‘Ninguém ficar mais rico’

Fotografia: Levante Popular da Juventude

Se […] o conjunto dos ricos brasileiros não tivesse enriquecido ainda mais em plena pandemia em 2020 e esta soma bilionária tivesse sido distribuída para a saúde pública, universal e gratuita, grande parte dos problemas de falta de recursos para a saúde e enfrentamento do coronavírus […] estaria resolvida.

Selvino Heck

Fonte: Sul21
Data original da publicação: 26/03/2021

‘Democracia e Igualdade: Desafios para a Política fiscal’ era o título de debate recente mais que oportuno com o economista Ladislau Dowbor, autor do importante ‘A Era do Capital improdutivo’, e Dão Real, do Instituto Justiça Fiscal, transmitido pela Rede Soberania e Brasil de Fato RS.

Há poucos dias, em conversa do Operativo Igreja em Saída, formado por representantes de Pastorais, Comunidades Eclesiais de Base, Movimento Fé e Política, Escolas de Fé e Política, atuando em diferentes municípios do Rio Grande do Sul, a preocupação, quase um grito de clamor profético, era ‘a fome voltou e precisa ser prioridade máxima neste momento nas nossas comunidades’.

Dão Real apresentou alguns números impressionantes. 42 bilionários brasileiros ganharam R$ 178 bilhões novos, mais que o normal, em 5 meses de 2020, em plena pandemia. Os já super-ricos enriqueceram absurdamente. No mundo, os ricos ficaram 28% mais ricos. No Brasil, enriqueceram 38%, um verdadeiro escândalo, quando a fome, a miséria e o desemprego estão crescendo assustadoramente, faltam recursos para a saúde, leitos em UTIs, respiradores e outros aparelhos de manter a vida, e as mortes acumulam-se, já mais de 3.000 a cada dia, no total já mais de 300 mil mortes de brasileiras e brasileiros em apenas um ano de pandemia.

Disse Ladislau: “A gente sabe o que deve ser feito. Renda básica da cidadania para quem precisa, imposto sobre grandes fortunas e assim por diante. O problema é político. Paulo Guedes e companhia estão quebrando o país. Esse sistema perdeu sua legitimidade, segundo o prestigiado Finantial Times, com base no equilíbrio do sistema econômico e político.”

Basta ver recentes palavras de Antônio Guterres, Secretário Geral da ONU: “Sem uma ação imediata, milhões de pessoas estarão em risco de sofrer fome extrema e morte no mundo. Os impactos climáticos e a pandemia da COVID-19 alimentam o risco. Mas de 30 milhões de pessoas estão a um passo de serem declaradas em situação de fome. Agora, são em grande parte causadas pelo homem” (Correio do Povo, 21.03.2021).

O economista Eduardo Moreira critica a hipocrisia dos banqueiros, que reclamam porque lotou a UTI no hospital de luxo: “Se quisessem ajudar o país, apoiavam uma reforma tributária que taxasse heranças, fortunas e dividendos. Apoiaram o impeachment. Lembrem-se, durante o caos, lucraram mais de 100 bilhões. Patriotas…” (Brasil 247, 22.03.2021).

O que fazer? Ladislau Dowbor elenca uma série de medidas e propostas discutidas no âmbito do debate chamado e promovido pelo Papa Francisco na ‘Economia de Francisco’, para “repensar a função da economia na sociedade, uma economia a serviço do bem comum, economicamente viável, socialmente justa e ambientalmente sustentável”, a partir dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável: 1. Democracia econômica. 2. Democracia participativa. 3. Taxação dos fluxos financeiros. 4. Renda básica universal. 5. Políticas sociais de acesso universal, público e gratuito. 6. Desenvolvimento local integrado. 7. Serviços financeiros como serviço público. 8. Economia do conhecimento. 9. Democratização dos meios de comunicação. 10. Pedagogia da economia.

Ou, outra alternativa, imediata, nas palavras simples e diretas de Dão Real: “Ninguém ficar mais rico durante a pandemia.” Se os 42 bilionários brasileiros não tivessem ganho e lucrado R$ 178 bilhões a mais em apenas 5 meses de pandemia, e o conjunto dos ricos brasileiros não tivesse enriquecido ainda mais em plena pandemia em 2020, e esta soma bilionária tivesse sido distribuída para a saúde pública, universal e gratuita, grande parte dos problemas de falta de recursos para a saúde e enfrentamento do coronavírus, da falta de leitos em UTIs, de respiradores e tudo mais, estaria resolvida.

Mas esta é a elite brasileira, historicamente escravocrata, autoritária e se lixando para os pobres e o conjunto da população. E apoiadora de ditaduras e de governos necrófilos e genocidas.

Por isso, a luta continua: Vacina para todas e todos já! Auxílio emergencial e emprego já! Fora Bolsonaro já! Lockdown já! E desobediência civil.

Selvino Heck foi deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990).

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