Desemprego em queda é apenas sofisma barato, afirmam analistas

Os últimos números do desemprego no Brasil, anunciados pela mais recente pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia (IBGE) e Estatística no início desta semana, trazem em letras pequenas, no rodapé, que o aumento mais significativo ficou por conta dos ‘bicos’, como é chamado o emprego temporário. São atividades de subsistência, frágeis e sem qualquer anteparo legal.

Enquanto os brasileiros apelam para qualquer serviço, para não morrer de fome, as vagas com carteira assinada e alguma perspectiva de carreira seguem estagnadas. Não há crescimento do Produto Interno Bruto (PIB); logo, não há novos empregos.

Carteira assinada

Para o diretor-executivo André Araújo, do Centro de Estudos da Livre Empresa (CELE), instituto que pesquisa as instituições sindicais e associativas, de caráter patronal no Brasil, o que há, na realidade, é um sofisma barato. No artigo sob o título ‘A farsa da volta do emprego’, publicado originariamente no site GGN, Araújo é objetivo:

“Para mascarar a recessão induzida por essa política dá-se brilho a truques estatísticos, como dizer que o desemprego está caindo, algo irreal à luz da observação empírica. O IBGE aponta a criação de 658 mil empregos entre maio e agosto deste ano. Empregos criados onde e porque se não há investimento produtivo digno de registro, público ou privado? E, claro que não se criou emprego algum de carteira assinada, isso o próprio IBGE reconhece”.

Segundo o dirigente patronal, “o próprio IBGE declara que são empregos informais, onde tudo pode entrar; de motoqueiro entregando pizza a guardador de carro. São basicamente subempregos de baixíssima renda. O grave problema que nenhuma estatística de emprego aponta é uma realidade cruel”.

Novo emprego

“Depois de procurar emprego por dois anos um engenheiro com excelente formação e boa experiência teve que aceitar qualquer coisa; hoje trabalha no almoxarifado de um grande supermercado, seu valor de mercado seria de R$ 20 mil. Ganha R$ 3,5 mil, para não morrer de fome.

Esse tipo de situação é geral hoje na economia brasileira. São dezenas de milhares de bons engenheiros desempregados; acabou a indústria naval; a indústria de bens de capital está paralisada porque não há investimentos; há pouca construção de usinas, portos, estradas e aeroportos. Existe, então, uma imensa reserva de mão de obra técnica desempregada”, acrescenta.

E segue: “Quando um engenheiro vira motorista de Über e existem centenas nessa situação, o IBGE conta como um novo emprego. (…) Mas, na realidade nua e crua, é apenas um infeliz que aceita qualquer emprego para não passar forme. Ele e sua família, um homem com mulher e filhos para criar faz literalmente qualquer coisa para manter a família. É essa a realidade real da economia brasileira de hoje”.

Recuperação lenta

O quadro é tão mais grave do que tentam passar os veículos de comunicação da mídia conservadora que um estudo do banco Credit Suisse usou 123 episódios de recessões econômicas similares a enfrentada pelo Brasil, atualmente, para elaborar um estudo a cerca do impacto que a crise terá no mercado de trabalho nos próximos anos.

A conclusão desse estudo, segundo mostra o resumo compilado por um grupo de inteligência contábil a que a reportagem do Correio do Brasil teve acesso, é desanimadora:

“Se a economia brasileira se comportar da mesma forma que outras 37 nações que passaram por recessão nas últimas décadas, o desemprego somente deverá voltar ao nível pré-crise (de 6,5% em 2014) no 3º trimestre de 2022. Em 2017, de acordo com a Pnad Contínua (indicador medido pelo IBGE), as taxas de desemprego no país estão na casa dos 13%. Portanto, seriam necessários cinco anos para o Brasil se recuperasse da crise, ao menos em termos de geração de emprego”.

Reação no mercado

Para chegar a esse resultado, a instituição financeira levou em conta um crescimento econômico hipotético de 2% a partir de 2018. Já em cálculos mais otimistas, com a economia crescendo 3% ou 4% ao ano, a taxa de 6,5% seria alcançada no 1º trimestre de 2021 ou no 3º trimestre de 2020, respectivamente.

Analisando mais de 120 casos dos últimos anos, o banco concluiu também que o Produto Interno Bruto (PIB) se recupera antes de acontecer alguma reação no mercado. Ao menos foi isso o que aconteceu em 50 dos casos estudados, sendo que o PIB precisou de, em média, sete trimestres para voltar ao nível pré-crise, enquanto que o desemprego levou 9 trimestres para chegar ao patamar anterior a recessão.

Porém, nos casos de recessão profunda, como a que encontramos no Brasil, a recuperação foi mais demorada: 15 trimestres para o PIB e 17 para o desemprego. Entretanto, esses são projeções mínimas, conforme destaca o economista Leonardo Fonseca, da equipe do Credit Suisse, uma vez que, nesses 50 países o crescimento foi forte o suficiente para permitir a queda da taxa de desemprego.

’Nível normal’

No Brasil, a estimativa é que o PIB precise de um crescimento acima de 1,7% por ano para que a taxa de desemprego comece a recuar.

“Se a economia do país crescer muito perto desse número, a queda do desemprego pode demorar muito. Para que ele caia mais rápido, seria preciso crescer perto de 3% ou 4% ao ano“, ressalta Fonseca.

Em outros 12 casos, tanto o PIB quanto o desemprego não conseguiram voltar ao nível anterior à crise. Já em 59 episódios, o Produto Interno Bruto voltou “ao normal”, mas a taxa de desemprego não.

Demais elementos

Além disso, há outros elementos que podem interferir no tempo de recuperação como, por exemplo, o trauma da recessão, que pode causar mudanças permanentes.

Essa situação é chamada na economia de histerese. Trata-se de um termo da física. É usado para classificar o fenômeno de materiais que conservam propriedades, mesmo sem o estimulo que as gerou.

Alguns estudos já apontaram. Trabalhadores demitidos, ou que não conseguiram emprego durante períodos de crise, têm sua qualificação e rendimento afetados pelo resto da vida; reduzindo a eficiência geral da economia. Ou seja, mesmo após passado os efeitos de uma recessão, alguns resquícios podem permanecer por tempo indeterminado.


Desemprego crônico

A única forma de enfrentar o desemprego que atinge mais de 13 milhões de brasileiros é garantir o retorno do “crescimento econômico; com desenvolvimento político e social. Não há milagre. É preciso implementar um projeto de desenvolvimento nacional que leve em conta as necessidades da população”. A afirmativa é da economista Patrícia Pelatieri. Ela falou aos jornalistas do site do Instituto Humanitas Unisinos, de Porto Alegre.

Entretanto, pontua, a aprovação da PEC 95, que institui o teto dos gastos públicos, conduzirá o país para outra direção.

— Infelizmente, a Reforma do Estado imposta pela PEC 95 vai significar empobrecimento da população; em decorrência da contenção das políticas públicas, e diminuição da capacidade do Estado em alavancar o crescimento e promover o desenvolvimento. E sabemos que a retomada de um ciclo de crescimento exige uma longa e penosa travessia — conclui.

Fonte: Correio do Brasil
Data original da publicação: 05/10/2018

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