunhado um surto no movimento das mulheres trabalhadoras, desde impressionantes protestos contra a violência doméstica e o assédio no local de trabalho até greves maciças que marcaram o Dia da Mulher em Espanha, na Polónia, Argentina e outros lugares. Estas ações apontam a via para um feminismo anti-sistêmico, indo para lá da variante liberal e individualista promovida por gente como Hillary Clinton, Kamala Harris e etc.

Uma das expressões desta nova onda é o popular manifesto Feminismo para os 99%: um Manifesto (Boitempo, 2019). Realça que o feminismo não é uma alternativa à luta de classes, representando sim uma frente decisiva na luta por um mundo livre do capitalismo e de todas as formas de opressão.

Nancy Fraser é coautora do manifesto juntamente com Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya. Ela conversou com Rebeca Martínez sobre o livro, da sua crítica ao dito “neoliberalismo progressista”, que ela teoriza no livro O velho está morrendo e o novo não pode nascer (Autonomia Literária, 2020), e da sua compreensão de um feminismo que eleva as vozes das mulheres racializadas e da classe trabalhadora acima e ao centro.

O que é exatamente o Feminismo Para os 99% – e qual a razão para lançá-lo como manifesto?

O manifesto é uma curta peça de escrita cuja intenção é ser popular e acessível em vez de académica. Escrevi em conjunto com a feminista italiana Cinzia Arruzza, que vive em Nova Iorque, e Tithi Bhattacharya, uma mulher indiano-britânica que dá aulas nos Estados Unidos.

É a primeira vez desde que fui uma 68tista – ativista nos anos 60 e 70 – que escrevo um texto político realmente agitador. Afinal de contas, sou acima de tudo, professora de filosofia. Mas os tempos agora estão tão duros, a crise política é tão aguda, que senti que tinha que intervir e tentar alcançar uma plateia mais ampla. Por isso, o manifesto tenta articular uma nova via para o movimento feminista, que no último par de décadas foi dominado por uma ala empresarial-liberal do feminismo, personificada nos Estados Unidos por Hillary Clinton.

Esse feminismo da classe profissional gestora, de mulheres relativamente privilegiadas – mulheres de classe média ou média-alta com formação superior e majoritariamente brancas – que estão tentando se integrar no mundo militar, dos negócios e da comunicação social. O projeto visa subir na hierarquia empresarial para serem tratadas da mesma maneira que os homens da sua própria classe, com ordenamento e prestígio semelhantes.

Não se tratava de um feminismo genuinamente igualitário – não é um feminismo que tem algo a oferecer à vasta maioria das mulheres pobres e da classe trabalhadora, que não possuem esses privilégios, que são migrantes, que são mulheres de cor, que são mulheres trans ou não-binárias. E este feminismo da 1% ou talvez, na melhor das hipóteses, das 10%, manchou mesmo o nome do feminismo. Associou a nossa causa ao elitismo, ao individualismo, à vida empresarial. Deu mau nome ao feminismo, associando-nos ao neoliberalismo, à financeirização, à globalização, às políticas hostis à classe trabalhadora.

Nós três julgamos que era uma boa hora para intervir e tentar criar uma afirmação curta e acessível de uma visão e um projeto de um feminismo que tenha como ponto de partida a situação das mulheres pobres e de classe trabalhadora, e que exija aquilo que realmente precisamos para melhorar a vida das mulheres. Claro, nisto não estamos isoladas as três – existem mais feministas de esquerda tentando criar uma alternativa.

O feminismo emergiu nas gigantescas marchas e manifestações em torno do 8 de Março [Dia Internacional da Mulher]: estes protestes têm um carácter anti-sistémico, pois protestam contra a austeridade e o assalto à produção social. O movimento para alcançar as necessidades das mulheres não pode se focar  nas questões femininas na sua definição tradicional, como o direito ao aborto – embora estes sejam extremamente importantes. Tem também que pensar de modo mais amplo acerca da crise generalizada da sociedade e articular políticas e programas que beneficiem todas as pessoas. É por isso que apelamos ao feminismo para os 99%. Não significa só 99% das mulheres, mas 99% dos seres humanos do planeta.

Você mencionou o 8 de Março e as greves feministas que têm sido organizadas desde 2017 em muitos países, inclusivamente aqui na Espanha. Além disso, nos anos mais recente, aqui na Espanha, a maior parte dos protestos trabalhistas têm sido levados a cabo por mulheres, por exemplo pelas trabalhadoras domésticas e pelas cuidadoras. Então, estamos nos deparando com uma nova onda dentro do feminismo? E a que fase do neoliberalismo corresponde?

Realmente creio que é uma nova onda, ou pelo menos tem o potencial de se tornar uma, se conseguir separar-se deste feminismo liberal empresarial. E creio que demonstra muitos indícios de como fazer.

O neoliberalismo enveredou por um assalto audaz ao que chamamos de esfera da reprodução social. Isso implica em todas as atividades e programas que apoiam as pessoas e a sua reprodução: desde dar à luz e criar crianças, o apoio aos idosos e o trabalho inerente a qualquer lar em aspectos como o ensino público, os cuidados de saúde, os transportes, as reformas e a habitação. O neoliberalismo comprimiu tudo isso. Defende que as mulheres têm que trabalhar o tempo inteiro com sua força-de-trabalho remunerada e ao mesmo tempo realça a necessidade de cortar a despesa com os programas sociais como parte da austeridade e da financeirização da economia.

Então aqui temos em simultaneamente a retirada do apoio público nestas áreas e a insistência de que as mulheres devem empregar o seu tempo para produzir lucros para o capital. Isso constitui uma crise real no que toca aos cuidados e à reprodução social. É nesta esfera que surgem – como se referiu – as greves e as reações mais militantes.

Na crise dos anos 30, o centro da revolta militante era o trabalho industrial – a constituição de sindicatos, a luta por direitos trabalhistas, e por aí. Hoje a situação é outra, em parte devido à desindustrialização e à deslocalização da produção para o Sul Global. Agora no seu cerne encontra-se a reprodução social.

Você mencionou algumas greves relevantes lideradas por mulheres e eu acrescentaria que nos Estados Unidos temos tido uma enorme onda de greves de professores. É extraordinário: pagam tão pouco aos professores ao ponto de muitos deles terem segundos empregos à noite no Walmart para poderem ganhar o suficiente para manterem suas famílias. Mas estas greves dos professores não foram só por salários mais altos – foram também pelo aumento do investimento na Educação, para tornar melhores as escolas. Por isso, obtiveram um apoio tremendo da sociedade.

É um exemplo da esfera da reprodução social como campo de luta relevante. E compreendo que as gigantescas marchas e greves de 8 de Março em Espanha foram também protestos contra os cortes nas despesas sociais em todas as suas vertentes. As lutas atuais no que toca à reprodução social estão na vanguarda do combate da esquerda anticapitalista e anti-sistema, e as mulheres estão na linha da frente. Este facto tem que estar no centro de um novo modo de pensar no que à política feminista diz respeito.

Diria que a luta quanto à reprodução social interage com a luta de classes e com os movimentos antirracista e LGBTI?

Primeiro, creio que há que repensar o que queremos dizer por luta de classes. Novamente, a imagem que temos da luta de classes está ainda enraizada nos anos 30 – o trabalhador industrial branco com um sindicato. Mas eu diria que essas lutas acerca da reprodução social são também lutas de classe. Pois não conseguimos ter produção nem trabalho industrial se não tivermos alguém para produzir, para prover os trabalhadores e para tratar da geração seguinte que nos irá substituir. A reprodução social é essencial para a produção capitalista.

O trabalho que produz essas pessoas e formas de socialização tem tudo a ver com o trabalho que decorre nas fábricas. O que cria a classe não é só a relação trabalhista na fábrica, mas também as relações de reprodução social que produzem os trabalhadores. Portanto, tudo isto faz parte da luta de classes.

A ideia que tínhamos da luta de classes no passado era demasiado estreita. Não creio que o feminismo para os 99% seja uma alternativa à luta de classes. É outra frente da luta de classes e como tal deve aliar-se a movimentos trabalhistas mais familiares bem como aos que mencionaste – a luta antirracista, a luta pelos direitos dos imigrantes e a luta pelos direitos LGBTI.

Isto é também relevante devido à nova divisão racial e de classe entre as mulheres. As mulheres formadas, de classe média-alta, que venceram a discriminação e estão no topo das empresas trabalham 60 horas por semana em empregos extremamente exigentes. Contratam mulheres negras, frequentemente mulheres migrantes, para desempenharem o grosso do trabalho de cuidadoras, tratar das crianças, limpar as casas, cozinhar para os seus filhos, cuidar dos seus pais em lares e etc.. Estas mulheres liberal-feministas dependem do trabalho das mulheres negras. Estas últimas são vulneráveis: não possuem direitos trabalhistas, recebem muito pouco e estão vulneráveis aos abusos e à violência.

Há que relevar e destacar toda esta dimensão de classe e raça dentro do feminismo. O feminismo para os 99% tem que ser um movimento antirracista. Tem que ter em consideração a situação dos pobres, da classe trabalhadora e das mulheres negras – a esmagadora maioria das mulheres – e colocar como principais as suas necessidades, em vez das necessidades das escaladoras da escada empresarial que querem rachar os telhados de vidro.

De igual modo, no seio do movimento LGBTI existe uma ala liberal que tem sido hegemónica e depois temos uma massa mais ampla de pessoas cujas necessidades e problemas têm sido marginalizados. Como tal, creio que há uma luta comparável no seio dos movimentos LGBTI sobre quais as questões que devem ser relevantes. Gostava de ver o nosso feminismo para os 99% defender os trans, queer, as mulheres lésbicas, e gostava de ver um movimento LGBTI para os 99%, que seria o seu aliado natural.

Está claro que a luta acerca da reprodução social poderia construir um bloco contra o neoliberalismo e o capitalismo. Mas quanto às relações patriarcais – conseguimos combater a violência masculina dentro dos parâmetros da luta acerca da reprodução? Podemos utilizar esta frente para mudar a nossa relação com outras mulheres e, acima de tudo, com os homens?

Deixe-me começar mencionando o movimento #MeToo. A imagem pública deste movimento centra-se em Hollywood com atrizes extremamente bem pagas, entertainers, mídia e por aí afora. Mas a massa mais ampla de mulheres menos privilegiadas é ainda mais vulnerável ao ataque e assédio sexual no trabalho. Refiro-me às trabalhadoras agrícolas, algumas das quais nem têm documentos, e cuja falta de poder e recursos as torna muito mais vulneráveis às exigências dos patrões e dos capatazes. O mesmo vale para as funcionárias de hotel – por exemplo, o caso de Dominique Strauss-Kahn – ou as trabalhadoras que limpam escritórios. As pessoas que trabalham em casas privadas como funcionários domésticos são notoriamente sujeitas a violações e a ataques sexuais.

O movimento #MeToo, se o encararmos de modo mais amplo, é uma luta laboral. É uma luta por um local de trabalho seguro onde não sejamos sujeitos a abusos. Que a mídia tenham centrado apenas na camada mais alta da sociedade é uma pena, pois dá a impressão de que não se trata de uma luta de classe. Mas a questão da reprodução social também tem a ver, no seu cerne, com a alteração das relações entre a produção e a reprodução e, como tal, com a alteração do balanço de poder dentro do lar.

A reprodução social não deve ser retratada como tarefa exclusivamente feminina. É um trabalho importante para a sociedade, alguns aspectos sendo extremamente agradáveis e recreativos. Os homens também lhe devem ceder poder e devem sentir a responsabilidade de cumprirem o seu papel e empenharem-se no lar. Também isto tem a ver com a alteração da dinâmica da reprodução social dentro dos lares. E claro, um feminismo para os 99% é contra toda a violência contra as mulheres, contra as pessoas trans, contra as pessoas não binárias e contra as pessoas racializadas.

O patriarcado, diria, é um termo que pessoalmente não gosto de utilizar, pois sugere uma imagem de poder que é diádico – onde temos um senhor e um servo. Parte disso ainda existe, não o negamos. Mas as formas realmente centrais de poder da nossa sociedade existem de um modo mais impessoal e estrutural, constrangendo as opções da classe trabalhadora e dos pobres.

Assim, creio ser importante ter uma imagem diferente do poder. Este funciona por intermédio dos bancos e do FMI, através da organização da finança e da indústria, e através da construção de mercados de trabalho com base no género e na raça. É isso que determina quem tem acesso aos recursos, quem pode fazer vingar e funcionar como igual mesmo no seio das famílias e das relações pessoais.

Quando se fala de justiça social há uma distinção entre três níveis. Há a distribuição (a economia), mas também o reconhecimento (cultura) e a representação (política). Em que extensão estes três níveis estão representados no novo ciclo do feminismo?

Julgo estarmos preocupadas com todas estas coisas, e de certo modo estão correlacionadas. Não conseguimos alterar a esfera económica e as relações distributivas se não mudarmos também outras coisas.

O que é considerado relevante como questão política é frequentemente definido em termos do que é relevante como questão económica. As forças do capital insistem que as questões que digam respeito ao local de trabalho devem ser decididas pelos mercados, pelos patrões, que não se trata de questões que passem por uma autodeterminação coletiva, política ou democrática. Há uma linha divisória entre o que os donos privados do capital decidem e o que as maiorias democráticas decidem.

Muito disto tem a ver com questões culturais – estando ao nosso alcance uma linguagem que nos permite compreender a situação. Temos conceitos como assédio sexual e violação, terminologia com a qual podemos falar acerca dos erros da sociedade, falar das nossas experiências e afirmar os nossos pontos de vista?

O feminismo fez muito para criar uma nova linguagem e, nesse sentido, para alterar a cultura, alterar a compreensão das pessoas quanto ao que têm direito e ao que não têm que aturar. Assim, esse aumentou reflete na esfera do discurso político e do que é potencialmente mais uma questão de decisão democrática em vez de privada para a família ou empresa.

No momento, progredimos mais neste patamar cultural do que ao nível da mudança e transformação institucional, ambas da esfera política e económica. Mas tudo tem sempre a ver com as correlações entre estas três coisas.

Você realçou que o neoliberalismo se apropriou de algumas das críticas e das exigências que os movimentos da segunda onda feminista dos anos 70 nos trouxeram, incorporando-os em benefício próprio. Isso poderá acontecer novamente com as formas emergentes de feminismo – e o que podemos fazer para o evitar?

O feminismo liberal juntamente com o antirracismo liberal e os movimentos LGBTI liberais e o que tem sido apontado de “capitalismo verde” foram hegemonizados – incorporados – num hegemónico bloco governante que nos Estados Unidos tomou a forma do que chamam de “neoliberalismo progressista”.

Estes movimentos cederam o seu carisma, a sua ideologia, para dar força a essas políticas horríveis – financeirização, precarização do trabalho e redução de direitos – a aparência de serem pró-gay, pró-mulher e etc.. Isto aconteceu mesmo, é por isso que é tão importante que a nova onda de feminismo quebre com esse tipo de feminismo e enverede por uma nova via.

É sempre possível ser hegemonizado e recuperado por forças mais poderosas cujos propósitos finais são profundamente opostos aos nossos. É sempre importante para movimentos emancipatórios e de esquerda estar atento a isto.

Hoje, nos dizem que na realidade só temos duas opções – ou os populismos autoritários de direita, que são racistas e homofóbicos, ou regressar aos nossos protetores liberais e ao neoliberalismo progressista. Mas trata-se de uma falsa escolha – temos que recusar ambas as opções.

Estamos num momento de crise extrema no qual temos a oportunidade de delinear uma via diferente, construir um movimento verdadeiramente anti-sistémico para os 99% no qual o feminismo para os 99% seja uma corrente que luta em paralelo com os movimentos trabalhistas, ambientalismo, a luta pelos direitos dos migrantes para os 99%, e por aí afora.

Você escreveu que o Estado-nação (naquilo que aponta como conjuntura westaphaliana-keynesiana) entrou em crise com o neoliberalismo e que as suas delimitações são agora mais difusas. Chamou-lhe de política de “desconjunturação”. Mas qual é o papel do Estado-nação hoje em dia. Podemos dizer que desapareceu?

Não, não desapareceu. Historicamente a principal força para providenciar qualquer grau de proteção e segurança às pessoas trabalhadoras perante o capital foi o Estado-nação. E ainda sucede que o Estado-nação se mantém como o principal alvo das exigências. Quando queremos proteção, quando queremos apoio social, a quem pedimos? Exigimos que o nosso governo nos responda.

Isto é compreensível quando a política se encontra em grande parte organizada numa base nacional, onde as campanhas eleitorais nacionais são a principal actividade da política a nível nacional. Mas mantém-se o caso de ser fundamentalmente nada adequado.

Conseguimos ver isto quando olhamos para a migração, que é um ponto de enorme conflito, de fato uma crise. Temos pessoas de todo o mundo que não têm Estados que as possam proteger ou fornecer-lhes nada semelhante ao que nós nos países ricos pedimos que os nossos Estados nos atribuam. Vivem em Estados falidos, em campos de refugiados, são forçados a partir devido à violência política, à perseguição religiosa, devido ao fato de os Estados Unidos terem invadido e destruído os seus países, à crise climática, por muitas facetas da crise global em que vivemos.

Quando estas pessoas chegam, os movimentos populistas de direita redobram as suas políticas de nacionalismo e exclusão. Qual era o slogan de Trump? “Tornar a América Grandiosa Outra Vez” – como era antes destas pessoas negras começarem a aparecer e a arruinar o nosso país. É essa a ideologia deste movimento populista. Portanto, temos que pensar de modo transnacional e global sobre como podemos assegurar os direitos sociais de todas as pessoas do mundo. Elas precisam desses direitos, para que não tenham que se meter num barco e arriscar as vidas só para encontrarem um local decente para viver a meio planeta de distância.

Fonte: Jacobin Brasil
Texto: Rebeca Martínez
Tradução: Flávio Gonçalves
Data original da publicação: 14/08/2021

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