O cinema e o trabalho da consciência

Cena de “E.T., o extraterrestre” (1982). Fotografia: AF Archive/Alamy

Glaucia Campregher

O difícil, mas imprescindível filósofo alemão, Georg Friedrich Hegel, escreveu um livro super importante sobre o que ele chamou de “ciência da experiência da consciência”[1]. Eu, séculos depois, cometi a ousadia de escrever um livro sobre seu Método em quadrinhos[2], e usei em um dos capítulos dois filmes pra explicar a sua Dialética do Senhor e do Escravo, Django Livre, do Quentin Tarantino e Clube da Luta do David Fincher. Espero falar deles um dia destes aqui nesta coluna, mas não hoje. Hoje, quero falar sobre como os bons filmes (e até os ruins…) que o cinema produz são uma ferramenta excepcional para fazermos a ciência que Hegel nos convidava, a ciência da consciência, a qual deve ser experimentada – ao modo hegeliano – como trabalho. Peço paciência ao leitor se aqui e ali o texto ficar complicadinho, mas a complexidade simplesmente faz parte da vida… 

Antes de qualquer coisa, há que responder o que é isso de dizer que a consciência é algo que se experimenta. E já digo que é algo que experimentamos tanto no nível pessoal – pois envolve o que fazemos como pessoas (indivíduos de uma determinada espécie, animal, no nosso caso) -, e também no nível social – pois envolve o conjunto de nossas relações com os demais, comunidades e sociedades, das mais simples às mais complexas, presentes e mesmo passadas. Sim, pois toda a formatação, digamos, do nosso hardware, é uma herança, ainda que estejamos sempre a mexer na máquina, inclusive na medida em que os softwares que rodamos o exijam…

Vamos lá. De imediato, lhes digo que experimentar algo é mais que tocá-lo, é fazê-lo parte de nós, é se envolver, se misturar com ele. Mas ocorre que, ao longo de nossa história, individual e social, nós fomos fazendo o oposto, fomos separando, dividindo, catalogando. Tudo começou quando mesmo os povos mais antigos, absolutamente imbricados no todo, da natureza mais próxima ao universo mais distante, passaram a representar-se a si e ao mundo ao seu redor em imagens. Criar representações foi criar a divisão. Figuração e representação foram se sofisticando até chegar às linguagens. As linguagens, das mais prosaicas e acidentais às mais perfeitamente lógicas e perenes (como as numéricas), foram produzindo uma rigidificação da oposição sujeito (de toda ação e representação) e objeto (as coisas e os fenômenos que representamos) e uma acumulação de contradições. Estas são, em termos muito simples, os problemas que surgem para o conhecimento que ocorrem justamente por termos dividido o indivisível, o real! Vejam que não se trata aqui de fantasiar o conhecimento ideal como o que possamos ter tido antes de pronunciarmos o primeiro “uga” ou desenharmos o primeiro alce na caverna. Se não tivéssemos ousado dizer o mundo, não teríamos feito história alguma…

Pois bem, ao seguir especificamente a história da filosofia no intuito de resolver as contradições que o fazer filosófico foi promovendo tentando saber de si e do mundo, Hegel meio que implode a linguagem tradicional e amplia o significado dos signos linguísticos que, em vez de nomear qualquer coisa “morta” – uma vez que tirada de contexto (do fluxo do infinito, como diz ele) – vão tentar captá-la em seu movimento. A contradição, em vez de um defeito do pensamento, do nosso modo de apreensão dos objetos, passa a ser vista como sintoma desse movimento das coisas todas “vindo a ser”. Com isso, Hegel faz do pensamento algo diferente de uma contemplação inerte, faz dele um trabalho de verdade: algo complexo, intermitente, que exige plano, método, que dá forma e transforma, e que é sempre coletivo (a despeito dos momentos solitários de uma ou outra de suas fases). 

Isso tudo importa para que possamos partir do ponto de que nós não somos algo fechado e acabado que se confronta com um fato ou um objeto igualmente fechado e acabado. Nós nos fazemos nas relações que estabelecemos, com as coisas e as pessoas, que igualmente são afetadas por nós. Não passamos por experiência alguma sem nos modificarmos, mas também não participamos de experiência alguma sem que os nossos limites as diminuam. Com isso, as modificações que operamos podem ser maiores ou menores, mais ou menos conscientes. Se vamos a uma viagem, ou a um amor, ou ao escritório de todo dia, cheios de traumas e medos, experiências complexas podem ser abortadas ou limitadas e apenas repetimos repertórios conhecidos. Se encararmos mesmo nossas experiências passadas como ainda vivas, passíveis de reinterpretação, elas nos abrem para novas. Do mesmo modo, se participamos de uma revolução cultural, institucional ou política generalizada, tudo o que passaram os que nos antecederam vai estar ali presente, a nos informar e, a depender de nós, nos limitar ou fazer avançar. Isso significa que a humanidade só tem um destino, o de expandir o repertório humano. Mas o sentido, a forma ou a velocidade da expansão não está dado. É bom lembrar que podemos usar todo esse repertório para a nossa própria destruição. 

Podemos voltar agora ao cinema. Fazer filmes foi como tudo o mais, criar uma linguagem. De início, sobre outras, depois, cada vez mais uma própria, e ainda em movimento. Sendo uma linguagem moderna e nascendo sob o signo das sociedades capitalistas, os filmes e tudo que os rodeia são feitos para a venda. Mas não é por serem mercadorias feitas para darem lucro (aliás, por isso também!) que os filmes deixam de fazer parte de uma história humana maior, a da consciência dos humanos sobre si e o mundo onde são. O trabalho de produzir, vender e exibir filmes conta a história de um fazer técnico e social, do filme e de outras tantas produções. Os filmes impressos em película, exibidos em grandes salas, consumidos como grandes sonhos ou pesadelos, que fizeram a fortuna de grandes estúdios que funcionavam como grandes fábricas com seus milhares de trabalhadores regulares, que exportaram para o mundo os valores hegemônicos das potências dominantes, nos contam muito de nosso modo de ser e viver seja à época mesma em que os fazíamos e ainda agora quando fazem parte de uma história já algo antiga. Do mesmo modo, o modo como os fazemos hoje, pra quem, com que tipo de arranjo empresarial, contratação laboral, tecnologia material, intenção política, etc, etc, etc, nos conta muito de quem estamos sendo e quem poderemos ser. 

Todos nós falamos a linguagem fílmica, com um vocabulário, uma gramática e uma sintaxe que dominamos mais, ou menos. Todos estamos a construir sentidos para o que os filmes nos dizem. O filme não comunica o que o diretor pensou, ou o ator representou, mas também isso. Comunica coisas diferentes a povos diferentes, grupos e indivíduos diferentes, em diferentes tempos e lugares. Se ainda conversamos e refletimos sobre eles, mais e novos sentidos vão sendo tecidos. O processo inteiro só nos faz saber mais de nós, e um nós cada vez mais variado e complexo. E isso mesmo que haja filmes que nos achatem e transformem em meros comedores de pipocas coletivos ou zapeadores solitários. Isso também diz muito.

Em resumo, o cinema, como a literatura (e mais que a filosofia e a ciência), é uma linguagem que, criada como mercadoria, tinha e tem por obrigação chegar às massas. Por isso, o cinema nos envolve a todos, e em todas as suas fases. Nos traz um mundo de informações, e nos abre um mundo de aspirações – sejam aspirações de conforto e aceitação, sejam de questionamento e revolta. O que a linguagem fala, depende… O objeto material que é o filme e o objeto temático que está tratado nele e os sujeitos que o fizeram, e os que o veem, compartilham, discutem, todos estão imbricados nesse processo de fazê-lo fazer sentido. Se é verdade que precisamos estar com os corpos parados e relaxados (nem sempre foi assim), ao nos defrontarmos com todas as  imagens, paisagens, olhares, lágrimas, gozos, desesperos, discursos, silêncios, e todos os recursos que o cinema mobiliza, é verdade também que tudo isso põe a consciência em estado de alerta total. Bons filmes conseguem tornar esse estado em altamente produtivo, seus ecos durando muito tempo e nos atingindo muito fundo.

Não falei de filme algum hoje, porque me senti instada a falar do que fazem todos os filmes. Isso porque não pretendo nesta coluna falar só dos filmes que falam destes ou daqueles trabalhos. Vamos, eu e Isadora, falar também sobre o trabalho de fazer filmes. E, por fim, quero voltar aqui e ali ao tema de hoje, sobre o trabalho que os filmes realizam em nós que os realizamos – o de expandir a nossa consciência. Mas há uma cena que eu queria usar pra fechar essa minha intervenção… No filme E.T., quando o menininho Elliott sai da casa atrás de “algo” que viu e o assustou -mas não o deteve! -, e desconfia que esteja na garagem escura, ele faz algo. Algo simples, pouco arriscado… Elliott joga na direção da garagem um bolinha. E fica ele, e nós todos, esperando pra ver o que acontece. Essa atitude, dele e nossa, foi construída, com imenso cuidado, com muito trabalho, desde o roteiro, a luz, a maquiagem, tudo o que está ali e quase não vemos tão perfeitamente entregues estamos no menino que espera a bola. E de tudo que virá, depois que ela sim, vem. 

Notas

[1]  Trata-se da Fenomenologia do Espírito, disponibilizado fácil e grátis aqui.

[2] Trata-se de Dialeticomix, disponível aqui.

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