Dois meses de greve geral na Colômbia: veja o que mudou

Fotografia: Congreso de los Pueblos

A paralisação nacional na Colômbia completa dois meses de atividades ininterruptas, como marchas, bloqueios de rua e cozinhas populares. A greve geral já é considerada a maior mobilização da história do país e conquistou a suspensão de duas reformas, provocou o pedido de renúncia de dois ministros e muita repercussão internacional.

A efervescência das ruas e a violência policial desatada levaram à suspensão da Copa América no país, que acabou sendo realizada no Brasil. O governo de Iván Duque também terminou aceitando a entrada da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) para verificar as denúncias de brutalidade policial.

“A paralisação é o conjunto de muitas coisas, mas particularmente se tornou uma forma de encontrar respostas coletivas a problemas que os latifundiários, empresários, mafiosos nos geraram durante as últimas décadas”, afirma o defensor de direitos humanos de Facatativá, Yeisson Cajamarca.

Segundo levantamento de organizações de direitos humanos, desde o dia 28 de abril, foram registrados 75 homicídios, 4.285 casos de violência policial, mais de 300 desaparecidos e 81 vítimas de lesão ocular por disparos da polícia.

“Não se trata de um erro, mas de uma ação sistemática para assustar os manifestantes”, acusa Yeisson Cajamarca.

O presidente anunciou uma reforma policial que foi considerada pelos movimentos populares uma mudança cosmética.

“Na Colômbia temos um regime civil-policial, uma ditadura civil com uma polícia que atua como uma força militar. O governo afirma que está diante de um levantamento terrorista, com influência de grupos armados, e utiliza uma estratégia militar para conter a paralisação”, comenta o presidente do Instituto de Desenvolvimento da Paz (Indepaz), Camilo González.

“Outro aspecto que podemos confirmar que o fenômeno paramilitar está latente, convive com os colombianos e o governo é conivente. Isso ficou demonstrado quando Duque viajou a Cali, não se reúne com as vítimas, com os indígenas, senão que vai a um bairro rico e se reúne com pessoas que apoiam os grupos paramilitares urbanos na cidade”, complementa o jornalista colombiano.

Descontrole da Violência

Longe de chegar a um acordo nacional, a violência contra os manifestantes só aumentou.

Na última semana, foi encontrada a cabeça de Santiago Ochoa, que havia sido dado como desaparecido durante as atividades da paralisação nacional em Cali. O adolescente foi decapitado e seus restos mortais encontrados no município de Tuluá, Valle del Cauca.

“E agora se expressa uma maior ação paramilitar clandestina com sequestro de jovens e práticas brutais, como decapitação e esquartejamento”, denuncia González.

A região sul-ocidental da Colômbia reúne a maioria dos casos de brutalidade policial e ação paramilitar, já que é zona que leva para o maior porto da costa colombiana do Oceano Pacífico. É pelo porto de Buenaventura, Valle del Cauca, onde é escoada a produção de café e de cocaína, principais produtos de exportação colombianos.

A Colômbia é o maior produtor de cocaína do mundo. Segundo a ONU, em 2017, foram cultivados 171 mil hectares da planta de coca, que representava 70% do consumo mundial da droga.

Segundo documentos do Departamento Antidrogas dos EUA (DEA), é pela costa ocidental do Mar do Caribe onde circula a maior quantidade de drogas para a América do Norte.

No entanto também já existem casos de violência na região metropolitana da capital. Em menos de 48h, entre quarta e quinta-feira (23 e 24) da última semana, dois jovens foram mortos pela ação policial nos municípios de Suba e Usme, sul de Bogotá. 

“A paralisação evidenciou a mão repressiva do Estado na zona urbana, porque isso que estamos vendo – assassinatos, violência sexual, desaparecidos – acontece há 60 anos de conflito na zona rural”, conta o jornalista, natural de Cali, John Lastra.

É consenso entre os analistas de que a visita da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) serviu para aumentar a pressão internacional sobre o governo Duque, mas não conteve a repressão.

“Por um lado gerou uma pressão internacional, mas por outro vemos uma simulação narrativa acompanhada de persistência de práticas de terror contra a população”, afirma o presidente do Indepaz.

Conquistas

Ainda que existam divergências sobre como a mobilização deve seguir, os analistas coincidem que a paralisação foi vitoriosa. Há duas semanas, as centrais sindicais romperam com o Comitê Nacional de Paralisação, enquanto outros setores passaram a convocar assembleias populares que decidiram pela manutenção de convocatórias nacionais todas as quartas-feiras.

“O Comitê Nacional de Paralisação é muito importante pelas convocatórias, mas não suficientemente representativo. Demonstrou ao governo que não tinha como controlar as ruas e isso motivou que o governo dilatara a negociação, porque não queria demonstrar conquistas do comitê”, afirma o presidente do Indepaz.

O debate sobre a mesa está relacionado à capacidade de manter as atividades de paralisação com participação massiva e conquistar as próximas demandas, relacionadas a uma verdadeira reforma policial, ao direito à manifestação pacífica.

 “A conquista mais importante é o reconhecimento do poder das ruas, da democracia dos debaixo, de novas formas organizativas. Não somente as organizações de primeira linha, mas é a barricada convertida numa organização da comunidade. É renovação extraordinária da democracia direta”, analisa González.

“Para reconstruir a democracia deste país serão necessários muitos anos mais. O triunfo principal é que as pessoas perceberam que as ruas são um caminho para buscar um novo futuro e quando estamos unidos podemos conquistar muitas coisas”, defende Cajamarca.

Cenário eleitoral

As divisões da esquerda e o saldo político da greve geral também passam pelo debate eleitoral. Assim como o Brasil, a Colômbia terá eleições presidenciais e parlamentares em 2022.

Pela esquerda, o candidato favorito é Gustavo Petro (Colômbia Humana), ex-prefeito de Bogotá e ex-candidato à presidência em 2018. Petro busca formar um “pacto histórico” para eleger uma plataforma unitária de congressistas.

“Por que de nada serve estar na presidência com uma maioria opositora no Congresso. Este ‘pacto histórico’, como batizaram, tem um contrapeso na estratégia política dos setores conservadores”, afirma Lastra.

A direita tradicional busca desvincular-se do partido governante Centro Democrático e do uribismo – corrente política do atual presidente e de Alvaro Uribe Vélez.

Para isso, tentam posicionar uma terceira via com Sérgio Fajardo, quem também foi candidato à presidência nas últimas eleições pelo partido Verde. A outra opção é Alejandro Gaviria, reitor da Universidade dos Andes e ministro de saúde na gestão de Juan Manuel Santos (2014 – 2018).

“O mais provável é que ele seja candidato por alguma organização cívica, algo similar ao Pachakutik no Equador, que saiu como candidato independente fazendo abaixo assinado para defender sua candidatura, e no segundo turno termina apoiando Lasso, através do chamado ao voto nulo”, analisa John Lastra.

Apesar do futuro incerto, o consenso é de que a paralisação deve continuar.” Os protestos seguirão no próximo período, porque os problemas são graves e as respostas são basicamente repressivas”, conclui Camilo González.

Fonte: Brasil de Fato
Texto: Michele de Mello
Data original da publicação: 28/06/2021

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