Dossiê fala sobre o “trabalho invisível” de mulheres e meninas de todo o mundo

Imagem: Ailén Possamay

O trabalho de cuidado e doméstico, no mundo todo, é tocado na sua grande maioria, por mulheres e meninas. Esse tipo de trabalho é conhecido também como “trabalho invisível”, pois não é remunerado, e espera-se que as mulheres cumpram o papel de fazê-lo. Essa situação se torna ainda mais desigual em momento de pandemia, onde as pessoas estão mais presas ao ambiente doméstico, aumentando a sobrecarga de trabalho feminina.

Essa é uma das conclusões do estudo “CoronaChoque e Patriarcado”, produzido pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, lançado em função do mês de luta das mulheres e traduzido para o português.

A série “CoronaChoque” têm sido publicada desde o ano passado, levantando os temas e consequências do desenrolar da crise sanitária provocada pela covid-19 no mundo todo. “Na série sobre o CoronaChoque, temos debatido como um vírus que atingiu o mundo com tanta força tem sido capaz de revelar rapidamente as ineficiências sociais, políticas e econômicas atuais e, com isso, colaborado para desmoronar a ordem social.”

Além desse estudo, o Tricontinental lançou também o dossiê N°38 “Desatando a crise; trabalhos de cuidados em tempos de coronavírus”, que trata especificamente sobre os trabalhos de cuidado tocados pelas mulheres, especialmente em tempos de pandemia.

Também em função do mês de março, foi lançada a campanha “Não é amor, é trabalho invisível“, fazendo um apelo à reflexão, sobre quem realiza os trabalhos domésticos e de cuidado nas casas e comunidades.

Aqui, nesta matéria, lançamos alguns tópicos que são tratados no estudo “CoronaChoque e patriarcado” e no dossiê “Desatando a crise; trabalhos de cuidados em tempos de coronavírus”. Vocês podem conferir essas publicações completas, clicando nos links.

Também é possível encontrar mais publicações no site do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, que tem versões em inglês, espanhol e português. Confira, logo abaixo, mais informações sobre esse estudo e seus enfoques.

O trabalho de cuidado e doméstico invisível

O estudo lembra que o cuidado é um trabalho, exige esforço e tempo:

“[O cuidado é um] trabalho que garante que nossas necessidades materiais e psicológicas básicas sejam atendidas, assegurando nosso desenvolvimento humano. O trabalho do cuidado inclui atividades diárias diversas como cuidar de crianças, idosos, enfermos e pessoas com deficiências físicas e mentais”.

Lembra também que as tarefas domésticas como cozinhar e a limpeza também são atividades consideradas de cuidado. Recorda também, que essas atividades são essenciais para viabilizar o trabalho “fora de casa”:

“Embora essa atividade seja essencial para a reprodução da força de trabalho, ela praticamente não é reconhecida e, quando há remuneração, os salários costumam ser baixos.”

O estudo cita um relatório da Oxfam, feito durante a pandemia, apontando que as mulheres são responsáveis por 75% do trabalho de cuidado não remunerado realizado no mundo, somando, diariamente, mais de 12 bilhões de horas gastas por mulheres e meninas em todo o mundo.

O dado mais impactante é que todas essas horas de trabalho correspondem a uma quantia de aproximadamente 10 trilhões de dólares por ano, cerca de três vezes mais do que o valor gerado pela indústria tecnológica, por exemplo. Pensar o trabalho doméstico e de cuidado, não remunerado, dessa forma, permite ver que essas mulheres, na verdade, dão sustento para a economia global.

No Brasil, mulheres dedicam o dobro do tempo ao trabalho doméstico e de cuidado

Em termos da realidade brasileira, os dados são ainda mais desiguais, os dados apontam que 85% do trabalho de cuidado é feito por mulheres. Segundo o IBGE, em 2019, as mulheres dedicavam em média pouco mais de 21 horas semanais ao trabalho doméstico, enquanto os homens apenas 11 horas, praticamente a metade do tempo.

Nos casos das mulheres que trabalham fora de casa, a desigualdade persiste: elas cumprem, em média, mais de 8 horas a mais em obrigações domésticas em relação aos homens que também trabalham fora.

Essa realidade, aponta o estudo do Tricontinental, se acentuou na pandemia.

Na pandemia, desigualdade se acentuou

O estudo cita uma pesquisa da Sempreviva Organização Feminista e da revista digital Gênero e Número, chamado “O trabalho e a vida das mulheres na pandemia”, estimando que 50% das brasileiras passaram a cuidar de alguém nesse período.

Pouco mais de 70% das mulheres que participaram da pesquisa afirmaram que aumentou o trabalho de cuidado, especialmente com crianças, idosos ou pessoas com deficiência. Além disso, cerca de 40% das mulheres que seguiram com seus trabalhos “fora de casa” durante a pandemia, com manutenção de salários e carga horária, afirmaram que estão trabalhando mais na quarentena.

O estudo acrescenta ainda que, as mulheres que puderam passar a exercer seus trabalhos de forma remota (teletrabalho ou home office) tiveram acrescidas diversas dificuldades ao seu cotidiano. Primeiro, a mistura entre trabalho externo e doméstico cria uma rotina de esforço que parece não ter fim:

“O tempo da faxina, da higienização, de cozinhar e lavar se somam às tantas outras demandas externas. Mães se tornam educadoras de seus filhos, filhas de idosos e enfermos se tornam cuidadoras; os trabalhos outrora compartilhados com creches/escolas e outras profissionais e ajudantes se acumulam e se justapõem, apagando a divisão entre tempo trabalho e tempo casa”.

Outra dificuldade posta pela situação do trabalho remoto é a grande dificuldade de exercer tarefas que exigem alta concentração, devido à grande quantidade de interrupções. Este quesito tem sido notado pela queda acentuada na quantidade de submissões de artigos assinados por mulheres em todo o mundo, enquanto as publicações dos homens aumentaram em quase 50%.

Este tema, em específico, é tratado também de forma bastante didática pela economista Juliane Furno, em seu canal no Youtube.

Soluções imediatas à crise não são difíceis de encontrar

O estudo apresenta uma estimativa de que, no Brasil, segundo o IBGE, em 2050 haverá “cerca de 77 milhões de pessoas dependentes de cuidado (pouco mais de um terço da população do país) entre idosos e crianças”. Isso deveria ser uma preocupação para a sociedade como um todo, visto que a tendência da sociedade é legar todo este trabalho para as mulheres. Soluções e alternativas para essa realidade passa, principalmente, pelo financiamento de estruturas e políticas públicas voltadas ao trabalho de cuidado.

Para isto, soluções imediatas não são difíceis de pensar, muito menos implementar. De acordo com a Oxfam:

“Se o 1% mais rico do mundo pagasse um imposto de 0,5% sobre sua riqueza nos próximos 10 anos, seria possível criar 117 milhões de empregos em educação, saúde e de cuidado para idosos”.

O estudo ainda alerta que, de acordo com os sinais atuais, não há perspectivas da implementação das taxações de grandes fortunas. Ao contrário, em plena pandemia o que se observou foram políticas e ajustes para continuar beneficiando grandes bancos e empresas. Demonstrando que parte do problema da desigualdade social e de gênero é político e não econômico.

O estudo conclui essas observações com uma frase de mais de um século da feminista e educadora Alexandra Kollontai: “O capitalismo colocou um fardo esmagador sobre os ombros da mulher: fez dela uma trabalhadora assalariada sem ter reduzido seus cuidados como governanta ou mãe”.

Fonte: Brasil de Fato
Texto: Pedro Neves Dias
Data original da publicação: 12/03/2021

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