Desemprego na pandemia atinge setores sociais mais vulneráveis

Fotografia: Aaron Favila

Uma análise de conjuntura sobre o Brasil em meio à pandemia do novo coronavírus mostra um contexto desfavorável no aspecto econômico. O mercado de trabalho segue com níveis elevados de precariedade e a crise, depois de atingir negativamente os trabalhadores informais, “demonstra forte deterioração” nos postos de trabalho formalizados, prejudicando, principalmente, mulheres, jovens, idosos e a população negra.

O dado de que o desemprego no país tem gênero, raça e idade é do Grupo de Estudos e Acompanhamento da Conjuntura Econômica (Geace), que reúne, ao todo, cinco pesquisadores da área. 

De acordo com boletim mensal, divulgado em 26 de novembro, entre março e setembro, o saldo negativo de admitidos e demitidos foi de 897,2 mil vagas. Foram 688,5 mil mulheres demitidas, contingente populacional que mais concentrou perdas de empregos formais durante a pandemia, totalizando 65,6% do total de postos de trabalho celetistas fechados. Os pesquisadores também apontam que, além de estarem saindo em maior quantidade do mercado formal, as mulheres são o grupo com maior dificuldade para retornar.

Isso teria ligação direta com a divisão sexual do trabalho, que sobrecarrega essa população com mais de uma jornada de trabalho, atribuindo a elas a obrigatoriedade dos afazeres domésticos e do cuidado com os filhos, em um período no qual creches e escolas foram fechadas. O trabalho feminino, como destaca o boletim, ocupa ainda hoje também os empregos mais vulneráveis ao distanciamento social “Tais como os setores de alojamento e alimentação, trabalho doméstico e outros serviços”, diz o Geace. 

Quem paga a conta do desemprego na pandemia

Já entre os jovens, segundo o Geace, pelo menos um em cada seis deixou de trabalhar desde o início da pandemia. Com base em dados da Pnad, metade dos potenciais trabalhadores de 18 a 24 anos estavam ocupados no início de 2020, índice que recuou, entre abril e junho, para 42,2%. 

A população acima dos 50 anos, por sua vez, encontra maiores dificuldades de recolocação no mercado de trabalho. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), levantados pelo boletim, revela que as admissões ficaram em torno de 20% menores do que no período entre 2012 e 2019, enquanto os desligamentos entre os mais velhos ficaram superiores à média nacional. No quesito raça, a população negra é atingida. Entre os que se declaram pretos, de cinco pessoas, uma está desempregada. 

“Temos historicamente um elemento de maior vulnerabilidade nesses setores, não é uma surpresa. Mas nesse período da pandemia o que vemos é que houve uma desestruturação generalizada que acabou impactando setores historicamente mais propensos a sofrer esses abalos”, explica a economista Iriana Cadó, uma das pesquisadoras do Geace, em entrevista a Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual.

Auxílio emergencial e o comércio

Iriana destaca sua preocupação principal com o fenômeno que acontece no setor do comércio. O boletim identifica que o auxílio emergencial ajudou esse segmento a aumentar o volume de vendas. Mas não houve, por outro lado, um aumento no número de postos de trabalho na área que emprega sobretudo a população mais jovem. A economista observa uma transformação no setor que pode influenciar na criação de um número menor de empregos do que antes da pandemia.

“É a venda do e-commerce que puxou esse cenário (de alta). O que não necessariamente gera empregos diretos para pessoas que não tenham muita qualificação, cria para o setor de TI (Tecnologia da Informação), de inteligência artificial, análise de dados e o setor de tecnologia em geral. Mas não vai conseguir avançar no sentido de gerar postos de trabalho para quem foi efetivamente prejudicado na pandemia”, analisa. 

As vendas pela internet também revelam a desigualdade dentro do segmento de comércio. De acordo com a pesquisadora, são empresas grandes, conglomerados do varejo que estão na dianteira das vendas virtuais, e não as pequenas empresas que, em paralelo, sofrem com dificuldades de acesso a crédito, embora sejam responsáveis por pelo menos 54% dos empregos formais no país.

Renda básica e fim do teto para o futuro

“E com o fim do auxílio emergencial, talvez nem mesmo o setor do comércio online sobreviva por muito tempo. Não há o que comemorar tanto por ora. Vai vir uma ressaca bem grande no próximo período se o auxílio for cortado”, adverte. 

Com a possibilidade de encerramento do auxílio pelo governo federal, diante do nível do desemprego ainda mais alto do que já era antes da pandemia, e com as mudanças estruturais no mercado de trabalho, Iriana destaca a urgência do país em criar um tipo de renda básica e revogar o Teto de Gastos, que limita investimentos em áreas sociais. 

“Como pesquisadora, realmente não vejo outra saída. Se o auxílio for cortado do dia para a noite vamos ter uma quebradeira econômica generalizada. Estamos com 14,6% de desempregados, de acordo com a Pnad. Isso é muito alto, um recorde da série histórica”, alerta. “No momento em que a gente está, o que menos precisamos é aprofundar os aspecto recessivos, pelo contrário. A gente precisa dar condições para que a economia volte a funcionar forte e não respire mais por aparelhos.”

Confira a entrevista:

https://youtu.be/uKQKbxq6_Yo

Fonte: RBA
Data original da publicação: 03/12/2020

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